sexta-feira, 11 de julho de 2008
STF manda soltar Daniel Dantas pela segunda vez - G1 - ,link (aqui)
Presidente do Supremo, Gilmar Mendes suspendeu prisão preventiva de banqueiro.
Ele foi detido novamente horas depois de ser solto com um habeas corpus do STF.
O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Gilmar Mendes, mandou soltar nesta sexta-feira (11) o banqueiro Daniel Dantas. Ele foi preso pela segunda vez na quinta (10), horas depois de ter recebido um habeas corpus do STF - também concedido por Mendes.
O ministro suspendeu a prisão preventiva decretada contra Daniel Dantas pela 6ª Vara Federal Criminal em São Paulo e mandou expedir alvará de soltura em nome do banqueiro.
Na petição, a defesa argumentou que a Justiça Federal de São Paulo decretou nova prisão do banqueiro “visando apenas desrespeitar a decisão” do STF. Ele acrescentou que não teria havido nenhum fato novo "relevante", que não fosse de conhecimento do STF, para ser decretada a nova prisão.
“Tudo que a autoridade policial e o Ministério Público apontam como fatos possivelmente justificadores da decisão de prisão preventiva constituem documentos que já foram colhidos na instrução processual, em face dos quais Daniel Dantas nada pode fazer”, relatou a defesa, na petição. “O suposto fato novo é um manuscrito apócrifo referente ao ano de 2004. Isso não altera as evidências fáticas que levaram o juiz a anteriormente indeferir a prisão preventiva do paciente”, complementou.
Dantas: "Vou contar tudo! Detonar!" - Bob Fernandes - Terra Magazine - link (aqui)
| Reuters ![]() |
Preso, o banqueiro Daniel Dantas amaça contar tudo o que sabe sobre a corrupção no Brasil
Os intestinos do Brasil.
Daniel Dantas está numa sala da Superintendência da Polícia Federal em São Paulo. Seu advogado, Nélio Machado, está próximo.
Diante do banqueiro, o delegado que coordenou a operação Satiagraha, o homem que o prendeu por duas vezes em 48 horas. São 8 da noite da quinta-feira, 10 de julho.
Outros dois dos presos na operação acabam de ser libertados, habeas corpus do presidente do Supremo, Gilmar Mendes, concedido ao megainvestidor Naji Nahas e ao ex-prefeito Celso Pitta.
Daniel Dantas parece exausto, rendido, mas não deixou de ser quem é. Obcecado por tudo que foca e toca, brilhante, genial, reconhecem mesmo os mais empedernidos adversários.
O tempo, pouco tempo, dirá o quanto há de cálculo, quanto há de desabafo no que começa a despejar sobre o delegado Protógenes Queiróz. Primeiro, a senha:
- Eu vou contar tudo! Vou detonar!
Antes ainda, o delegado lhe passa um calhamaço, o relatório das investigações, o fruto de anos de investigações, e diz, na longa conversa informal:
- ...sua grande ruína foi a mídia...você perdeu muito tempo com isso, leia esse capítulo sobre a mídia e entenda porque você está preso...sua defesa começa aqui, com todo o respeito que eu tenho ao seu advogado aqui presente...
Daniel lê, atentamente.
O delegado volta à carga.
- Não continue jogando seus amigos, seus aliados contra mim, isso não vai adiantar nada, como não adiantou...
Daniel, silencioso, parece concordar. O delegado prossegue:
- Se esse jogo continuar, a cada vez serão mais dez anos de prisão... eu tenho pelo menos 5 preventivas contra você, o trabalho do juiz De Sanctis é extraordinário, não há como escapar de novos mandados...e se você insistir agora será com a família toda...serão duzentos anos de prisão...
Silêncio, Protógenes Queiroz fecha o cerco:
- ...vamos fazer um acordo, você me ajuda e eu te ajudo....
Daniel, aquele que é tido e havido como uma mente brilhante, decide. O tempo dirá se cálculo ou rendição:
- Eu vou contar tudo!
E faz jorrar, devastador:
-...vou contar tudo sobre todos. Como paguei um milhão e meio para não ser preso pela Polícia Federal em 2004...
- Um milhão e meio? À época da operação Chacal, o caso Kroll...?
