
Peaches And Cherries In A Bowl On A Marble Ledge
Oil on canvas ( 1864 )
da mesa de um bar, a palavra, a prosa e a poesia

Martha Medeiros


Eder Medeiros/Folha Imagem![]() |
"Se Deus quiser, vou fazer pocket até quando for bem famosa. Aí é que vou ganhar dinheiro mesmo"
ANNA GELINSKAS
cantora
Como era inteligente, a menina prosperava cada vez mais rápido na escola; assim, deixou a prostituição e virou dentista |
A menina, estimulada com a chance de ser prostituta em Brasília, morava na favela do Parque Santo Antônio, localizada no chamado "triângulo da morte", na zona sul da cidade de São Paulo. No "triângulo" existe o cemitério São Luiz, que, conta-se, é o lugar onde estariam enterrados mais adolescentes por metro quadrado no mundo.
Dagmar criou, ali, um centro educacional batizado de Casa do Zezinho -o nome é inspirado na poesia "E agora, José?", de Carlos Drummond de Andrade. Uma das freqüentadoras da casa era a menina, que começou a vender o corpo, na fronteira da adolescência, agenciada por um rapaz mais velho da escola pública em que estudava. Dividiam pela metade o valor de cada programa (R$ 10).
A garota não gostou da intromissão da educadora. "Não se mete, não.
Você nunca pensou em se vender para ganhar dinheiro?", perguntou, agressiva. Ela era conhecida pela violência, metia-se em brigas. Quase sempre andava com uma faca.
Dagmar suspeitou de que corria o risco de perder a aluna, desfeito o já frágil laço afetivo. Decidiu entrar no jogo. Disse que nunca quis vender o corpo. Mas, se quisesse, não iria aceitar mixaria. "Eu iria cobrar no mínimo R$ 1.000. Isso no começo, depois aumentaria o preço."
A aluna arregalou os olhos e ouviu a improvável proposta: "Por que você não se prepara para ser puta em Brasília? Você ganha dinheiro e se aposenta". Com aquele corpo e a bagagem intelectual, acrescentou, certamente iria surgir um marido rico.
No dia seguinte, a garota voltou, animada com a proposta. "Topo", disse. Dagmar ponderou que ela deveria, então, se preparar. Para começo de conversa, deveria se cuidar para que aumentasse a disputa dos clientes.
Precisaria, assim, parar imediatamente de estragar seu corpo com os homens da favela. "Você quer chegar a Brasília com a mercadoria velha?" Dagmar convenceu-a de que, além do corpo atraente, precisaria mostrar cultura e saber falar. Um tanto a contragosto, mas de olho nas recompensas futuras, aceitou as aulas.
Com as aulas, vieram reflexões sobre autonomia e responsabilidade; a auto-estima era trabalhada em projetos de arte e comunicação. Certo dia, ela fez um comentário sobre os dentes de Dagmar. "Parece que você tem uma boca de cavalo." E brincou: "Se eu fosse dentista, eu consertaria a sua boca".
O apoio explicou por que, embora sem intenção, a menina apresentasse melhor desempenho escolar. A trajetória teve momentos de crise: como já não faturava com a prostituição, a garota passou a vender drogas. Dagmar voltou a argumentar que, se fosse mesmo vender drogas, deveria se tornar chefe e, aí, precisaria continuar os estudos para entender contabilidade. O inglês seria útil para transações internacionais.

Como era inteligente, a menina prosperava cada vez mais rapidamente na escola. À medida que ficava mais velha, prestava mais atenção no que acontecia em sua comunidade com quem se envolvia com as drogas e a prostituição -bem ao seu lado estava o pedagógico cemitério São Luiz.
Ela chegou a concluir o ensino médio e suspeitou que talvez pudesse prosseguir. Por motivos óbvios, não posso revelar o nome da aluna: "Ainda sinto muita vergonha", justifica. Fez um cursinho pré-vestibular gratuito e entrou na USP. Formou-se em odontologia -e agora vive consertando bocas.

