domingo, 9 de novembro de 2008

Bar é arte


William Hammer ( 1821 - 1889 )

Peaches And Cherries In A Bowl On A Marble Ledge

Oil on canvas ( 1864 )

Bar é poesia - Martha Medeiros

Martha Medeiros




Para me conquistar...

(Martha Medeiros)


para me conquistar

basta dizer tudo aquilo

que nunca ouvi de ninguém

vestir como homem e não como gay

me tocar sem medo, sem segredo

entrar e sair da rotina sem que eu note

me levar para lugares exóticos

e lugares comuns

saber ficar em silêncio e assim me dizer tudo

gostar de rock como eu gosto

e de coisas que eu não gosto

compreender a vida como é

e buscar o outro lado

saber a hora exata de ficar

e ir embora

mas não vá

Bar é poesia


Lya Luft




Canção na plenitude

(Lya Luft
)


Não tenho mais os olhos de menina

nem corpo adolescente, e a pele

translúcida há muito se manchou.

Há rugas onde havia sedas, sou uma estrutura

agrandada pelos anos e o peso dos fardos

bons ou ruins.

(Carreguei muitos com gosto e alguns com rebeldia.)

O que te posso dar é mais que tudo

o que perdi: dou-te os meus ganhos.

A maturidade que consegue rir

quando em outros tempos choraria,

busca te agradar

quando antigamente quereria

apenas ser amada.

Posso dar-te muito mais do que beleza

e juventude agora: esses dourados anos

me ensinaram a amar melhor, com mais paciência

e não menos ardor, a entender-te

se precisas, a aguardar-te quando vais,

a dar-te regaço de amante e colo de amiga,

e sobretudo força - que vem do aprendizado.

Isso posso te dar: um mar antigo e confiável

cujas marés - mesmo se fogem - retornam,

cujas correntes ocultas não levam destroços

mas o sonho interminável das sereias.

Bar é arte



William Merritt Chase ( 1849 - 1916 )

Back of a Nude

Oil on canvas ( 1888 )

Collection of Mr. and Mrs. Raymond J. Horowitz

Bar é poesia - Fernando Pessoa


Fernando Pessoa






Não digas nada

(Fernando Pessoa)


Não digas nada!

Nem mesmo a verdade

Há tanta suavidade em nada dizer

E tudo se entender -

Tudo metade

De sentir e de ver...

Não digas nada

Deixa esquecer


Talvez que amanhã

Em outra paisagem

Digas que foi vã

Toda essa viagem

Até onde quis

Ser quem me agrada...

Mas ali foi feliz

Não digas nada.


___________________________________________________________


Não: Nao digas nada

(Fernando Pessoa)
(Cancioneiro)


Não: Não digas nada

Supor o que dirá

A tua boca velada

É ouvi-lo já


É ouvi-lo melhor

Do que o dirias.

O que és naõ vem à flor

Das frases e dos dias.


És melhor do que tu.

Não digas nada: sê!

Graça do corpo nu

Que invisível se vê.

Vinícius de Moraes - "Samba da Bênção"

MARIA RITA - "Não Deixe o Samba Morrer"

Tom e Miúcha - "Samba do Avião"

"Samba do Grande Amor" - Gal Costa e Chico Buarque

Antonio Carlos Jobim - "Samba de Uma Nota Só"

Adoniran Barbosa - "Samba do Arnesto"

Baden Powell - "Samba Triste"

Após a terceira dose - bar é poesia



Chiados


(luiz alfredo motta fontana)



Sonhei em 78 rpm

Amei em LP

Confundi em estéreo

Filosofei em quadrifônico

Reaprendi em CD

Te revejo em MP3

Comercial Antigo - Ótica Ernesto - Menino Menina

Charge do dia


Pancho - Gazeta do Povo - Curitiba, PR

Mônica Bergamo - Folha de São Paulo - link (aqui)




CANTORAS de bolso
Elas fazem sucesso se apresentando para platéias seletas e sonham com o dia em que serão descobertas pela multidão


