01/12/2010
Cercada pela infantaria do PMDB, Dilma Rousseff ensaiou nesta quarta (1º) um recuo tático."Eu queria adiantar que ainda não escolhi o ministro da Saúde", disse a presidente eleita aos repórteres.
Na véspera, embalado pela ocupação do Complexo do Alemão, Sérgio Cabral acomodara na pasta um membro de sua tropa de elite.
Nas pegadas de uma incursão noturna à Granja do Torto, o governador do Rio dissera:
"Dilma foi muito enfática na campanha, na admiração do trabalho que nós realizamos aqui na saúde pública...”
“...E o secretário Sérgio Cortês será o ministro da Saúde. Para nós, é uma honra. Já foi feito o convite da presidente Dilma a mim, eu já o consultei e ele aceitou".
Cabral plantou Cortês na Saúde sem a cortesia de um telefonema ao vice-presidente eleito Michel Temer, comandante nacional das nomeações do PMDB.
A tropa do PMDB federal foi às baionetas. Em meio a intenso tiroteio, Cabral tocou o telefone para Temer. Ouça-se o comandante:
"O Sérgio Cabral me telefonou hoje pela manhã para dizer que, na verdade, o ministro da Saúde indicado por ele foi uma cota pessoal da presidente Dilma...”
“...Ele disse: ‘Ô Temer, não procurei ninguém porque isso foi cota pessoal. Ela me chamou, queria um técnico para a Saúde...”
“...’[Dilma] disse que aprecia muito o trabalho do Sérgio Cortês e, portanto, queria um técnico e entrava na cota pessoal dela".
Temer reuniu-se com José Sarney e Renan Calheiros, respectivamente general e coronel do PMDB do Senado. Contaram a munição.
Depois, Temer exibiu o paiol a Dilma. Disse que Nelson Jobim (Defesa) e Sérgio Cortês (Saúde) não entram na conta do PMDB.
Ambos compõem o que Temer chamou de “cota pessoal” de Dilma. São considerados assim, segundo ele, pelo próprio governo de transição.
Em seguida, Temer levou aos refletores o mapa da ocupação da Esplanada: “A disputa gira em torno de quatro ou cinco ministérios. Essa é a tese”.
Dilma acena com quatro pastas. O PMDB almeja cinco. “Seriam dois indicados pela Câmara e dois indicados pelo Senado”, disse Temer.
Acrescentou: “Se houver cota pessoal minha, eu indico um nome". Temer não disse, mas o nome que deseja indicar é o de Wellington Moreira Franco.
Ex-governador do Rio, Moreira Franco enfrenta o nariz torcido de Cabral. Um adversário que, desmentido por Dilma, passou a ter prioridades mais urgentes.
Temer cuidou de demarcar o seu próprio território. Afora a “cota pessoal”, na qual tenta encaixar Moreira Franco, consolidou a posição da Agricultura.
Pega em armas para manter na pasta o afilhado Wagner Rossi. Deixou claro está guarnecido na retaguarda:
"Eu tenho conversado com o líder [na Câmara] Henrique Alves. Ele me disse que o nome do Wagner Rossi é muito bem recebido...”
Temer deu um passo à frente: “Já recebi até manifestações pedindo sua permanência".
No front do Senado, Sarney e Renan dão de barato que, sob Dilma, o complexo de Minas e Energia, ocupado sob Lula, permanecerá sob o controle do PMDB.
Voltará à pasta um soldado do pelotão de Sarney: o senador Edison Lobão (PMDB-MA).
Resta definir, além da “cota pessoal” de Temer, a “compensação” a ser provida ao PMDB pela perda de dois pedaços da Esplanada.
A Integração Nacional Dilma quer entregar ao PSB. As Comunicações ela deseja confiar ao grão-petê Paulo Bernardo.
Inquirido pelos repórteres espeficamente sobre o caso das Comunicações, Temer deu a entender que o jogo não está jogado:
"Não digo se abrimos ou não abrimos [mão do ministério]. Estamos conversando sobre essa composição. A ideia é o Paulo Bernardo...”
“...É um grande ministro, e tudo isso depende de como estará essa substituição de Comunicações por outro ministério. Mas isso tudo depende da presidente".
Até o início da semana, Dilma desfilou pela frente de combate sozinha. Entocado em suas trincheiras, o PMDB guardava resignado silêncio.
Nas últimas 48 horas, a tropa de Temer decidiu fazer soar o ronco de suas baionetas. Dilma pode responder de duas maneiras.
Se desfraldar a bandeira branca, compra solidariedade. Se for à sorte das armas, compra briga com a guerrilha do PMDB no Congresso.
Escrito por Josias de Souza às 18h52




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