Prossegue a torrente de Daniel:
- ...tudo sobre minhas relações com a política, com os partidos, com os políticos, com os candidatos, com o Congresso... tudo sobre minhas relações com a Justiça, sobre como corrompi juízes, desembargadores, sobre quem foi comprado na imprensa...
O delegado, avança:
- Vamos fazer um acordo, mas é ponto de honra você não mentir. Não abro mão dessa investigação e seus resultados, mas muito mais fundamental é contar tudo sobre a corrupção no Brasil...quero saber a quem você pagou propina no Judiciário, no Congresso, na imprensa...
Em meio à torrente, em algum momento o advogado Nélio Machado pondera:
- ...você vai estar mais seguro na cadeia do que fora, fora você correrá risco de ser morto!
Daniel Dantas, o obcecado por tudo que toca e foca, a mente brilhante, aquele que mesmo os inimigos dizem ser um gênio, despeja:
- Eu vou detonar tudo!
Tarde da sexta-feira 11 de Julho. Daniel Dantas está na Superintendência da Polícia Federal, São Paulo, onde será ouvido formalmente pelo delegado Protógenes Queiróz a partir das 15h30.
O advogado Nélio Machado informa ao reportariado que vai orientar seu cliente para nada dizer.
O tempo, pouco tempo, dirá se tudo não passou de exaustão, desabafo.
Se tudo foi só cálculo, ou, um mergulho definitivo, purificador, nos intestinos do Brasil.
"O senhor está preso", diz delegado a Dantas - Bob Fernandes - Terra Magazine - link (aqui)

Os intestinos do Brasil.
Duas e meia da tarde. Dez de julho. Avenida 9 de julho, São Paulo. Saguão do edifício 5519. O delegado da Polícia Federal sente um certo desconforto.
Algo difuso, mas Protógenes Queiróz não tem tempo para pensar sobre isso, processar exatamente o que é. Um jovem está à sua frente.
Terno escuro, gravata. O jovem é advogado, filho de um desembargador.
O delegado já pediu a um dos outros dois jovens delegados que o acompanham:
- Sobe lá, faça contato visual, veja se ele está aí mesmo.
Ele, Daniel Dantas, está. Na ampla sala de seu advogado, Nélio Machado, cercado por uma dezena de senhores. Quase todos advogados. Muitos, desembargadores aposentados.
O rádio chama. O delegado, no saguão, atende:
-Chefe, o home tá aqui!
Protógenes Queiroz desliga o rádio, informa ao jovem advogado à sua frente:
- Vim aqui cumprir um mandado de prisão contra o senhor Daniel Valente Dantas. Mandado expedido pelo senhor juiz Fausto de Sanctis.
- Mas ele foi libertado...
A argumentação do advogado é interrompida:
- Eu estou aqui, sem ninguém, com apenas dois outros policiais. Vocês estão usando gente da mídia para inverter os papéis, falam em "espetáculo", como se fossemos bandidos... eu vim aqui, discretamente, para que fique claro quem são os bandidos...
O advogado busca tempo:
- ...o senhor aguarde, por favor, o Nélio Machado já vai chegar...
O delegado sabe que o advogado já chegou. Daniel Dantas daria uma entrevista coletiva em seu escritório, em frente ao Shopping Iguatemi. Antes, uma rodada com advogados para enfrentar a audiência marcada.
- O doutor Nélio tem cinco minutos para chegar. Se não chegar eu vou subir e prender o seu cliente. E aí ele vai ser preso e algemado. Estamos aqui discretamente, para que vocês não falem em espetáculo, mas se vocês querem circo, terão circo. Vou chamar viaturas caracterizadas, a imprensa toda vai chegar, e aí vamos para o tudo ou nada. Escolha.
O jovem advogado toma o elevador, e sobe. Volta em 5 minutos:
- Falei com o Nélio, o meu cliente vai descer.
- Não, eu vou subir, vou até lá em cima verificar.
Antes de tomar o elevador, o delegado ordena aos dois comandados:
- Você fica aqui e você cuida da garagem...
Protógenes Queiroz está na ampla sala do escritório de advocacia. Diante dele, terno azul marinho, camisa azul clara, gravata azul entre os dois tons, Daniel Dantas arregala os olhos azuis, o rosto exibe sinais de cansaço.