Eder Medeiros/Folha Imagem

Anna Gelinskas faz estilo cabaré no palco

Anna Gelinskas chega ao restaurante Capim Santo, nos Jardins, de vestido, meia-calça e sapatos de salto pretos. Tira um CD da bolsa. "Vai cantar uma ou duas músicas?", pergunta Junior Alexandre, coordenador de eventos do local. "Hoje eu trouxe três. Duas no estilo cabaré e uma mais "Aãããuuunnn!!", mais pop", responde a cantora, uma das mais requisitadas no mercado de pocket shows (em tradução literal, "shows de bolso"): apresentações curtas em festas badaladas, num circuito que vai de casamentos a desfiles.
A loura de 29 anos, 100 cm de busto e 11 tatuagens foi contratada para cantar no aniversário de Adriana Drigo, uma das sócias do Capim Santo. "Fiz uma festa deles no ano passado. Hoje, pediram um pocketzinho mais simples, com microfone e playback pré-gravado, coisa rápida", diz. "Mas tenho vários produtos, com big band, quarteto." Para o pocket com playback, Ana cobra entre R$ 1.000 e R$ 1.500. O valor sobe de acordo com o formato da apresentação, mas não é fixo. "Um amigo já pagou R$ 30 mil para eu cantar uma música."
Versão VIP das apresentações em barzinhos dos anos 80 e 90, o pocket show é, muitas vezes, a plataforma para vôos mais altos -ou para tornar mais conhecido o nome da cantora. Com 45 anos de idade e 24 de palco, Izzy Gordon apareceu em jornais e revistas em 2006, quando foi contratada para fazer um show particular de MPB para o cantor Bono, do U2.
Na época, ela já tinha até gravado o disco "Aos Mestres com Carinho", em homenagem a sua tia, a cantora Dolores Duran. "Um dos diretores do Hyatt [local da apresentação] ouviu o CD e me contratou para esse show", diz ela, que teve medo de perder a voz diante do astro. "Eu ainda estava testando o som quando ele entrou, batendo palmas. E ainda trouxe o [produtor] Quincy Jones de braço dado com ele!" Izzy lembra que cantou "pisando em ovos", mas, no final, fez até um dueto com Bono, em "I've Got You Under My Skin". E ganhou dele uma garrafa de champanhe, para brindarem ao show.
Rápido no gatilho, o marido e produtor de Izzy, Edu Silva, reajustou o cachê da moça em 50% depois disso. Hoje, ela cobra cerca de R$ 3.000 para uma participação "de duas, três músicas" no show de outro artista e R$ 7.000, em média, para as próprias apresentações. Na lista de clientes, empresas como Honda e Pfizer e uma trilha incidental para a Citroën, interpretando a música "At Last" no comercial de carro estrelado pelo ator Kiefer Sutherland. Também já cantou na casa de Ana Paula Padrão e, recentemente, no casamento da jornalista Rosana Jatobá, da Globo. Antes da entrevista, Izzy folheava um exemplar da revista "Caras", em busca de fotos suas em algum evento.
A curitibana Geanine Marques, 36, entrou no mercado de pocket shows quando veio para São Paulo, no início dos anos 90. Os sete integrantes de sua banda se dispersaram e ela teve que se adaptar à carreira solo. Com a ajuda do produtor George Freire, montou um repertório de "jazzinho e bossa nova para eventos".
Mais conhecida como "musa de Alexandre Herchcovitch", pelas participações nos desfiles do estilista, ela diz que "sempre quis cantar" e que "a moda é que apareceu por acaso". Em 1994, na fase pré-São Paulo Fashion Week, foi chamada por Paulo Borges para subir às passarelas de Herchcovitch e de Walter Rodrigues. "Aí não deixei mais de fazer."
O repertório mudou de lá para cá -desde novembro de 2007, ela é vocalista da banda Stop Play Moon, de música eletrônica-, mas Geanine continua requisitada pelos descolados. No mês passado, cantou após os desfiles de um evento de moda em Curitiba e abriu as apresentações da dupla belga Vive la Fête em SP e no Rio. No final de setembro, tocou no coquetel de lançamento do iPhone da Vivo -aquela festa em que famosos da música e da TV fizeram fila para tentar ganhar o aparelho. "Prefiro minha parte em dinheiro", diz.
Dinheiro, em alguns casos, não é preocupação. Filha do empresário francês Alain Aouizerate e de Fernanda Sodré, headhunter de moda, Lorrah Wizz, 19, mora no Jardim Europa em uma casa com três carros na garagem e onde a empregada trabalha de uniforme. Ela nasceu em Paris, veio para SP com poucos meses de vida e morou dos oito aos 16 anos na França, onde começou a estudar canto lírico e a se apresentar em eventos de amigos. Na volta ao Brasil, entrou no circuito de bares e passou a ser chamada para festas fechadas.
Fluente em inglês e francês, Lorrah se especializou no repertório de Edith Piaf e Billie Holiday. Além de clubes de jazz, já subiu ao palco em eventos da Daslu, da Bulgari e do joalheiro Pedro Brando, com cachê médio de R$ 6.000. "Faço também missa de sétimo dia e casamento, mas só quando conheço os noivos", diz. "Casamento por casamento eu não gosto, porque é como botar um CD para tocar. Olho ao redor e ninguém está me vendo. Não tem nada pior. A gente tem que cantar alto, para chamar a atenção." Lorrah está dando um tempo: foi fazer cursos de arte dramática na França -ela também é atriz, assim como Anna Gelinskas e Bibba Chuqui, que está em cartaz em SP com o musical infantil "Peter Pan".
Bibba, 40, chegou a aparecer na TV entre 2003 e 2004, como caloura do "Programa Raul Gil", mas já tinha no currículo peças como "Bacantes", no teatro Oficina, e contatos na noite. "Fiz a inauguração da casa da Cláudia Raia e do Celulari e o casamento do Roberto Justus com a Adriane Galisteu", diz, abrindo uma lista que também inclui empresas como a Natura e a agência Y&R.
No futuro das cantoras, além da temporada de fim de ano -quando fazem até três eventos por dia-, vários projetos. Izzy Gordon vai gravar o segundo disco em breve. Incentivada por Ana Cañas, que ficou conhecida nos pockets antes de lançar o elogiado álbum "Amor e Caos", Bibba também quer o seu. Mas as festas fechadas continuarão na agenda. "Se Deus quiser, vou fazer pocket até quando for bem famosa", diz Anna Gelinskas. "Aí é que vou ganhar dinheiro mesmo."

