domingo, 10 de janeiro de 2010
Dora Kramer - Estadão online - link (aqui)
Mistérios de polichinelo
Mas se fez política: o governador de Minas, Aécio Neves, saiu do falso embate bem maior do que entrou e o governador de São Paulo, José Serra, ficou sozinho em cena sem precisar se pronunciar a respeito da candidatura.
O passo adiante é mantido sob rigoroso sigilo, embora seja um segredo de polichinelo quase tão secreto quanto aquele guardado pelos tucanos até dezembro último.
Com a diferença de que o resultado agora não é certíssimo como era aquele. O governador mineiro continua firme na negativa, embora já tenha sido mais enfático na recusa.
Seus pares na cúpula do partido deram por interditada a discussão pública do assunto e do governador de São Paulo não se obtém nada além de um "depende do Aécio".
No particular, porém, o tucanato não só torce e trabalha em prol da junção dos dois mais vistosos nomes do partido como exibe boa dose de confiança. Baseada no raciocínio de que "pela lógica" Aécio acaba aceitando.
Dirigentes que até a oficialização da desistência do mineiro não tinham a menor esperança, já deixaram de considerar a chapa pura uma hipótese remota.
Cumprem o ritual do silêncio, acham que o governador no momento está fazendo o que é preciso fazer - ajeitar as coisas em Minas depois de já ter conseguido o cacife de fiador do desejo de todo o partido -, mas apostam que está "segurando" a vaga ao Senado para negociar alianças. Notadamente com o PMDB de Hélio Costa.
Na base dessa crença levam em conta os interesses políticos do próprio Aécio, sob as seguintes premissas: a necessidade de manter o poder dele sobre a "base", Minas, e a afirmação como liderança de expressão nacional para efeito de futura candidatura a presidente.
Por esse raciocínio Aécio teria muito mais chance de eleger governador o atual vice, Antonio Anastasia, como candidato na chapa presidencial do que como pretendente a uma vaga no Senado. Até porque, nesse caso, teria de se dedicar à própria campanha e deixaria Anastasia como figura secundária.
A experiência da campanha municipal de 2008 é citada como exemplo. A preponderância do nome de Aécio sobre o de Marcio Lacerda fez o eleitor se desinteressar pelo candidato e quase leva o governador a perder a disputa pela Prefeitura de Belo Horizonte.
Além disso, seria também, segundo aquela interpretação em vigor na seara tucana, muito mais conveniente Aécio investir na vitória do PSDB para a Presidência da República do que se arriscar a ser mais um senador de oposição, sem possibilidade de almejar a presidência do Senado.
Nesse aspecto, Aécio Neves não é o único interessado em se empenhar na eleição de presidente. Os tucanos dizem que, diferentemente das duas presidenciais anteriores, em 2002 e 2006, agora o sentido da unidade está presente em todos.
Pautados, claro, pela necessidade: o verdadeiro pânico de que a derrota leve os partidos de oposição às vias da extinção. Mais quatro ou oito anos fora do poder, argumentam, vão sobrar muito poucos para continuar a história.
Muito bem, mas e se estiverem todos equivocados e Aécio mantiver a decisão de concorrer ao Senado?
Apesar dos boatos, dizem que Marina Silva e Itamar Franco são hipóteses fora de cogitação. A senadora por impossibilidade real e o ex-presidente pelo potencial de conflito de seu temperamento.
Nesse caso, o PSDB partiria algo desanimado para um "déjà vu" com o DEM.
Cercania
A versão de que o ex-secretário de Meio Ambiente do governo de São Paulo Eduardo Jorge, coordenador da campanha presidencial de Marina Silva, seria a "ponte" para a formação de uma possível chapa Serra-Marina, é só uma ilação.
Fato mesmo é que, no caso da vitória do PSDB, ele seria o predileto de José Serra para o Ministério do Meio Ambiente. E uma coisa não tem necessariamente a ver com a outra.
Ao arquivo
Pode até ser que para desembaraçar a negociação em torno da formação da chapa puro-sangue do PSDB, Serra e Aécio combinem qualquer coisa relativa à reeleição.
Mas a ideia de investir na retirada da Constituição da possibilidade de dois mandatos consecutivos para presidentes, governadores e prefeitos, foi posta de lado.
Por um motivo objetivo: o PT não aceita.
E por orientação direta do presidente Luiz Inácio da Silva, que chegou a conversar a respeito com Serra em 2008, mas depois mandou avisar que não tinha razão nem disposição de facilitar o andamento do "fila do PSDB".
Ou seja, se os dois tucanos quiserem se entender que se entendam, mas não será - nem deve ser - Lula quem vai contribuir para a promoção da paz no campo adversário.
Danusa Leão - Folha de São Paulo - link (aqui)
Episódios cariocas
Tem alguma coisa mais carioca do que um marido que vai para o botequim jogar baralho? |
Contou histórias e usou uma palavra que há anos eu não ouvia: que enquanto cuidava da lida, o marido, folgado, ficava no botequim com os amigos tomando cerveja e jogando...
baralho. Tem alguma coisa mais carioca do que um marido que vai para o botequim jogar baralho? Se fosse biriba, tranca, bisca, mas não: ela disse BARALHO. Adorei a história.