Uma dúzia de homens, frente a frente. O delegado, barba rala, olhos avermelhados de quem não dorme há 4 dias, encara Daniel Dantas e dispara:
- O senhor está preso!
Silêncio e tensão na sala. Protógenes Queiroz avança:
-...preso por mandado exarado pelo excelentíssimo juiz Fausto de Sanctis..
Ergue-se um emaranhado de vozes, uma frase, com pequenas variações, brota do coro de advogados:
- ...ele foi liberado por ordem do presidente do Supremo....o ministro Gilmar Mendes concedeu habeas corpus...
- O que o doutor Gilmar apreciou foi a prisão temporária, aqui trata-se de um pedido de prisão preventiva...
Daniel Dantas abaixa a cabeça, arqueia os ombros. Gesto secundado, nos segundos seguintes, pelo espesso silêncio da escolta de advogados.
Daniel Dantas, com um gole no copo d'água, toma um tranqüilizante.
Daniel Dantas, o ex-sócio do então maior banco do mundo, Citibank, da maior empresa italiana, Pirelli, dos maiores fundos de pensão do Brasil, o homem por trás de muito, de quase tudo que signfica poder, está preso pela segunda vez em 48 horas.
Os exames de corpo e delito foram feitos. Daniel Dantas está no IML, onde se cumpre a praxe.
O delegado Prótogenes Queiroz toma o pulso esquerdo de Daniel Dantas, o gesto é gentil. O próprio banqueiro do Opportunity gira o pulso direito, leva-o às costas.
O delegado segura os dois pulsos, nota a perfeição nos punhos da camisa azul de Daniel, percebe, enfim, o que o incomodava, difusamente...
Há 5 dias Protógenes Queiroz usa a mesma roupa. É preciso, ao menos, comprar uma cueca nova.
As algemas se fecham. Clic. Daniel Dantas está preso.
Carlos Chagas - Tribuna da Imprensa - link (aqui)
Contrariando a natureza das coisas
BRASÍLIA - Pudesse ter sido feita uma pesquisa nacional de opinião na madrugada de ontem, logo depois de o presidente do Supremo Tribunal Federal haver libertado Daniel Dantas, e não surpreenderia ninguém a indignação de no mínimo 90% dos consultados. Não se debite essa suposta reação à maior corte nacional de justiça do país, como instituição, mas, apenas, a um de seus ministros, por coincidência o presidente.
Foi Gilmar Mendes que concedeu o habeas-corpus ao banqueiro acusado de formação de quadrilha, tráfico de influência, evasão de divisas, lavagem de dinheiro e tentativa de corrupção de delegados da Polícia Federal.
Mesmo assim, está sendo sobre o Supremo, e mais do que o Supremo, sobre o Poder Judiciário, que cai a pecha de elitismo e tolerância para com os supostos ladravazes de colarinho branco. É uma pena essa generalização, mas poderia ser diferente?
De jeito nenhum. "A polícia prende, a Justiça solta" - era o comentário mais ouvido ontem de Norte a Sul, Leste a Oeste. Com a óbvia ressalva de que caso se tratasse de um ladrão de galinhas ou de uma doméstica flagrada roubando um creme num supermercado estariam ambos condenados não apenas a cinco dias de prisão preventiva, mas a meses de xadrez, antes mesmo da formação dos respectivos processos.
Ignora-se se Gilmar Mendes agiu por formalismo jurídico, irritação diante dos métodos da Polícia Federal, neoliberalismo ou simpatia por Daniel Dantas, mas a verdade é que se inscreveu na crônica dos que se insurgem contra a natureza das coisas. Dos que remam contra a maré. Com todo o respeito, dos que não entendem nada de Brasil.
O Supremo Tribunal Federal é uma corte política, acima e além de ser jurídica. Tem cometido seus pecados ao longo da História, o último deles de aceitar sem reagir à imposição dos governos militares sobre serem "os atos revolucionários insusceptíveis de apreciação judicial". Agora, pelo jeito, mudaram apenas os agentes: os atos das elites financeiras, mesmo criminosos, também ficam à margem do Judiciário.