Frases

"Faço casamento, mas só quando conheço os noivos. É como botar um CD para tocar. Olho ao redor e ninguém está me vendo. Não tem nada pior"
LORRAH WIZZ
cantora

"Se Deus quiser, vou fazer pocket até quando for bem famosa. Aí é que vou ganhar dinheiro mesmo"
ANNA GELINSKAS
cantora

Gilberto Dimenstein - Folha de São Paulo - link (aqui)



Como Brasília perdeu uma prostituta


Como era inteligente, a menina prosperava cada vez mais rápido na escola; assim, deixou a prostituição e virou dentista
A EDUCADORA Dagmar Garroux preparou uma de suas alunas para ser prostituta. Mas não qualquer prostituta -seria treinada para circular pelos bastidores de Brasília. Além de etiqueta, aprenderia a falar bem português e se viraria no inglês ou espanhol. Com aulas de artes, história e atualidades, ela conseguiria manter uma conversa em recepções. "O treino funcionou", orgulha-se Dagmar. Funcionou tão bem que Brasília perdeu uma prostituta.

A menina, estimulada com a chance de ser prostituta em Brasília, morava na favela do Parque Santo Antônio, localizada no chamado "triângulo da morte", na zona sul da cidade de São Paulo. No "triângulo" existe o cemitério São Luiz, que, conta-se, é o lugar onde estariam enterrados mais adolescentes por metro quadrado no mundo.
Dagmar criou, ali, um centro educacional batizado de Casa do Zezinho -o nome é inspirado na poesia "E agora, José?", de Carlos Drummond de Andrade. Uma das freqüentadoras da casa era a menina, que começou a vender o corpo, na fronteira da adolescência, agenciada por um rapaz mais velho da escola pública em que estudava. Dividiam pela metade o valor de cada programa (R$ 10).
A garota não gostou da intromissão da educadora. "Não se mete, não.
Você nunca pensou em se vender para ganhar dinheiro?", perguntou, agressiva. Ela era conhecida pela violência, metia-se em brigas. Quase sempre andava com uma faca.
Dagmar suspeitou de que corria o risco de perder a aluna, desfeito o já frágil laço afetivo. Decidiu entrar no jogo. Disse que nunca quis vender o corpo. Mas, se quisesse, não iria aceitar mixaria. "Eu iria cobrar no mínimo R$ 1.000. Isso no começo, depois aumentaria o preço."
A aluna arregalou os olhos e ouviu a improvável proposta: "Por que você não se prepara para ser puta em Brasília? Você ganha dinheiro e se aposenta". Com aquele corpo e a bagagem intelectual, acrescentou, certamente iria surgir um marido rico.

No dia seguinte, a garota voltou, animada com a proposta. "Topo", disse. Dagmar ponderou que ela deveria, então, se preparar. Para começo de conversa, deveria se cuidar para que aumentasse a disputa dos clientes.
Precisaria, assim, parar imediatamente de estragar seu corpo com os homens da favela. "Você quer chegar a Brasília com a mercadoria velha?" Dagmar convenceu-a de que, além do corpo atraente, precisaria mostrar cultura e saber falar. Um tanto a contragosto, mas de olho nas recompensas futuras, aceitou as aulas.
Com as aulas, vieram reflexões sobre autonomia e responsabilidade; a auto-estima era trabalhada em projetos de arte e comunicação. Certo dia, ela fez um comentário sobre os dentes de Dagmar. "Parece que você tem uma boca de cavalo." E brincou: "Se eu fosse dentista, eu consertaria a sua boca".