A mesma manicure, por sinal morena de astral altíssimo, contou do dia em que o marido foi pedir a seus pais para deixá-la ir morar com ele; casar não podia, pois foi antes da lei do divórcio. Muito sério, ele disse que nada faltaria em casa, que ela não precisaria trabalhar e que não se preocupassem, pois ele nunca bateria nela. Aí, meu queixo caiu.
Nunca tinha ouvido falar de um homem que, ao pedir a mão de uma moça, diz a seus pais que fiquem tranquilos porque ele jamais vai bater nela. Se ele diz isso, imagino que o normal seria bater. Ok que isso deve ter sido antes da Lei Maria da Penha, mas penso que na cabeça de algumas pessoas mais rudes, talvez, bater na mulher seja comum; tão comum que ele quis tranquilizar seus futuros sogros dizendo que nunca faria isso.
Esse é um Brasil que só se conhece quando uma simpática e extrovertida manicure resolve contar sua vida, e ainda confirma: "ele é muito bom, nunca me bateu".
Outro dia eu estava procurando alguma coisa para ver na televisão, não tinha nada. Acabei parando num documentário já começado, em preto e branco, meio gasto pelo tempo. Deduzi que havia sido feito em alguma favela ou bairro da zona norte do Rio, cujos moradores gostavam de samba, claro. Era Carnaval, iam todos sair sambando, e o sonho era serem promovidos a escola de samba para desfilar na avenida no próximo ano, junto com as importantes. Quem narrava o documentário era o presidente da possível futura escola.
A câmera focalizou uma birosca, que na verdade era um barracão, e num puxado, com chão de terra batida, alguns homens de variadas idades faziam o ritmo e cantavam. Era coisa séria: só tinha homens. Os closes, bem feitos, foram nas garrafas de cerveja, nas mãos dos sambistas: um batucava na mesa, outro fazia o ritmo numa caixinha de fósforo, outro batia duas varetas de madeira, outro um pequeno pandeiro. Eram homens humildes, todos vestidos muito corretamente, mas percebia-se que as bermudas que usavam um dia haviam sido calças.
Aí apareceu a talvez futura escola na rua, sambando. Todos muito pobres, pobres e animados; a maioria vestida normalmente, e só alguns poucos improvisaram uma fantasia, como um rapaz que vestia short, enormes brincos de argola e um turbante na cabeça. Mas o que mais me empolgou foi uma "ala" com quatro jovens magrinhos, de perna fina, enrolados em um lençol, como se fosse uma toga; na cabeça, uma coroinha feita de folhas, e nas mãos um assento de privada, à guisa de lira. Um deles levava um cartaz tosco, escrito à mão, onde se lia: "Os tarados de Roma".
No final do documentário, soube-se que o grupo no ano seguinte estava na avenida desfilando com as "grandes", com o nome de Unidos de Vila Isabel.
Ah, povo brasileiro; você é muito emocionante.
Elio Gaspari - Folha de São Paulo - link (aqui)
A autora americana e o gaúcho deportado
Elizabeth Gilbert ("Comer, Rezar, Amar"...) achou um novo livro na desdita imposta a "Felipe", o seu amor |
Felipe nasceu em Porto Alegre, trabalha desde menino, ganhou o mundo com um título de campeão de ginástica e o dinheiro que guardara vendendo ferro-velho e ossos de animais para uma fábrica de cola. Estabeleceu-se na Austrália, onde casou-se com uma diplomata, formou uma família e montou um pequeno negócio. É um homem discreto e não gosta de aparecer.
No seu novo livro, Elizabeth Gilbert contou como uma paixão madura (ela tem 40 anos, e ele, 57) destravou o horror de um casal à instituição do matrimônio. Sobreviventes de dois divórcios dilacerantes, os dois viviam entre a Ásia e e Filadélfia. Felipe é um modesto comerciante de pedras preciosas, com negócios nos Estados Unidos. Ela era uma escritora de pouco sucesso, com três livros publicados e um projeto no laptop. Foram apresentados em Bali pela cearense Armenia Nercessian de Oliveira, uma batalhadora dos direitos humanos com passagens pela Bósnia e El Salvador, que hoje dirige a Novica.com, uma rede mundial de apoio a artistas e artesãos.
O céu desabou sobre a vida do casal no início de 2006, no aeroporto de Dallas, quando voltaram de uma viagem e "Felipe" foi detido pela imigração americana. O policial do Homeland Security decidiu que seu visto não lhe permitia entrar de novo no país. "Felipe" ficou seis horas numa sala de interrogatórios, foi algemado, encarcerado por uma noite e deportado.
O que se podia fazer? "Só se vocês casarem", respondeu o policial.
