sexta-feira, 1 de maio de 2009

Chrysler pede concordata e se alia à Fiat - Folha de São Paulo - link (aqui)



3ª maior montadora dos EUA não fecha acordo com credores e recorre a Lei de Falências; governo espera recuperação rápida

Italiana pode se tornar maior acionista da Chrysler ao fim do processo, que prevê novas injeções de até US$ 8 bi do governo Obama


Kevin Lamarque/Reuters

O presidente Barack Obama comenta crise na Chrysler; segundo ele, empresa sairá mais "forte e competitiva" da concordata

FERNANDO CANZIAN
DE NOVA YORK

Em novo marco na maior crise mundial desde 1930, a Chrysler, terceira maior montadora dos EUA, entrou ontem com pedido de concordata em Nova York. Como parte da reestruturação, haverá parceria inédita com a italiana Fiat.
A Chrysler se valeu do chamado "Chapter 11" (Capítulo 11) da Lei de Falências para pedir proteção judicial contra credores na reestruturação. No pedido, fixou a data-limite de 28 de agosto (daqui a quatro meses) para o fim do processo.
Membros do governo americano disseram esperar uma concordata "cirúrgica", que dure de 30 a 60 dias. A decisão foi comentada pelo presidente Barack Obama, depois de a Chrysler estourar o prazo concedido pelo governo para que saísse sozinha da crise. "Tenho toda a confiança de que a Chrysler emergirá desse processo mais forte e competitiva."
Detalhes da reestruturação não foram divulgados. Mas espera-se que, em um primeiro momento, a composição do capital da Chrysler fique dividida assim: 55% para a UAW (sindicato do setor), representada por um fundo de saúde dos trabalhadores; 20% para a Fiat; 8% para o governo dos EUA; e 2% para o governo do Canadá, onde a montadora tem algumas fábricas.
Especula-se que, ao longo do processo, a Fiat poderá se tornar a maior acionista da Chrysler, redesenhando o mapa da indústria automobilística nos EUA. O premiê da Itália, Silvio Berlusconi, disse que seu país "pode se sentir orgulhoso" pelo acordo Fiat-Chrysler, "uma confirmação da capacidade industrial e da inovação tecnológica alcançada pela Fiat".
Para Obama, a parceria "dará à Chrysler uma oportunidade não só de sobreviver mas de prosperar no mercado global".
A reestruturação custará mais alguns bilhões aos contribuintes americanos. Estão previstos entre US$ 3 bilhões e US$ 3,5 bilhões para um refinanciamento de dívidas e capital de giro, além de mais US$ 4,5 bilhões assim que a reestruturação estiver concluída. Com os novos aportes, o total injetado pelo governo americano subirá a US$ 12,5 bilhões.
Como comparação, o valor representa apenas 2% sobre o total já transferido pelo Tesouro dos EUA para socorrer 19 bancos. Os US$ 8 bilhões novos contêm US$ 2 bilhões a mais em relação ao que o governo havia prometido caso a empresa fechasse acordo com a Fiat sem passar pela concordata.
A Chrysler deverá receber mais US$ 2,6 bilhões do governo do Canadá, que se comprometeu a destinar à companhia US$ 1 para cada US$ 3 injetados pelos EUA. Pedido de concordata também será feito no país.
A concordata da Chrysler nos EUA é a primeira de uma empresa do setor automobilístico desde o pedido, em 1933, da já finada Studebaker (marca que figurou nos EUA por quase cem anos, produzindo de vagões de trens a automóveis).
O presidente da Chrysler, Robert Nardelli, anunciou que deixará o comando da montadora tão logo a fusão com a Fiat seja completada. A empresa passará então a ser administrada por um conselho de nove executivos, três deles da Fiat, que devem escolher um novo presidente.
A concordata foi anunciada depois de a Chrysler não ter conseguido chegar a um entendimento com seus principais credores. Para uma dívida de US$ 6,9 bilhões, ofereceu pagamento total de US$ 2,25 bilhões (sendo US$ 250 milhões em dinheiro estatal). Embora quatro grandes bancos tenham concordado, não houve acordo com os demais credores. Obama chegou a chamar esses credores de "especuladores". Eles esperam receber mais com a concordata.
Ainda ontem, a Chrysler havia chegado a um entendimento com os principais sindicatos que representam seus 38,4 mil operários - e eles tinham concordado com cortes de salários e benefícios.
A Casa Branca também anunciou que, como parte da restruturação, cerca de 3.600 concessionárias da Chrysler em todo o país poderão fechar e que a Chrysler Financial, braço financeiro da empresa, deixará de financiar a montadora e as concessionárias de veículos.

General Motors
A reestruturação da Chrysler deverá servir de "laboratório" para o futuro da General Motors, que tem prazo até o dia 1º de junho para encontrar saída da atual crise. Os credores da GM anunciaram ontem uma contraproposta na tentativa de evitar também um pedido de concordata da maior montadora do país (a Ford é a segunda).
Pela oferta, os credores trocariam suas dívidas de US$ 27 bilhões por 58% das ações na GM. O UWA ficaria com 41% da "nova GM", e os atuais acionistas, com só 1% da companhia.
A proposta descarta qualquer tipo de participação estatal na empresa e foi vendida como alternativa para "prevenir a estatização de uma das maiores empresas do país".

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