O apoio explicou por que, embora sem intenção, a menina apresentasse melhor desempenho escolar. A trajetória teve momentos de crise: como já não faturava com a prostituição, a garota passou a vender drogas. Dagmar voltou a argumentar que, se fosse mesmo vender drogas, deveria se tornar chefe e, aí, precisaria continuar os estudos para entender contabilidade. O inglês seria útil para transações internacionais.

Como era inteligente, a menina prosperava cada vez mais rapidamente na escola. À medida que ficava mais velha, prestava mais atenção no que acontecia em sua comunidade com quem se envolvia com as drogas e a prostituição -bem ao seu lado estava o pedagógico cemitério São Luiz.
Ela chegou a concluir o ensino médio e suspeitou que talvez pudesse prosseguir. Por motivos óbvios, não posso revelar o nome da aluna: "Ainda sinto muita vergonha", justifica. Fez um cursinho pré-vestibular gratuito e entrou na USP. Formou-se em odontologia -e agora vive consertando bocas.

PS: A ex-futura-prostituta de Brasília é um dos casos que passaram pela Casa do Zezinho, uma experiência relatada agora pelo educador Celso Antunes no livro "A Pedagogia do Cuidado", a ser lançado neste mês.
Ele detalha o que existe de teorias pedagógicas por trás dos exemplos.
Se os gestores municipais agora eleitos quiserem fazer cidades melhores, terão de aprender as magias que podem ser feitas quando existirem bons educadores, mesmo num "triângulo da morte".
É mais uma ilustração do que sempre digo: educar é ensinar o encanto da possibilidade. Um dos seus projetos é transformar aquele simbólico cemitério São Luiz, com o recorde de covas de adolescentes, numa galeria de arte, com os muros externos pintados -as obras, claro, serão feitas por adolescentes. Por esse tipo de experiência, Dagmar vai dar aula, na próxima semana, num curso de gestão da Fundação Vanzolini, da Poli.

Réquiem para os radicais - Folha de São Paulo - link (aqui)



Mais do que enfrentamento do racismo, eleição nos EUA mostra derrota de ala republicana ultraconservadora e completa transição política iniciada há dois anos

CARLOS DA FONSECA
ESPECIAL PARA A FOLHA

Uma das leituras mais freqüentes do sentido da vitória de Barack Obama é a de que se tratou de uma "catarse" (a expressão é do "New York Times") pela qual o país finalmente superou a barreira política da cor. A história americana explica essa interpretação e justifica a ênfase: o primeiro presidente negro dos EUA elegeu-se 232 anos depois da Declaração de Independência, que ressaltou a "verdade evidente" de que todos os homens são iguais; 145 anos após a abolição da escravidão; 112 após a Suprema Corte endossar o sistema de segregação racial; 54 após a primeira grande vitória do Movimento dos Direitos Civis, com a decisão, da mesma corte, contrária à segregação nas escolas públicas; 40 depois do assassinato de Martin Luther King. Sem desmerecer a importância desse fato, a realidade é que a vitória de Obama deve-se menos à capacidade de conciliação da sociedade americana do que à de renovação de seu sistema político. Uma renovação, de resto, imposta pela desastrosa gestão do atual presidente, que vê sepultado seu polêmico legado numa das maiores crises econômicas da história. Obama é, assim, menos o protagonista de uma revolução social do que de uma transição política que, já prenunciada nas legislativas de 2006, devolve ao Partido Democrata uma hegemonia perdida década e meia atrás. O grande derrotado do pleito de terça passada não é tanto o racismo, mas o radicalismo conservador que, dominando o Partido Republicano nas últimas décadas, levou ao poder o atual presidente. George W. Bush foi o produto político de uma peculiar aliança "multiconservadora": filho de uma tradicional família de Connecticut, mas criado no Texas e "renascido em Cristo", ele reuniu à sua volta empedernidos sulistas, desgostosos com o New Deal, fundamentalistas evangélicos, defensores de um Estado bíblico e neoconservadores laicos, promotores do Império Americano. Essa confluência reacionária contribuiu para a consumação do projeto hegemônico republicano que, iniciado por Reagan, confirmou-se na vitória legislativa de 1994, que deu ao partido maioria na Câmara. Correspondeu, por outro lado, ao que muitos republicanos moderados consideram o "seqüestro" da agremiação por radicais cuja agenda divergia de suas bandeiras históricas.