PS: A ex-futura-prostituta de Brasília é um dos casos que passaram pela Casa do Zezinho, uma experiência relatada agora pelo educador Celso Antunes no livro "A Pedagogia do Cuidado", a ser lançado neste mês.
Ele detalha o que existe de teorias pedagógicas por trás dos exemplos.
Se os gestores municipais agora eleitos quiserem fazer cidades melhores, terão de aprender as magias que podem ser feitas quando existirem bons educadores, mesmo num "triângulo da morte".
É mais uma ilustração do que sempre digo: educar é ensinar o encanto da possibilidade. Um dos seus projetos é transformar aquele simbólico cemitério São Luiz, com o recorde de covas de adolescentes, numa galeria de arte, com os muros externos pintados -as obras, claro, serão feitas por adolescentes. Por esse tipo de experiência, Dagmar vai dar aula, na próxima semana, num curso de gestão da Fundação Vanzolini, da Poli.
Mais do que enfrentamento do racismo, eleição nos EUA mostra derrota de ala republicana ultraconservadora e completa transição política iniciada há dois anos
CARLOS DA FONSECA
ESPECIAL PARA A FOLHA
Uma das leituras mais freqüentes do sentido da vitória de Barack Obama é a de que se tratou de uma "catarse" (a expressão é do "New York Times") pela qual o país finalmente superou a barreira política da cor. A história americana explica essa interpretação e justifica a ênfase: o primeiro presidente negro dos EUA elegeu-se 232 anos depois da Declaração de Independência, que ressaltou a "verdade evidente" de que todos os homens são iguais; 145 anos após a abolição da escravidão; 112 após a Suprema Corte endossar o sistema de segregação racial; 54 após a primeira grande vitória do Movimento dos Direitos Civis, com a decisão, da mesma corte, contrária à segregação nas escolas públicas; 40 depois do assassinato de Martin Luther King. Sem desmerecer a importância desse fato, a realidade é que a vitória de Obama deve-se menos à capacidade de conciliação da sociedade americana do que à de renovação de seu sistema político. Uma renovação, de resto, imposta pela desastrosa gestão do atual presidente, que vê sepultado seu polêmico legado numa das maiores crises econômicas da história. Obama é, assim, menos o protagonista de uma revolução social do que de uma transição política que, já prenunciada nas legislativas de 2006, devolve ao Partido Democrata uma hegemonia perdida década e meia atrás. O grande derrotado do pleito de terça passada não é tanto o racismo, mas o radicalismo conservador que, dominando o Partido Republicano nas últimas décadas, levou ao poder o atual presidente. George W. Bush foi o produto político de uma peculiar aliança "multiconservadora": filho de uma tradicional família de Connecticut, mas criado no Texas e "renascido em Cristo", ele reuniu à sua volta empedernidos sulistas, desgostosos com o New Deal, fundamentalistas evangélicos, defensores de um Estado bíblico e neoconservadores laicos, promotores do Império Americano. Essa confluência reacionária contribuiu para a consumação do projeto hegemônico republicano que, iniciado por Reagan, confirmou-se na vitória legislativa de 1994, que deu ao partido maioria na Câmara. Correspondeu, por outro lado, ao que muitos republicanos moderados consideram o "seqüestro" da agremiação por radicais cuja agenda divergia de suas bandeiras históricas.
