domingo, 12 de outubro de 2008

Charge do dia


Miguel Diário do Commercio - Recife, PE

Carlos Heitor Cony - Folha de São Paulo - link (aqui)



A cara da América

RIO DE JANEIRO - Resisti até agora a cometer qualquer tipo de comentário a propósito das próximas eleições presidenciais nos Estados Unidos. E, se agora o faço, é de forma oblíqua, marginal, pior do que superficial. Desde que uma certa senhora foi indicada para vice-presidente na chapa dos republicanos, a mídia internacional, em peso, caiu em cima dela, satanizando-a, promovendo a até então desconhecida governadora do Alasca ao papel de besta negra da vez.
Não vou defendê-la, não tenho vontade nem informações detalhadas para isso. Admito que ela tem dito e feito muita besteira, é republicana radical. Parece que Bush, perto dela, é um modelo ilibado de democracia liberal.
Mas vamos às caras. Não é nada, não é nada, a cara é uma certidão, um atestado de quem somos, pensamos e queremos. Coloquemos lado a lado a cara de Obama e a de Sarah Palin. Não estão concorrendo na mesma faixa. O primeiro é candidato a presidente pelo Partido Democrata, a segunda é candidata a vice pelo partido adversário. As chances de a madame chegar à Casa Branca são bastante remotas.
Fiquemos com as caras, somente as caras. Obama é simpático, dizem que possui um charme desgraçado -e as pesquisas o provam. Mas não tem cara de americano, não pelo fato de ser negro. Louis Armstrong, Sidney Poitier, Martin Luther King, Billie Holiday, Lena Horne eram negros, mas esbanjavam a essência da alma americana pela cara.
Obama parece um esforçado e bem-sucedido herói do Terceiro Mundo. Sarah Palin, mesmo vestida de esquimó ou escafandro, é a cara da América tal como a fizeram os peregrinos do Mayflower. Não apenas em cara, mas parece que em idéias.
Podia estrelar um daqueles filmes musicais da Metro dos anos 50. Além do rosto apropriado, tem belas pernas.

Eliane Cantanhêde - Folha de São Paulo - link (aqui)



"Circuit breaker"

planetário BRASÍLIA - O mundo está em pânico e sem saber o que fazer. Cada um fala uma coisa, e a idéia que parece mais sensata partiu justamente do mais insensato número 2 (só perde para Bush): o primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi, sugeriu que as Bolsas de todo o mundo fechem não necessariamente para balanço, mas até que surja uma proposta consistente para enfrentar a maior crise mundial desde o "crash" de 1929.
Um "circuit breaker" planetário, estendendo para todas as Bolsas, simultaneamente, o instrumento acionado para interromper os pregões sempre que as quedas atingem um ponto insuportável. A crise está exatamente assim: insuportável.
Não é preciso ser um gênio da economia, nem de coisa nenhuma, para saber a esta altura que a crise não é apenas gravíssima, como imprevisível, fora de controle. Nem para saber que a pior reação é tentar minimizar as suas dimensões.
No Brasil, o tom dos analistas ainda é de otimismo, inclusive o do economista Gustavo Franco, presidente do BC no primeiro mandato de FHC. Mas, num canto da página, eles dizem que a crise é financeira e das grandes potências, não chegará ao mundo real e aos emergentes. No outro canto, vêm as notícias sobre sólidas companhias como a Votorantim, a Sadia e a Aracruz, que tiveram perdas bilionárias provenientes de operações com câmbio. Se isso não chega ao mundo real, o que pode chegar?
Um segundo contraste: nos EUA, Bush e os demais líderes descabelavam-se com a crise financeira; no Brasil, Lula caprichava no penteado para tirar fotos com aliados -ou "neo-aliados", como Eduardo Paes, no Rio-, enquanto se preparava para sumir no mundo.
Lula bateu em 80% de popularidade surfando nos cinco anos mais ensolarados e de maior crescimento do mundo, mas pega em dose única toda a intensidade das cinco crises internacionais da era FHC. FHC não fez o sucessor. Ele fará?