sábado, 20 de fevereiro de 2010

Teatro de aventura - Estadão online - link (aqui)



A mítica encenadora Ariane Mnouchkine estreia em Paris sua nova criação, que celebra a arte de sonhar

Deolinda Vilhena


A estreia de um espetáculo do Théâtre du Soleil é sempre um acontecimento cênico mundial. (Atenção: não confundir com o Cirque du Soleil, que faz sua estreia hoje para o público de São Paulo de seu "show" Quidam - ler à pág. 5). Fiel à sua discrição, na qual reside em parte o seu charme, a trupe do Théâtre nunca dá muitas informações sobre suas criações. Sabe-se que são longamente elaboradas, mas a "capitã" Ariane Mnouchkine prefere deixar para o público o prazer da descoberta.

No caso de Les Naufragés du Fol Espoir (Os Náufragos da Louca Esperança), novo trabalho da mítica trupe francesa, a encenadora mais uma vez reinventa o espaço ocupado pela companhia na Cartoucherie, cidade teatral utópica instalada no bosque de Vincennes, em Paris. Na fachada do galpão principal utilizado pela trupe desde 1970, lê-se "Au Fol Espoir, sala de teatro, concertos e cinema".

Como reza a tradição, no Théâtre du Soleil o espetáculo é total. E, como tal, nos arrebata desde a entrada, quando rompemos as fronteiras entre o palco e a cidade, entre o público e os atores e nos descobrimos parte integrante do cenário, às voltas com um copo de limonada do deserto ou um suco de gengibre servido por Mama Fanta.

O foyer foi transformado em cabaré belle époque, como que num prolongamento da cena. Nas paredes, um afresco de Didier Martin evoca o mundo - com seus mares e terras - além do universo de Júlio Verne, em vermelho e dourado, como que a reproduzir as capas das edições Hetzel publicadas no final do século 19. Nada mais normal, o romance póstumo Les Naufragés du Jonahtan, do mestre da literatura de aventura, está na origem da criação coletiva do espetáculo, realizada em harmonia com Hélène Cixous, sob o olhar exigente e benfazejo de Ariane Mnouchkine.

Espetáculo que se anuncia épico, como de hábito, e cheio de humanidade, como sempre. Les Naufragés foi inteiramente produzido pelo Théâtre du Soleil, uma sociedade cooperativa operária de produção composta por 80 integrantes - o mais jovem com 19 anos e o mais velho (Ariane), com 70 - dos quais 35 são atores.

Contra toda e qualquer lógica mercantilista, os espetáculos de Ariane Mnouchkine precisam de tempo para amadurecer. Desta vez foram necessários 18 meses de preparação, com uma rápida pausa durante o último verão europeu, para apresentar Les Éphémères em Nova York (o mesmo que veio para o Brasil em 2007).

Com estreia inicialmente prevista para 11 de novembro de 2009 e, por duas vezes adiada, Les Naufragés du Fol Espoir não escapou de nascer "prematuramente" no último dia 3. Prematuro? Mesmo sendo "fruto de um trabalho que exigiu muito tempo e muito esforço", como observa Mnouchkine, ela não o considerava pronto. Motivo suficiente para a estreia transformar-se em ensaio geral e o público receber de volta o valor pago pelo ingresso.

CINEMATÓGRAFO

Tudo começa em uma guinguette - gênero de cabaré popular dos subúrbios parisienses funcionando também como restaurante e como lugar de bailes, muito em voga no século 19 - às margens do Rio Marne, chamada justamente Au Fol Espoir. O proprietário, Félix Courage, magistralmente interpretado por Eve Doe-Bruce, fascinado por esta nova arte que é o cinematógrafo, um verdadeiro mecenas, concorda em emprestar o imenso sótão do local - além de ceder seus funcionários - para uma equipe de cinema.

A ideia é transformá-lo em estúdio, no qual será realizado o ambicioso e sonhador projeto de Jean La Palette (Maurice Durozier), sua irmã Gabrielle (a brasileira Juliana Carneiro da Cunha, há anos na companhia) e seu amigo de infância Tommaso (Duccio Bellugi-Vannuccini): transformar em filme a história dos emigrantes que partiram de navio do porto de Cardiff, em 1895, para alcançar a Austrália e que encalham na Terra do Fogo, num deserto de água e gelo.

