domingo, 1 de março de 2009

Vinícius Torres Freire - Folha de São Paulo - link (aqui)




Campanha da fraternidade no BC

O Carnaval acabou, o emprego também, vieram as Cinzas, a Igreja lançou sua campanha: só falta a malhação dos juros

A INDÚSTRIA deve ter crescido uns 10% em janeiro. Ótimo? Trata-se de 10% em relação a dezembro de 2008. Qualquer coisa, além da morte, é melhor que dezembro de 2008, um evento "cisne negro", como se diz hoje em dia, raro até para a histérica volatilidade brasileira. Logo, tanto faz. Sobre janeiro de 2008, a produção da indústria deve ter encolhido horríveis 10%. O número do IBGE sai na sexta-feira, dia 6. A previsão do Ipea, que nos últimos meses tem acertado mais que o mercado, é de queda de 10,5% em relação a janeiro de 2008 e "avanço" de 10,2% sobre o tétrico dezembro.
Mas, aqui, a precisão das estimativas importa tanto quanto aquelas manchetes de Carnaval sobre as escolas que "empolgaram a avenida". Interessa é que a evolução e o conjunto dos dados econômicos mais recentes estão em harmonia de Cinzas. Tais indicadores, seu potencial de causar desemprego e os juros rolando a ladeira no mercado deveriam deixar o Banco Central bem confortável para talhar, e bem, a Selic daqui a duas semanas.
O desemprego deu um salto antecipado para o buraco, caindo mais e mais cedo do que o habitual, de modo quase concomitante à baixa da produção. Nesta crise, o desemprego está "just in time", com trabalhadores sendo desovados como estoques fabris. O aprofundamento da crise enxugará ainda mais empregos, mas já começamos bem -mal.
O crédito não se recuperou, como dizia o BC. O volume de empréstimos novos no início de 2009 está na mesma em relação ao do início de 2008. Os juros bancários seguem na estratosfera, privatizando a contração de crédito, para dizê-lo com ironia -não precisam de ajuda do BC.
A inflação baixa. O IGP-M veio de novo bem aquém do que "o mercado esperava", e baixo de qualquer maneira. A terceira prévia do IPC da Fipe também mostra sinal de preços se esboroando. Sondagem da FGV revelou na sexta-feira que a confiança do consumidor caiu outra vez de janeiro para fevereiro e desabou ante fevereiro de 2008, ficando no menor nível da série, iniciada em 2005.
Sobre o cenário internacional nem é preciso dizer muito: os resultados são piores do que os da crise dos anos 1980, e vão piorando. As quedas das exportações nas grandes economias vão de 20% a 30%. A AEB (associação dos exportadores brasileiros) estima que as vendas do país devem cair quase 18% neste ano, mas já soam otimistas. Vai sobrar capacidade produtiva. E, por ora, o consumo de energia elétrica está no menor patamar desde julho de 2007, informou na sexta-feira a Empresa de Pesquisa Energética.
Investidores praticamente já dão de lambuja a queda de um ponto na Selic, a julgar pelo fechamento do mercado de juros futuros na sexta-feira passada. Os economistas do Itaú, em relatório divulgado também na sexta-feira, diziam que mesmo a queda do superávit primário, embora indesejável, decerto, não vai prejudicar a redução dos juros (embora deva reduzir o tamanho do talho, no final das contas).
Em suma, o BC terá razoável dificuldade de encontrar argumentos para não baixar a Selic de, mínimo dos mínimos, 12,75% para 11,75%, nível para o qual a taxa foi elevada em junho de 2008, pouco antes de o mundo começar a derreter.

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