Dois conservadorismos
Os radicais conservadores que elegeram Bush filho pouco têm a ver com o conservadorismo tradicional de seu pai. No plano doméstico, insistem em imprimir moralidade religiosa às ações do governo, reproduzindo ideário que ressoa mais nos recôncavos do "Cinturão da Bíblia" do que no norte industrial, onde o partido nasceu. No plano externo, defendem um internacionalismo messiânico e belicoso, em tudo diferente do pragmatismo cauteloso proposto por conservadores realistas como Henry Kissinger e Brent Scowcroft. Essa "nova cara" do Partido Republicano, produto de um casamento de interesses entre radicais conservadores de diferentes estirpes, consolidou-se com a ascensão de lideranças que, já no final dos anos 1970, disparavam suas canhoneiras contra a inércia do patriciado empresarial da Costa Leste. Revoltados contra o que viam como um processo de decadência política e moral do país, atitudes dúbias do governo e decisões arbitrárias da Suprema Corte (que, em 1973, legalizava o aborto), nomes como John Neuhaus, Jerry Falwell, Pat Robertson, Irving e Bill Kristol, Michael Novak, Robert Kagan e Norman Podhoretz, uns neoconservadores, outros "teoconservadores", fundaram projeto forjado em interesses comuns, ainda que sobre premissas diferentes. Em 1980, juntaram forças pela primeira vez, elegendo o paraninfo Reagan. Oito anos depois, dividiram-se em relação a George H.W. Bush, que chegou a enfrentar Pat Robertson nas primárias. O repúdio a Bill Clinton reuniu-os outra vez. Em 1996, alguns (Neuhaus, Novak) chegaram a propor uma revolução, enquanto outros (Kristol, Kagan) limitavam-se a querer derrubar Saddam Hussein. Em 2000, realizaram, com George W. Bush, ambos os sonhos. Bush, cujo mandato eleitoral era dos mais frágeis (lembrem-se de sua "vitória" na Flórida), promoveu uma verdadeira revolução na política externa do país, rompendo alianças tradicionais, afirmando um unilateralismo belicoso e declarando duas guerras, uma das quais claramente desnecessária. No plano doméstico, avançou o quanto pôde a agenda da direita radical e cristã, com medidas contra as liberdades individuais e em favor da educação religiosa e da limitação do aborto e de pesquisas com células-tronco. Esse radicalismo sem mandato polarizou o eleitorado, causando, entre os democratas, mobilização que não se via havia anos. Ao mesmo tempo, o capital político do presidente, herdado do 11 de Setembro, foi dissipado com medidas que, sustentadas na "guerra ao terrorismo", terminaram por desgastar seu governo e enfraquecer seu partido. A eleição de Obama, ancorada na ânsia por mudança, foi o produto dessa conjuntura. O fato de sua negritude, que deu à vitória sentido de transcendência, apenas mostrou o quanto esse desejo de mudança era grande.
O estabelecimento de relações racionais com a ilha é um fruto maduro, grátis e conveniente |
ENVIADO ESPECIAL A ITAGUAÍ (RJ)
Recordista nacional na autorização de escutas telefônicas, o juiz Rafael de Oliveira Fonseca, da Vara Criminal de Itaguaí (cidade a 75 km do Rio), diz que está sendo ameaçado de morte, vive sob proteção policial e que o número de grampos que liberou é menor do que o divulgado pela CPI dos Grampos.
A CPI recebeu das operadoras Oi/Telemar, Brasil Telecom e Claro a informação de que em 2007, com autorização da vara criminal de Itaguaí, foram grampeados 2.147 telefones. Como o IBGE estima a população do município em 103.515, a relação é de uma escuta para cada 48 habitantes. Naquele ano, em todo o Estado do Rio, foram autorizadas 7.145 interceptações.
Em entrevista por e-mail, o juiz Fonseca afirma que "o número [de escutas] é significativamente menor e todas as medidas cautelares de interceptação telefônica deferidas pelo juízo foram revestidas de todas as formalidades legais, com intervenção prévia do Ministério Público e operacionalizadas pela Polícia Federal".
Fonseca, 36, não informou quantas escutas autorizou.
O juiz disse que, por causa de ameaças, o Tribunal de Justiça o mantém sob proteção policial, com escolta em Itaguaí e no Rio. Sobre a razão de ter autorizado as escutas, ele diz que Itaguaí é atravessada pela Rio-Santos, "rodovia federal de intenso fluxo", conectada a "outras rodovias importantes como a Dutra e a antiga Rio-São Paulo"."A criminalidade é conexa. Por certo, não foram terminais ou cidadãos de Itaguaí os monitorados, em sua maioria", afirmou.
Convocado duas vezes para depor na CPI, o juiz não compareceu, amparado por habeas corpus concedido pelo Supremo Tribunal Federal. "O juiz deveria vir à CPI dizer que os números estão errados, esclarecer isso ao público", diz o presidente da CPI, deputado Marcelo Itagiba (PMDB-RJ).
(SERGIO TORRES)