Aí está para não deixar ninguém mentir comentário atribuído ao dono do Opportunity, de que só temia juízes de primeira instância, porque nos tribunais superiores resolveria tudo... Sequer sensibilizaram o presidente do Supremo as imagens de um milhão de reais, em espécie, quantia apreendida no apartamento de um esbirro ligado a Daniel Dantas, que seria utilizada para corromper a Polícia Federal. Felizmente, os policiais armaram o alçapão para flagrar os corruptores. Cumpriram o seu dever. Terá feito o mesmo o ministro Gilmar Mendes?
Os pessimistas não se cansam de apregoar que se Fernandinho Beira-Mar adquirir um desses bancos fajutos especializados em tramóias e lambanças, mais um apartamento na Vieira Souto, casas de campo e ligações com montes de deputados e senadores, logo será beneficiado com um habeas-corpus. Parece imenso o mal que o presidente do Supremo fez às instituições, porque democracia é antes de tudo credibilidade nas instituições.
Grampos mostram assessor de Lula agindo em favor de Dantas - Estadão online - link (aqui)
Nas 7 mil páginas de diálogos transcritos, Polícia Federal desvenda modus operandi do banqueiro
Fausto Macedo
Os diálogos que a Diretoria de Inteligência da PF capturou preenchem 20 volumes protegidos pelo sigilo judicial. A escuta vigiou os grupos de Dantas e de Nahas meses a fio, dia e noite. Descobriu que os dois se uniram, formando uma organização criminosa para assumir o quinhão das teles e outros empreendimentos.
Descobriu, também, a preocupação do banqueiro em aniquilar o cerco dos agentes federais - para isso, infiltrou dois agentes de confiança para subornar um delegado, oferecendo a ele US$ 1 milhão.
O grampo, no dia 29 de maio, pegou Greenhalgh com Gilberto Carvalho, assessor especial do presidente Lula, que se compromete a buscar informações com o diretor-geral da PF, delegado Luiz Fernando Correa. O tema da conversa é a investigação sobre o Opportunity. Ao ex-parlamentar, identificado como Gomes ou LEG, suas iniciais, teria sido dada a incumbência de levantar informações sigilosas do inquérito contra Dantas.
"Luiz Greenhalgh, vulgo Gomes, é pessoa muito próxima ao secretário-geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, e a ministra Dilma Roussef", afirma relatório secreto da PF, peça de 246 páginas subscritas pelo delegado Protógenes Queiroz, que pôs a Satiagraha na rua. "Também é advogado e possui um escritório, mas os serviços prestados passam longe da assessoria jurídica. Para tanto, ele se serve dos advogados das empresas do grupo. Seria o homem de ligação entre pessoas do Executivo federal, empresas estatais (BNDES) e o D. Dantas para satisfação dos interesses financeiros mútuos e pessoais."
A interceptação pegou Nahas, a quem a PF atribui ligação direta com o Opportunity, ajustando operações supostamente ilícitas. "O cara é quente, é presidente do Banco Mundial", diz o investidor, a um amigo, sobre informações privilegiadas que teria recebido sobre corte de meio ponto porcentual na taxa de juros do Banco Central americano (FED).
Pitta, que administrou a cidade de São Paulo entre 1997 e 2000, é apanhado tratando de acertos com doleiros, ora pleiteando R$ 50 mil, ora se contentando com R$ 19 mil.
Verônica, irmã de Daniel Dantas, fala no dia 14 de maio com um certo Arthur. "Precisa passar os detalhes sobre a legislação para o Madeira que é amigo do Gilmar (ministro-presidente do Supremo Tribunal Federal) e isso pode parar na mão dele (ministro)."
Dantas, ele próprio, fala de seu algoz, o delegado Protógenes Queiroz, em conversa com o executivo Humberto Braz, que a PF rotula de lobista e responsável pelo comando da espionagem do grupo. "O objetivo continua sendo o original... E quem tá responsável é esse Protógenes mesmo", diz o banqueiro, em 29 de abril.
TRECHOS
Gilberto Carvalho e Greenhalgh conversam sobre Investigação
Em 29 de maio, o advogado e ex-deputado do PT Luiz Eduardo Greenhalgh conversa, às 18 horas, com o chefe de gabinete da Presidência da República, Gilberto Carvalho, sobre a investigação em curso. Carvalho se compromete a "levantar isso daí" com o diretor-geral da PF, Luiz Fernando Correa.