Dois conservadorismos
Os radicais conservadores que elegeram Bush filho pouco têm a ver com o conservadorismo tradicional de seu pai. No plano doméstico, insistem em imprimir moralidade religiosa às ações do governo, reproduzindo ideário que ressoa mais nos recôncavos do "Cinturão da Bíblia" do que no norte industrial, onde o partido nasceu. No plano externo, defendem um internacionalismo messiânico e belicoso, em tudo diferente do pragmatismo cauteloso proposto por conservadores realistas como Henry Kissinger e Brent Scowcroft. Essa "nova cara" do Partido Republicano, produto de um casamento de interesses entre radicais conservadores de diferentes estirpes, consolidou-se com a ascensão de lideranças que, já no final dos anos 1970, disparavam suas canhoneiras contra a inércia do patriciado empresarial da Costa Leste. Revoltados contra o que viam como um processo de decadência política e moral do país, atitudes dúbias do governo e decisões arbitrárias da Suprema Corte (que, em 1973, legalizava o aborto), nomes como John Neuhaus, Jerry Falwell, Pat Robertson, Irving e Bill Kristol, Michael Novak, Robert Kagan e Norman Podhoretz, uns neoconservadores, outros "teoconservadores", fundaram projeto forjado em interesses comuns, ainda que sobre premissas diferentes. Em 1980, juntaram forças pela primeira vez, elegendo o paraninfo Reagan. Oito anos depois, dividiram-se em relação a George H.W. Bush, que chegou a enfrentar Pat Robertson nas primárias. O repúdio a Bill Clinton reuniu-os outra vez. Em 1996, alguns (Neuhaus, Novak) chegaram a propor uma revolução, enquanto outros (Kristol, Kagan) limitavam-se a querer derrubar Saddam Hussein. Em 2000, realizaram, com George W. Bush, ambos os sonhos. Bush, cujo mandato eleitoral era dos mais frágeis (lembrem-se de sua "vitória" na Flórida), promoveu uma verdadeira revolução na política externa do país, rompendo alianças tradicionais, afirmando um unilateralismo belicoso e declarando duas guerras, uma das quais claramente desnecessária. No plano doméstico, avançou o quanto pôde a agenda da direita radical e cristã, com medidas contra as liberdades individuais e em favor da educação religiosa e da limitação do aborto e de pesquisas com células-tronco. Esse radicalismo sem mandato polarizou o eleitorado, causando, entre os democratas, mobilização que não se via havia anos. Ao mesmo tempo, o capital político do presidente, herdado do 11 de Setembro, foi dissipado com medidas que, sustentadas na "guerra ao terrorismo", terminaram por desgastar seu governo e enfraquecer seu partido. A eleição de Obama, ancorada na ânsia por mudança, foi o produto dessa conjuntura. O fato de sua negritude, que deu à vitória sentido de transcendência, apenas mostrou o quanto esse desejo de mudança era grande.


CARLOS DA FONSECA é professor do Instituto Rio Branco

Elio Gaspari - Folha de São Paulo - link (aqui)



A carta cubana de Barack Obama

O estabelecimento de relações racionais com a ilha é um fruto maduro, grátis e conveniente


