1985, seminário sobre "DÍVIDA" externa em Cuba
Brasileiros redigem documento medíocre, me recuso a assinar
Quando anunciaram que o presidente Lula iria a Cuba, jornalões não perderam oportunidade para a desinformação: "Fidel Castro não receberá Lula". Garanti o contrário, me baseei em uma constatação e um fato. A constatação: Fidel * receberia Lula mesmo que estivesse no hospital, coisa que já está distante, depois de um longo tempo.
O fato: em 1985, no apogeu, Fidel organizou um seminário sobre "DÍVIDA" externa, convidou 4 mil pessoas da América Latina. Como ele mesmo ressaltou na abertura: "Os comunistas aqui representam minoria, muitos, nos seus países, defendem o pagamento dessa dívida".
Eu era o único jornalista convidado e com garantia de falar. (Estavam também dois grandes jornalistas, Newton Carlos e Argemiro Ferreira). Como jornalista, minha condição era igual, só que eu participaria, discursando, violentamente, como é do meu hábito, gosto e convicção. Principalmente em se tratando dessa "dívida" amaldiçoada. Mas também escrevi diariamente de lá.
Presenciei e acompanhei o carinho e amizade do tratamento de Fidel a Lula, que só seria candidato a presidente em 1989. Fidel não adivinhava essa candidatura, Lula ainda não tinha certeza dela. Portanto era pura admiração. Há dias, o próprio Argemiro Ferreira relembrou alguns fatos e fotos do repórter com várias personalidades, com Lula e muitas de Lula com Fidel. E falou no documento que me recusei a assinar e que preciso esclarecer, embora 22 anos depois.
O seminário foi interessante, Fidel fez a abertura falando 6 minutos, no encerramento, 12 dias depois, é que falaria 8 horas. Ele ficava o tempo todo na mesa, durante os 12 dias, mas sem presidir. A presidência era rotativa, presentes muitas personalidades na mesa principal, como Gabriel Garcia Marques, Prestes, Peres Esquivel (Prêmio Nobel da Paz, Argentina), Isabel Allende e o próprio Lula.
Como Fidel explicou, não podiam falar todos. Eu e Prestes falamos sobre a "dívida", Prestes lendo, eu de improviso, nenhuma importância. Como estudei a vida inteira essa "dívida", Fidel, uma noite, no Palácio das Convenções, me disse: "Você conhece a dívida de Cuba melhor do que eu". Puro charme, eu conhecia Fidel (e Che Guevara) de 1960, quando fui a Cuba com Jânio Quadros, candidato a presidente. Em 1960 ou 1985, não consegui ver ou falar com Raul, agora presidente.
Quase terminando o seminário, brasileiros (não representavam o Brasil, todos nós, 62 pessoas, éramos convidados) resolveram publicar um manifesto sobre a "DÍVIDA". Redigido inicialmente pelo economista Luiz Gonzaga Belluzzo, foi sendo assinado por Severo Gomes, Bocaiuva Cunha, Frei Betto, Cristina Tavares e mais uma porção de participantes.
Quando o documento chegou às minhas mãos, fiquei impressionado com a suavidade, a falta de agressividade e até mediocridade do que estava escrito. Imediatamente devolvi o que me entregaram, redigi 6 pontos novos, afirmando: "Só assino se esses itens forem incluídos". Houve discussão e os itens que redigi foram considerados "um segundo documento, que negava o primeiro".
Inflexível, Lula conversou comigo sobre o problema mas não pediu nada. Quem me fez um apelo emocionado, que não pude recusar de maneira alguma: Luiz Carlos Prestes. Argemiro Ferreira lembra o fato, mas não o que eu disse a ele: "Só vou assinar por causa da admiração pela sua luta de uma vida". Ele me abraçou, assinei, com desprezo pelo que diziam, ou melhor, não diziam.
Isso era admiração pura e simples pelo homem Prestes. Nunca fui comunista, jamais pertenci ao PCB, minhas lutas sempre foram em defesa do Brasil potência mundial.
PS - No dia 26 de março de 1981, esta Tribuna foi destruída pela ditadura praticamente derrubada mas vingativa.
PS 2 - No dia 25, véspera da catástrofe, a partir das 9 da noite até à madrugada, eu e Prestes travamos debate de idéias e convicções, antagônicas, no Centro Candido de Oliveira da Faculdade de Direito. É só verificar os arquivos.