Greenhalgh: Alô...
MNI: Luiz Eduardo Greenhalgh?
Greenhalgh: Sim...
MNI: É o Senhor Gilberto só um momento.
Gilberto: Luiz?
Greenhalgh: Oi...
Gilberto: O general me deu
o retorno agora... é o
seguinte não há nenhuma pessoa designada na Presidência...na Abin...com esse nome, a placa do carro não existe é fria, tá? Eles aqui acham que a única alternativa é que tenha sido caso de falsificarem documento...eles não consideram possível que seja da Abin, eu não falei com o Luiz Fernando ainda, mas não tem jeito...
a polícia federal não usa a PM, eles não se misturam de jeito
nenhum, ta... então eu acho que o mais provável é que o cara tava armando mesmo alguma coisa... mas com documento falso que também no Rio é muito comum, porque daqui não tem, eu pedi, insisti, fiz com o máximo cuidado tal.
Greenhalgh: Deixa eu te falar uma coisa. Tá ouvindo o grito da menina?
Gilberto: O grito da vida.
Greenhalgh: Isso é o grito da vida realmente, linda, mas deixa eu te falar seria bom dar um toque no Luiz Fernando também hein?
Gilberto: Eu vou dá, eu vou dá, amanhã cedo eu tenho que
falar com ele vou levantar isso dai também.
Greenhalgh: Tem um delegado chamado Protogenes Queiroz que parece que é um cara meio descontrolado.
Gilberto: Ele tá onde o Protogenes agora?
Greenhalgh: Ai, tá ai em Brasília.
Gilberto: Ah aqui em Brasília.
Greenhalgh: É o que saiu na Folha na matéria da Andrea
Michael. Mas eu tô indo amanhã pra a reunião do diretório.
Gilberto: Eu te vejo lá, eu to indo no diretório também.
Greenhalgh: Legal...
Gilberto: Que hora que tá marcada mesmo a reunião?
Greenhalgh: Nove horas.
Gilberto: Tá. Eu vejo você lá.
Greenhalgh: Grande abraço.
Gilberto: Valeu Luiz...
Greenhalgh: Obrigado.
11 horas após ser solto pelo STF, Dantas é preso de novo - Folha de São Paulo - link (aqui)
Prisão preventiva se baseia na acusação de que Dantas ofereceu US$ 1 milhão a um delegado para que ele fosse excluído de investigação
LILIAN CHRISTOFOLETTI
DA REPORTAGEM LOCAL
Menos de 12 horas depois de deixar a carceragem da Polícia Federal, o banqueiro Daniel Dantas, que havia sido beneficiado por um habeas corpus do Supremo Tribunal Federal, voltou para a prisão, desta vez acusado de corrupção ativa. Dantas estava em um escritório na avenida Nove de Julho, em São Paulo, quando foi surpreendido com a nova ordem de prisão contra ele. O banqueiro havia deixado a carceragem às 5h30, ao lado da irmã, Verônica Dantas, e de outros nove funcionários do Grupo Opportunity, todos acusados de crimes financeiros -suposta formação de quadrilha, gestão fraudulenta, evasão e lavagem de dinheiro. Ele passou o dia num flat e, depois, foi a um escritório. Havia sido informado para não deixar São Paulo pois seu interrogatório estava previsto para ontem mesmo. Recebeu a voz de prisão por volta das 15h30. Em seguida, foi levado para o Instituto Médico Legal, onde se submeteu, pela segunda vez no mesmo dia, a um exame de corpo de delito -a primeira foi pela manhã ao deixar a prisão. Por volta das 16h50, Dantas já estava a caminho da carceragem da PF, na Lapa, onde chegou às 17h. "Esta prisão não tem nada a ver com a primeira. Os fatos e os fundamentos são completamente diferentes", afirmou o procurador da República Rodrigo De Grandis. A prisão decretada ontem é preventiva (a duração será fixada pela Justiça) e atingiu apenas o banqueiro por suposto crime de corrupção ativa -oferecimento de US$ 1 milhão a um delegado para que ele, a irmã e os funcionários fossem excluídos da investigação. A Procuradoria apresentou ao juiz Fausto Martin de Sanctis, da 6ª Vara Criminal Federal, um depoimento e um documento que, segundo o órgão, são provas novas do caso. O documento foi achado pela PF na casa do banqueiro, no Rio. Num papel impresso, que seria de 2004, estava escrito "Contribuições ao CLUBE". Abaixo: "contribuição para que