A SORTE botou um pote de ouro na mesa de Barack Obama. Nele está o abrandamento do bloqueio econômico a Cuba. O primeiro passo ele anunciou no ano passado: "Darei aos cubano-americanos o direito irrestrito de visitar seus familiares e de remeter dinheiro para a ilha". À época, ele recuou e prometeu manter o embargo, pois corria o risco de queimar os 27 votos eleitorais da Flórida, onde vive uma grande comunidade de cubanos marcados pelo sofrimento do exílio imposto às suas famílias pela ditadura de Fidel Castro.
Obama ganhou na Flórida e o caso cubano, visto sem a pátina quase cinquentenária da hostilidade mútua, tornou-se uma falsa questão. Uma pesquisa feita no dia da eleição mostrou que 55% dos cubano-americanos com menos de 30 anos votaram em Obama.
O bloqueio econômico a Cuba é uma inutilidade anacrônica e desprimorosa. É inútil porque Fidel ficou gagá, mas não caiu. É anacrônica porque facilita a vida de empresários canadenses e europeus que se beneficiam da incipente abertura da economia castrista. Cuba vai se tornar um riquíssimo mercado imobiliário e, por enquanto, os americanos estão a chupar o dedo. O embargo é desprimoroso porque não cabe na idéia que se tem hoje de uma liderança política dos Estados Unidos. Filho do Muro de Berlim, ficou na orfandade. Hoje os americanos temem muito mais uma migração maciça de cubanos para a Flórida do que a propagação da senilidade castrista.
A equipe de Obama tem um diplomata experimentado no trato com a América Latina. É Anthony Lake, assessor para assuntos de segurança nacional no governo de Bill Clinton. Nos anos 70, ele trabalhou com o professor Henry Kissinger, que grampeou seu telefone por nove meses e pagou uma multa por isso. (Lake guarda o cheque numa moldura). Foi nomeado para a direção da CIA, mas a maioria republicana no Senado detonou-o. Lake tem na biografia um magnifico livro sobre a desastrosa diplomacia americana na Nicarágua depois da queda de Anastasio Somoza, em 1979. Expõe o funcionamento da burocracia do Departamento de Estado e da Casa Branca, lidando com informações incompletas, falta de tempo e ausência de percepção histórica. Se não tivessem tanta capacidade de fazer besteira, não teriam tentado depor o coronel Hugo Chávez.
Obama não precisa anunciar o fim do bloqueio, nem Raúl Castro precisa informar que o comunismo cubano se acabou. As duas coisas vão acontecer, mas o tempo cuidará do assunto. A partir de janeiro, os Estados Unidos e Cuba voltarão a conversar, como se o relógio do tempo, tendo parado, voltasse a funcionar. No dia 22 de novembro de 1963, foi enviado à Casa Branca um memorando que dava conta das negociações para um encontro de Fidel com um emissário do presidente dos Estados Unidos. No dia seguinte, John Kennedy desembarcou em Dallas, numa história conhecida.
Ao longo dos últimos 45 anos sempre existiram canais de comunicação entre os dois governos. As conversas progrediam e retrocediam, influenciadas por precondições capitulacionistas. Coisa semelhante ao que ocorreu com a China entre 1949 e 1971. Enquanto o guerrilheiro Carlos Lamarca, caçado no sertão da Bahia, desejava "longa vida ao presidente Mao", o Grande Timoneiro negociava uma aproximação com os EUA.
O intermediário que conseguiu melhores resultados em Cuba foi o empresário Bernardo Benes. Ele fugiu da ilha em 1960 e retornou 75 vezes levando e trazendo recados dos governos de Jimmy Carter e Ronald Reagan. Suas conversas com Fidel Castro somaram 150 horas e ajudaram a libertar 3.600 presos políticos.
A reaproximação com a União Soviética pouco custou ao presidente Roosevelt em 1933. A abertura chinesa tornou-se o melhor momento da biografia de Richard Nixon. Há pouco, George W. Bush acertou suas contas com o líbio Muammar Gaddafi e o assunto mal recebeu atenção. Obama colherá o fruto maduro.

0800-STF
O ministro Gilmar Mendes, presidente do STF, precisa decidir qual é seu lugar no estádio. Ele pode ficar na tribuna de honra, de toga, lendo votos capazes de servir de lição. Pode também vestir as camisas dos times de sua preferência, indo disputar a bola no gramado. Não pode fazer as duas coisas.
Não é próprio que um ministro do Supremo se meta em discussões do cotidiano político, dando entrevistas de salão, ensinando que "não dá para dizer que há imprescritibilidade de um lado [o dos torturadores da ditadura] e não há para o outro [o dos militantes esquerdistas que praticaram crimes de sangue]". Ele pode estar coberto de razão, mas ministro do STF não é call center, que responde a consultas imediatas. Nessa batida, vira comentarista jurídico.

FHC pela paz
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso será convidado para armar um protocolo de comportamento para José Serra e Aécio Neves, os dois tucanos que disputam a candidatura à Presidência. Se ninguém fizer nada, a aspereza pública aumentará e o tiroteio de bastidores derramará sangue.

A crise real
Um brasileiro passou por Miami e precisou comprar uma mala. Entrou numa loja e foi abraçado pelo dono: "O senhor é o primeiro cliente a entrar aqui em duas semanas. Eu tinha oito empregados, tive que dispensá-los e estou cuidando sozinho". O curioso decidiu testar o andar de cima. Foi a uma revendedora da Mercedes-Benz e perguntou o preço de um modelo E 350. Custava US$ 60 mil. Quando ele estava perto da porta o vendedor disse que baixava para US$ 36 mil.

Novo arcebispo
É imprudente mexer com notícias do Vaticano, mas parece que o papa Bento 16 aceitou a renúncia de d. Eusébio Scheid, arcebispo do Rio de Janeiro. Ele a encaminhou em dezembro, quando completou 75 anos. É possível que seu substituto venha a ser d. Filippo Santoro, atual bispo de Petrópolis. Ele tem 60 anos, nasceu em Bari, na Itália, e foi bispo auxiliar do Rio de 1996 a 2004.
Em tempos de Obama, é sempre bom lembrar que d. Eusébio defendeu a escolha de um cardeal africano para a sucessão de João Paulo 2º.

Bom exemplo
Fizeram papel feio os fundos brasileiros, sobretudo os de caixas estatais. Apanharam como cães danados das empresas que se meteram com derivativos tóxicos, mas reagiram com silencio siciliano. A primeira ação contra uma das empresas intoxicadas (a Sadia) partiu de Westchester Putnam, um fundo de trabalhadores dos EUA.

