A cena acima foi gravada no escritório da residência de Joaquim Roriz. Na imagem, em primeiro plano, o advogado Adriano José Borges Silva. Vem a ser o genro do ministro Carlos Ayres Britto, do STF. É sócio e marido de Adriele Pinheiro Reis Ayres de Britto, filha do ministro.
Adriano encontrou-se com Roriz no último dia 3 de setembro. Na conversa, gravada por Roriz com câmera escondida, ele se oferece para socorrer o interlocutor. Roriz ainda era, àquela altura, candidato ao governo do DF. O TSE negara-lhe registro. Enquadrara-o na lei da Ficha Limpa.
Barrado, o candidato recorrera ao Supremo. Ayres Britto era o relator do recurso. O genro do ministro se ofereceu para ajudar. Em troca de pró-labore –R$ 1,5 milhão de entrada, mais R$ 3 milhões no “êxito”— seu sogro se declararia impedido de atuar no caso de Roriz.
O placar do julgamento do recurso de Roriz no STF foi um empate –5 a 5. Sem Ayres Britto, Joaquim ‘Ficha Suja’ Roriz teria prevalecido por 5 a 4. Em notícia veiculada na noite desta quinta (30), os repórteres Andrei Meireles e Marcelo Rocha contam o seguinte:
1. Em 1º de setembro, o genro de Ayres Britto endereçou um e-mail aos advogados de Roriz. Anotou os seus dados e os de sua mulher. O objetivo era que fossem subcontratados para atuar na defesa de Roriz. No texto, Adriano anotou:
“Favor comunicar ao governador, pois é necessária uma reunião para explicarmos a estratégia e colocá-lo a par acerca dos colaboradores envolvidos”.
2. Em 3 de setembro, Roriz recebeu em sua casa o genro de Ayres Britto. Conduziu-o ao escritório. Acendeu a luz. Uma câmera oculta registrava a cena. Num trecho, Adriano e Roriz travam diálogos que falam por si. Coisas assim:
- Adriano Borges: “Eu posso então colocar esse pro-labore e o êxito... Eu preciso fazer um ajuste com meu pessoal”.
- Joaquim Roriz: “Eu gostaria da sinceridade sobre o voto do seu sogro”.
- Adriano Borges: “A única coisa que eu tô precisando é que ele não leve... Com isso, ele não vai participar... Tá impedido”.
- Joaquim Roriz: “Então é o êxito. [...] Com isso eu ganho folgado”.
- Joaquim Roriz: “Eu gostaria da sinceridade sobre o voto do seu sogro”.
- Adriano Borges: “A única coisa que eu tô precisando é que ele não leve... Com isso, ele não vai participar... Tá impedido”.
- Joaquim Roriz: “Então é o êxito. [...] Com isso eu ganho folgado”.
3. Com o genro e a filha metidos na causa, Ayres Britto não teria outra alternativa senão declarar-se impedido de atuar no processo. Seria um voto a menos contra Roriz.
4. Algo semelhante ocorrera no ano passado. Ayres Britto havia sido sorteado para atuar como relator em inquérito que corria no STF contra o então senador Expedito Júnior (PSDB-RO). Caso de corrupção.
Uma semana depois, o genro Adriano ingressou na causa de Expedito. E Ayres Britto teve de afastar-se da relatoria. No diálogo com Roriz, Adriano diz que assessores o estavam apertando. Cobravam pagamento.
5. A certa altura, o genro do relator sugere um valor. Ele soa assim no vídeo: “Nos processos que peguei, governador... Eu estou trabalhando o Expedito Júnior [hoje candidato ao governo de Rondônia, também barrado pela Ficha Limpa], o pró-labore foi cobrado um milhão e meio e três no êxito, né”.
6. Roriz achou os valores salgados. Não houve acordo. Em 8 de setembro, uma quarta-feira, Adriano e a mulher, Adriele Ayres Britto, deixaram o processo de Roriz. Saíram à tarde. No mesmo dia, à noite, o ministro Ayres Britto, que não precisou se declarar impedido, indeferiu um pedido de liminar de Roriz.
6. Roriz achou os valores salgados. Não houve acordo. Em 8 de setembro, uma quarta-feira, Adriano e a mulher, Adriele Ayres Britto, deixaram o processo de Roriz. Saíram à tarde. No mesmo dia, à noite, o ministro Ayres Britto, que não precisou se declarar impedido, indeferiu um pedido de liminar de Roriz.
7. Em sessão que entrou pela madrugada do dia 24 de setembro, uma sexta-feira, o Supremo julgou o mérito do recurso de Roriz. Cinco a Cinco. Ayres Britto votou contra o candidato. O julgamento foi adiado. Roriz renunciou à candidatura. Lançou a mulher, Weslian. E o STF arquivou o recurso.
8. Ouvido há dez dias, Adriano Borges alegou que deixou o processo de Roriz depois de verificar que a defesa do candidato fora bem feita e não requeria a participação dele. Com a divulgação do vídeo pelo grupo de Roriz, Adriano se diz, agora, vítima de uma armadilha.
9. Ouviu-se também o ministro. Ayres Britto disse que não se declarou impedido no caso Roriz porque, até onde soube, o genro contactara o acusado, mas não chegara a celebrar um contrato.
10. Ao justificar a gravação, os advogados de Roriz alegam que todas as conversas mantidas pelo cliente eram filmadas. Por quê? Para se precaver contra eventuais distorções dos interlocutores.
11. O vídeo que o grupo de Roriz levou à praça tem duração de 60 segundos. Nesse pedaço da filmagem o genro do ministro oferece os seus préstimos e sugere o valor do pró-labore.
12. Para se defender, o próprio Adriano divulgou um naco da gravação, que não conta da primeira peça. Nessas imagens, exibe-se um impasse entre o genro do ministro e Roriz. Divergem quanto às cifras. Roriz faz uma contraproposta: R$ 1 milhão. Adriano não precisaria fazer nada. Apenas ceder o nome.
Para Adriano, essa passagem do diálogo deixaria claro que sua atuação foi profissional. Por quê? Recusou uma proposta de Roriz. Em verdade, o que o segundo vídeo mostra é que o candidato tentou regatear o preço. Daí não ter divulgado toda a fita.
Escrito por Josias de Souza às 05h37




0 comentários:
Postar um comentário