Indagada sobre o que esperava do espetáculo, Ariane responde: "Gostaria que fosse engraçado e comovente. Um espetáculo de aventuras, no qual, através do aquecimento do imaginário, tendo como apoio o corpo do ator, pudéssemos incutir desejo, coragem e ânimo no espectador." Para isso, ela transportou para o palco uma história que se passa entre 28 de junho e 2 de agosto de 1914: apenas cinco semanas, o suficiente para construir um espetáculo feito das grandes esperanças bruscamente interrompidas pela guerra. O espetáculo prima pela inteligência e pelo virtuosismo, feito por 35 atores que se encontram com paixão para uma reflexão sobre a utopia na política, através da magia do cinema mudo e da força coletiva de uma aventura teatral e humana única.


Tributo cênico ao sonho de filmar

Em Naufragés du Fol Espoir, Ariane Mnouchkine representa a aventura do cinema em seus primórdios

Deolinda Vilhena


A experiência de ver um espetáculo do grupo francês Thêatrè du Soleil (não confundir com o Cirque du Soleil - ler abaixo) é impressionante. Tudo é sempre cercado por uma equipe técnica afinadíssima. O programa da peça traz o nome de mais de 160 pessoas envolvidas direta ou indiretamente na criação de Les Naufragés du Fol Espoir, o que permite transformações da cena em questão de segundos, apoiados por enormes e belas marinhas pintadas por Danièle Heusslein-Gire, numa coreografia extremamente precisa digna de cena de comparsaria das grandes óperas ou balés, onde cada um ocupa seu espaço.

O ritmo é garantido pelo mago Jean-Jacques Lemêtre que diz ter convocado "as almas de seus grandes antepassados dos séculos 19 e 20, Beethoven, Berlioz, Carl Orff, Prokofiev, Brahms, Puccini, Verdi, Schubert, Wagner etc..." Tão numerosos quanto inteligentes são os dispositivos de narrativa, inventados para a ocasião pela trupe do Théâtre du Soleil que transita entre dois movimentos ligando o teatro e o cinema, fazendo apelo até mesmo à presença forte de uma narradora, a atriz Shaghayegh Beheshti.

QUEM É ELA

Filha de um dos maiores produtores de cinema da França, Alexandre Mnouchkine (1908-1993), e ela mesma cineasta - filmou o inesquecível Molière - Ariane Mnouchkine conhece desde o berço os artifícios do cinema. E usa o artesanato mais puro para executá-los. Vento imaginário, tempestades de neve artificial, mares em fúria, telas pintadas? Com alguns ventiladores, tecido, fios de náilon, cordas e algodão, ela realiza truques dignos de Georges Méliès, ilusionista francês, pai dos efeitos especiais.

"Que viagem!" É a exclamação mais ouvida à saída do Théâtre du Soleil, como se Ariane Mnouchkine nos permitisse reencontrar a inocência e sonhar todos os sonhos, que passam pelas ondas furiosas do Cabo Horn, por momentos sérios e outros de burlesco puro, pelas tempestades de neve e por cenas de aventura cuja beleza nos tira o fôlego. Mesmo se o fim não nos reserva boas surpresas. Afinal, sabemos que a 1ª Guerra Mundial aconteceu, que Jean Jaurès foi assassinado. Que o sonho de uma sociedade humana, que exista além da luta de classes e da exploração do homem pelo homem, perdeu a batalha para o capitalismo.

ALIMENTO

Entretanto, as emoções correm soltas. E Ariane Mnouchkine, mesmo afirmando não acreditar nas emoções que cegam, reconhece a emoção como "uma informação essencial para que o teatro seja fonte de alimento, desde que ela (a emoção) não impeça nem a inteligência nem a reflexão."

Ainda que não seja necessária muita inteligência e/ou reflexão para concluir que Les Naufragés du Fol Espoir pode ser visto como uma bela metáfora da aventura vivida pela própria Ariane e seu Théâtre du Soleil. Afinal, como o protetor dos índios que sonha se instalar no outro extremo da Terra do Fogo, na esperança de "dar aos barcos que navegam no escuro a luz obstinada de um farol", o Théâtre du Soleil é um verdadeiro baluarte a iluminar o mundo com um teatro de arte e ao mesmo tempo popular.

A companhia é guiada por uma crença sincera e comunicativa, cuja existência só é possível quando o teatro é alimentado por uma dinâmica coletiva, da qual Ariane conhece o segredo e, com a qual ela reinventa o mundo diante de nós, os espectadores.

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