Eremildo, o idiota
Eremildo é um idiota a acredita que Nosso Guia aderiu ao entendimento de que a imprensa tem uma opção preferencial pelas notícias ruins, sobretudo a respeito do seu governo. Num psicologuês de lanchonete, perguntou o seguinte:
"Ou será que a nossa cabeça está condicionada a pensar que o bom é obrigação fazer e só o mau tem que mostrar?"
O idiota concorda com Lula, mas não consegue resolver um problema. Dias antes da eleição de outubro, ele disse aos jornalistas: "Podem escrever: Marta vai ganhar em São Paulo".
Eremildo suspeita que fraudaram o resultado. Do contrário, nem um idiota é capaz de entender o condicionamento da cabeça do presidente.

Judiciário autoriza mais de mil grampos por dia no país - Folha de São Paulo - link (aqui)




CPI aponta prorrogações não autorizadas e por período acima do permitido por lei

Estado de São Paulo lidera ranking das interceptações; Justiça impediu comissão de ter acesso aos mandados que determinaram escutas

ALAN GRIPP
MARIA CLARA CABRAL
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Dados oficiais das operadoras de telefonia enviados à CPI dos Grampos e compilados por técnicos da comissão revelam que foram feitas pelo menos 375.633 escutas telefônicas com autorizações judiciais em 2007 -ou seja, em média foram iniciadas mais de mil interceptações a cada dia.
A análise dos dados revelou irregularidades explícitas, como grampos determinados por varas de família -a lei diz que a escuta só pode ser usada em investigação criminal. Também foram dadas ordens para interceptações por período superior ao limite de 15 dias. Há casos de grampos contínuos por 190 dias, sem os devidos pedidos de prorrogação na Justiça.
O levantamento é a espinha dorsal da investigação da CPI, que apontará o abuso na utilização do instrumento de investigação, segundo o presidente da comissão, deputado federal Marcelo Itagiba (PMDB-RJ): "Esses dados inéditos comprovam o descontrole total e absoluto de todas as instituições que lidam com os grampos, da Justiça às polícias, passando pelas operadoras, que são concessionárias de serviço público e muitas vezes não têm controle dessas atividades", diz Itagiba, ex-secretário de Segurança do Rio e ex-superintendente da Polícia Federal no Estado.
Não é possível dizer que foram grampeadas 375.633 linhas telefônicas, já que um mesmo número pode ter sido alvo de ordens judiciais diferentes. E, dentre os pedidos atendidos pela Justiça, também pode haver casos de prorrogações de escutas em curso.

Versão do CNJ
Ainda assim, o número contrasta com as declarações do corregedor do CNJ (Conselho Nacional de Justiça), Gilson Dipp, responsável por elaborar um cadastro dos grampos no país. Com base em informações recebidas pelo CNJ, Dipp afirmou que o número de escutas foi "infinitamente menor" do que dizia a CPI dos Grampos.
O corregedor referia-se à estimativa da CPI de que 409 mil interceptações foram realizadas ano passado, feita a partir de depoimentos de representantes das operadoras à comissão. Porém, o número calculado agora pela CPI com base nas informações prestadas pelas operadoras é apenas 8% menor do que a primeira estimativa.
Na sexta, a Folha procurou o corregedor para que ele comentasse os novos dados, mas, segundo a assessoria de imprensa do órgão, Dipp estava no Chile e não foi localizado.
Em razão de respostas incompletas enviadas pela maioria das 13 operadoras acionadas, a CPI só pôde fazer um mapeamento parcial dos grampos. Baseado nos dados de apenas três operadoras, de nomes não divulgados, que responderam aos questionários na íntegra e disseram ter feito 150 mil interceptações, a comissão diz que 23% delas foram em telefones do Estado de São Paulo.

Celulares
Considerando apenas celulares, essas três operadoras fizeram 85,7 mil escutas, a maioria em telefones de São Paulo: 21,7 mil (um em cada quatro grampos). Em seguida vieram os grampos em celulares do Paraná (13,3 mil), Santa Catarina (6,3 mil), Minas Gerais (5 mil) e Pernambuco (4,8 mil).
A CPI não informou o nome dessas operadoras nem daquelas que prestaram informações incompletas: quer evitar novos problemas com a Justiça, como a liminar do Supremo Tribunal Federal que desobrigou as empresas de enviarem à comissão cópias dos mandados judiciais que ordenaram os grampos.
Para Itagiba, a entrega dos mandados judiciais seria a única forma de a CPI fazer um mapeamento completo das escutas no país e levantar os casos de abuso de poder, como os de grampos ilegais "enxertados" em investigações sem relação com os donos dos aparelhos.
Em cartas enviadas aos presidentes da Câmara e do Senado, Itagiba queixou-se dos "atos de intervenção" do STF nas atividades da Congresso. "Da forma como o Supremo vem se comportando, a caixa-preta dos grampos continuará fechada", diz ele, lembrando que a Justiça já transferiu ao Congresso o sigilo de dados confidenciais, como nas CPIs dos Bingos e dos Sanguessugas.
Apesar de afirmar que a CPI já diagnosticou excesso no uso de grampos pelas polícias, Itagiba diz que não é contrário ao uso desse expediente: "É um instrumento fundamental para investigação de crimes como corrupção, tráfico de drogas, terrorismo, seqüestros e outros. E é justamente por isso que não se pode permitir que caia no descrédito".