um dos companheiros não fosse indiciado criminalmente". "O documento comprova que a corrupção é um expediente contumaz no grupo criminoso chefiado por Dantas", disse De Grandis. O segundo fato exibido como prova foi o depoimento de Hugo Chicaroni, preso pela tentativa de subornar o policial -na casa dele foram apreendidos cerca de R$ 1,3 milhão. Chicaroni intermediou o encontro de um delegado da PF, que havia se identificado como o chefe da investigação, com o advogado Wilson Mirza Abraham, amigo do banqueiro, e Humberto Braz, o "braço direito de Dantas na organização criminosa", segundo a polícia. A Procuradoria pediu a prisão de Abraham, o que foi negado pela Justiça. O advogado disse não ter participado de nenhuma tentativa de suborno. Com a anuência da Justiça, o policial recebeu R$ 50 mil mais R$ 80 mil. Há cerca de dez dias, disse Chicaroni, "algumas pessoas ligadas ao Opportunity levaram à casa do declarante [Chicaroni] a quantia de R$ 865 mil, que deveriam ser entregues ao delegado". À PF Chicaroni disse ter sido apresentado ao grupo de Dantas pelo desembargador aposentado do Tribunal Regional Federal paulista Pedro Rotta, que ficou no órgão de 89 a 97.
Primeira prisão
A primeira prisão, decretada no último dia 8 pelo mesmo juiz que ordenou a detenção de ontem, era temporária -cinco dias prorrogáveis por mais cinco. O motivo era garantir o sucesso das ações de busca nas casas e escritórios dos envolvidos. Na noite de anteontem, a ordem foi anulada em uma polêmica decisão do presidente do Supremo, Gilmar Mendes, que considerou equivocado o entendimento do juiz. Para De Grandis, Mendes "pulou" instâncias inferiores: TRF (Tribunal Regional Federal) e o STJ (Superior Tribunal de Justiça). Nas escutas telefônicas, pessoas próximas a Dantas dizem que ele só se preocupava com a Justiça de 1ª instância, "uma vez que no STJ e no STF ele resolveria tudo com facilidade".
Dantas vê motivação política em prisão
Para banqueiro, informações que ele teria dado a promotores de Milão no caso Telecom Italia são uma das razões para operação da PF
Ao falar à Folha, Dantas demonstra temor de estar sendo monitorado de longe: conversa ao lado de uma coluna e com a mão na boca
Filipe Redondo/Folha Imagem![]() |
O advogado de Daniel Dantas, Nélio Machado, durante coletiva na sede do Opportunity, em SP
CLAUDIO DANTAS SEQUEIRA
DA REPORTAGEM LOCAL
O banqueiro baiano Daniel Dantas falou com exclusividade à Folha pouco antes de deixar o flat de luxo em que se hospedou ontem pela manhã, por cerca de duas horas, no Itaim, zona oeste da capital paulista. Ele tomou banho, fez a barba e vestiu roupas limpas.
Com evidente temor de estar sendo monitorado de longe, conversou com a reportagem ao lado de uma coluna, no lobby do hotel. Para evitar uma possível leitura labial por terceiros, levava a mão à boca enquanto respondia às perguntas.
Dantas disse que foi bem tratado nas dependências da PF, mas criticou o que chamou de "espetáculo desnecessário", em referência à Operação Satiagraha deflagrada na madrugada da última terça. Ele considerou "superficiais" as evidências reunidas no processo.
"São acusações totalmente infundadas. Estou convicto de minha inocência", declarou. O banqueiro se mostrou surpreso com a investigação liderada pelo delegado Protógenes Queiroz. Afirmou que acreditava que estaria tudo resolvido depois da saída dele da sociedade da Brasil Telecom e que a PF investiga coisas que já deveriam estar no passado.
"Falam que enviamos dinheiro pra fora, daqui pra lá, de lá pra cá. É bobagem, não há fundamento", afirmou. Para Dantas, sua prisão teve motivação política. Dentre as razões, especula sobre uma possível perseguição por parte do ex-ministro Luiz Gushiken (Núcleo de Assuntos Estratégicos), um claro opositor aos negócios do banqueiro com membros da cúpula do governo Lula.
