sexta-feira, 1 de maio de 2009

Em filme, Paulo Vanzolini diz que nunca quis perder tempo com música - Jornal do Brasil - link (aqui)



Carlos Helí de Almeida, Jornal do Brasil

RECIFE - Ele é autor de clássicos do samba urbano paulistano, é reverenciado pela nata da MPB, mas prefere a companhia dos animais silvestres. “O que você precisa entender, meu amigo, é que eu sou zoólogo”, diz Paulo Vanzolini em Um homem de moral, documentário de Ricardo Dias sobre o cientista brasileiro, formado em medicina pela Universidade de São Paulo e doutorado em biologia em Harvard (EUA). “Nunca fiz música profissionalmente, não queria perder tempo com isso, porque considerei minha profissão”, revela mais adiante o teórico da biodiversidade, que completou 85 anos na semana passada. O filme, que estreia dia 5 de junho no Rio e em São Paulo, foi exibido nesta quarta-feira na competição do 13º Cine PE para uma plateia encantada com a prosa do autor de Ronda e Volta por cima.

Este é o terceiro encontro de Dias com o zoólogo e compositor (ex-compositor: Vanzolini escreveu a última das suas 52 canções ainda nos anos 80), personagem do diretor no longa-metragem No rio das Amazonas (1995) e no curta Os calangos do boiaçu (1992). Um homem de moral começou a tomar forma em 2002, na época do lançamento da caixa de CDs Acerto de contas, da gravadora Biscoito Fino. Dias estava sempre por perto e registrou os ensaios, as gravações e o espetáculo de lançamento da homenagem, no Sesc Vila Mariana em 2003. O filme reúne depoimentos do compositor, imagens raras de Adoniran Barbosa e fotos do arquivo de Thomaz Farkas, que ilustram e contextualizam as 28 músicas do filme.

– Conheci o arquivo do Farkas quando codirigimos o curta Pixinguinha e a velha guarda do samba (2006). Encontrei jóias como a foto do cara (Vanzolini) lendo um jornal em plena Avenida São João, em 1948, que nunca havia sido usada. Era perfeita para ilustrar uma música como Ronda – conta Dias.

Figura um tanto arredia (“Não gosto de gente individualmente, mas do povo em geral gosto muito”, admite Vanzolini no filme) o documentário se beneficia do respeito conquistado por Dias ao longo das décadas. O cineasta o conheceu ainda menino, nos anos 60, quando o pai, engenheiro, construía a barragem do rio Jupiá, no Paraná. Vanzolini fazia o estudo do impacto ambiental da obra na região. Dias foi aluno do cientista quando estudou Biologia na USP nos anos 70. Desde 1984 documenta o trabalho de Vanzolini como zoólogo. De certa forma, Um homem de moral tem o ponto de vista do pupilo diante do mestre.

– Quando o vi pela primeira vez, ele estava taxidermizando (técnica parecida ao empalhamento) um macaco. Foi na época em que Volta por cima estourou. Meu pai se referiu a ele como o autor daquela música, ressaltando que, na verdade, ele era um cientista. – recorda o diretor. – Só vim a conhecer e me inteirar de seu processo musical durante a realização do filme. Vanzolini não escreve letra e depois põe música: faz a letra da canção com a música.

Vanzolini trabalhou por mais de 50 anos no Museu de Zoologia da USP e foi diretor da instituição entre 1962 e 1993, quando se aposentou. Apesar de viver longe dos circuito musical, ainda tem o respeito e a admiração de seus pares. O filme conta com a participação de nomes como Chico Buarque, Paulinho da Viola, Martinho da Vila, Inezita Barroso, Paulinho Nogueira, Miúcha, Virgínia Rosa e Chico Aguiar, entre outros.

(Carlos Helí de Almeida viajou a convite do Cine PE)

20:23 - 30/04/2009

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