Juiz recordista de grampos alega sofrer ameaças

ENVIADO ESPECIAL A ITAGUAÍ (RJ)

Recordista nacional na autorização de escutas telefônicas, o juiz Rafael de Oliveira Fonseca, da Vara Criminal de Itaguaí (cidade a 75 km do Rio), diz que está sendo ameaçado de morte, vive sob proteção policial e que o número de grampos que liberou é menor do que o divulgado pela CPI dos Grampos.
A CPI recebeu das operadoras Oi/Telemar, Brasil Telecom e Claro a informação de que em 2007, com autorização da vara criminal de Itaguaí, foram grampeados 2.147 telefones. Como o IBGE estima a população do município em 103.515, a relação é de uma escuta para cada 48 habitantes. Naquele ano, em todo o Estado do Rio, foram autorizadas 7.145 interceptações.
Em entrevista por e-mail, o juiz Fonseca afirma que "o número [de escutas] é significativamente menor e todas as medidas cautelares de interceptação telefônica deferidas pelo juízo foram revestidas de todas as formalidades legais, com intervenção prévia do Ministério Público e operacionalizadas pela Polícia Federal".
Fonseca, 36, não informou quantas escutas autorizou.
O juiz disse que, por causa de ameaças, o Tribunal de Justiça o mantém sob proteção policial, com escolta em Itaguaí e no Rio. Sobre a razão de ter autorizado as escutas, ele diz que Itaguaí é atravessada pela Rio-Santos, "rodovia federal de intenso fluxo", conectada a "outras rodovias importantes como a Dutra e a antiga Rio-São Paulo"."A criminalidade é conexa. Por certo, não foram terminais ou cidadãos de Itaguaí os monitorados, em sua maioria", afirmou.
Convocado duas vezes para depor na CPI, o juiz não compareceu, amparado por habeas corpus concedido pelo Supremo Tribunal Federal. "O juiz deveria vir à CPI dizer que os números estão errados, esclarecer isso ao público", diz o presidente da CPI, deputado Marcelo Itagiba (PMDB-RJ).
(SERGIO TORRES)

Eliane Cantanhêde - Folha de São Paulo - link (aqui)



Vira-lata? Nem tanto

BRASÍLIA - Barack Obama recebeu cumprimentos de todo o mundo, até do controvertido Irã, mas só deu nove telefonemas no primeiro lote de agradecimentos: para França, Reino Unido, Alemanha, Coréia do Sul, Israel, Japão, Austrália e os vizinhos Canadá e México -único agraciado da América Latina.
Isso diz muito do que tende a ser a política externa de Obama: não se esperem dele invasões de países alheios nem que dê de ombros para protocolos climáticos, mas talvez tenha sido excessiva a expectativa de mais abertura para emergentes.
Sai Bush, entra Obama, mas a crise migra de um para o outro e os EUA continuam sendo os EUA.
Como diz Celso Amorim, os EUA podem até ficar mais humildes com a crise, mas nunca serão franciscanos. Têm tanto poder que a tentação do unilateralismo está na alma, seja republicana, seja democrata.
Na primeira entrevista depois de eleito, Obama falou com simpatia dos "vira-latas, como eu", mas escolheu telefonar para os Buldogs, Hottweilers, Labradores e, claro, fez política de boa-vizinhança.
Onde ficam os orgulhosos emergentes? E o Brasil, líder da América do Sul? A região está e vai continuar fora do foco de Washington, até porque Obama tem prioridades na fila, desde costurar a classe média, esgarçada com menos 240 mil empregos num mês, até se mostrar para os parceiros que importam.
Para Amorim, a reunião do G-20 no próximo sábado será o "grande teste" do multilateralista Obama, cuja liderança será decisiva para mudar o funcionamento e a própria essência de organismos como o FMI. Eles sempre fiscalizaram os pobres, mas quem tem o poder sobre a vida de milhões são os ricos.
Amorim avisa que a reunião não pode ser só "para tirar foto", e Guido Mantega dispensa idas ao G-8 "só para o cafezinho". Mas, mesmo que consiga uns minutinhos com Obama, Lula vai a Washington justamente para isso: tirar foto e tomar cafezinho. Colombiano, claro.