Delação premiada
Mas a hipótese mais provável, na avaliação de Dantas, seriam as informações por ele fornecidas à Procuradoria de Milão na investigação sobre o esquema de corrupção e espionagem ilegal envolvendo a Telecom Italia e o grupo Opportunity pelo controle da operadora Brasil Telecom (BrT).
Com o benefício da delação premiada, Dantas teria acrescentado detalhes importantes ao processo, que está sob segredo de Justiça. Ex-executivos da BrT já haviam denunciado ao juiz Giuseppe Gennari o pagamento de propinas a políticos e policiais brasileiros, no intuito de afastar Dantas do comando da BrT, hoje em poder dos fundos de pensão estatais, denúncias não comprovadas.
Nesse sentido, a Operação Chacal, deflagrada pela PF em julho de 2004, foi decisiva. O Opportunity e a Kroll foram acusados de espionar o governo federal. Na ocasião, Dantas conseguiu escapar da prisão. À Folha disse esperar que o Ministério Público brasileiro se interesse pelo caso de Milão e negou que tenha dados contra o governo Lula ou o PT, como ameaçou seu advogado, Nélio Machado. O banqueiro deixou o flat num táxi. Descartou voltar ao Rio imediatamente, pois iria depor à tarde na PF. Ele ainda não sabia que seria alvo de nova ordem de prisão, agora preventiva, expedida pelo juiz Fausto Martin De Sanctis, da 6ª Vara Criminal Federal de São Paulo, o mesmo que decretou a primeira.
Eliane Cantanhêde - Folha de São Paulo - link (aqui)
BRASÍLIA - As pessoas comuns parecem unânimes contra Daniel Dantas, mas os poderes, os poderosos e os que se julgam poderosos se mostram furiosamente divididos em função dele e de sua prisão. No governo, José Dirceu era pró-Daniel Dantas, e o também ministro Luiz Gushiken, anti. E ambos eram do Conselho Político de Lula. Durma-se com um barulho desses. Desde então, a divisão pró e anti-Dantas avançou pelo PT, chegou aos Poderes -e alimenta e é alimentada por blogs ditos independentes. Comenta-se que há jornalistas se matando, uns a favor, outros contra o megabanqueiro baiano-carioca e tucano-petista. Diante das prisões dele, de sua irmã e de toda a cúpula do Opportunity, ao lado do ex-prefeito Celso Pitta e do eterno megainvestidor Naji Nahas (diz-me com quem andas...), as divisões explodem. A Polícia Federal e a Procuradoria decidem contra Daniel Dantas, e o presidente do Supremo, Gilmar Mendes, a favor, vociferando contra a "espetacularização" da prisões. Dantas acabou dividindo a própria Justiça, que evoluiu num balé prende-e-solta. Num dia, manda prender. No seguinte, manda soltar. No terceiro dia, prende de novo. E o que foi mais espetacular: a prisão de Dantas ou a decisão de Mendes de soltá-lo? Enquanto isso, no Senado, Heráclito Fortes e Tasso Jereissati abrem o vozeirão para recriminar a prisão, e Pedro Simon faz caras, bocas e principalmente gestos em apoio à ação da PF. O próprio PT dividiu-se entre os com e os sem-jantares com Daniel Dantas. Uns não param de se justificar, os outros ficaram subitamente sem voz. Perdida como cego no tiroteio de ministros, delegados, juízes, blogueiros, tucanos e petistas, a senadora Ideli Salvatti teve um lampejo acaciano. Sabe por que Daniel Dantas divide o poder, os poderosos e os que se julgam poderosos? Porque é "o maior corruptor da história". Simples assim.
Sinopse dos principais jornais - link (aqui)

sala de leitura
Jornal do Brasil - Dantas volta à cadeia e já perde R$ 1 bilhão
Folha de São Paulo - Dantas volta à prisão após 11 horas
O Estado de São Paulo - PF volta a prender Dantas; STF manda libertar Nahas e Pitta
O Globo - Juiz desafia STF e manda prender Dantas de novo
Correio Brasiliense - Entra-e-sai da prisão