Os dois pensaram em resolver o problema no aeroporto, mas havia uma papelada no caminho. Para se casar com um estrangeiro, Elizabeth deveria passar pelo crivo do FBI. (Exigência criada para prevenir o tráfico de mulheres por cafetões americanos.) "Felipe" teve que contar sua vida ao consulado de Sydney: o que estava fazendo na península do Sinai em 1975? (Correndo atrás de uma namorada israelense de 17 anos.)
Durante os sete meses em que vagaram pela Ásia esperando o andamento dos papéis, ela buscava um assunto para seu próximo livro. O casal vivia numa casa modesta em Bali e hospedava-se em hotéis baratos do Vietnã e do Laos. "Felipe" teve seus negócios mutilados, e a vida de Elizabeth foi dura a ponto de ela ter detestado o Camboja, numa viagem em que tudo deu errado, até uma tentativa de doar sangue.
Mss havia um conto de fadas em curso. Enquanto o casal ralava, "Comer, Rezar, Amar" estourava nas paradas. Em janeiro de 2007, a escritora pouco conhecida transformou-se numa autora milionária, editada em 26 idiomas e listada entre as mulheres mais influentes do mundo. De quebra, ganhara a ideia para seu próximo livro. Não é à toa que na lista de agradecimentos do livro está Tom, o policial do Homeland Security.
"Comprometida" conta como uma desgraça -a deportação de "Felipe"- obrigou-os ao matrimônio. Elizabeth Gilbert foi fundo na reflexão e na pesquisa sobre o assunto. Ela viaja pelos séculos e pelos continentes mostrando preconceitos, mentiras e virtudes da instituição. Noves fora a questão da maternidade, com a qual se atrapalha (ela não teve filhos e Felipe tem dois, adultos), "Comprometida" é um presente para as pessoas que refletem sobre casamentos futuros, presentes e até passados. Ela não oferece soluções. Limita-se a provar que o casamento é melhor negócio para os homens. Mesmo assim, casou-se.
ADIEU
Fernando Gabeira desistiu de sua candidatura ao governo do Rio talvez sem saber que se chegou a cozinhar uma proposta irrecusável. Ele entraria na disputa. Ganhando, levava o Rio. Perdendo, caso José Serra vencesse a eleição presidencial, seria nomeado embaixador em Paris.
RIDI, ARRUDA
José Roberto Arruda voltou a sorrir, mas ainda não está livre de ser mandado à cadeia. Está no Supremo Tribunal Federal o pedido do procurador-geral para que seja declarado inconstitucional o artigo da Constituição de Brasília que dá poderes à Câmara Legislativa para blindar o governador. Se o STF aceitar o pedido (o que parece provável), Arruda cairá na jurisdição do STJ. No interesse da preservação de provas, o tribunal poderá deferir um pedido de prisão preventiva. Arruda pode parar de sorrir ainda em 2010.
KENNEDY NO COPA
As memórias do senador Ted Kennedy informam que em maio de 1941 seu irmão John esteve no Brasil. Juntou-se à mãe e a uma irmã que desciam de um cruzeiro caribenho. Kennedy hospedou-se no Copacabana Palace, em cujo papel de carta escreveu uma nota ao adido militar americano, mandando-lhe um livro. Há alguns anos esse papel circulou no mercado de autógrafos. Deve valer uns US$ 15 mil. Um cartão de Natal de Lee Oswald, seu assassino, valeu US$ 6.500.
BOA VAGA
Se José Serra for o próximo presidente, poderá ser presenteado com o preenchimento de uma vaga inesperada de ministro do Supremo.
LULA E O MAR
Inconfidência de um barqueiro que acompanhou uma pescaria de Lula, há tempos:
Antes de a gente sair, um oficial da Presidência me procurou e disse para dar um jeito: Marisa, a mulher de Lula, precisava conseguir mais peixes que ele. Não tive dúvida, na hora de botar a sardinha viva no anzol dele, eu apertava a cabeça da bichinha. Morta, a isca chamava menos peixes. O barqueiro surpreendeu-se com o desempenho de Lula, que perdeu a competição, mas teve um desempenho superior ao previsto.
COSAN & SENZALA
O doutor Marcos Lutz, presidente do grupo Cosan, o maior produtor de açúcar e álcool do Brasil, precisa pensar na vida. Ele tem uma marca a zelar. Afinal, sua empresa está na lista limpa da Bolsa de Nova York e na carteira de investimentos do banqueiro Armínio Fraga.
Faz tempo que o Cosan é acusado de se beneficiar das condições degradantes de trabalho impostas aos trabalhadores do corte da cana. Há poucas semanas, o grupo foi incluído pelo Ministério do Trabalho numa lista suja, respondeu com uma nota oficial ao estilo do Palácio de Buckingham e fechou-se em copas. Por conta da denúncia do ministério, o BNDES congelou preventivamente pelo menos R$ 635 milhões de créditos concedidos à empresa. Nova nota de lordes. Ela pode botar a cara de seus diretores na vitrine. Se a marca do Cosan pegar a nódoa de Casa-Grande-no-andar-de-cima & Senzala-no-andar-de-baixo, de nada adiantará botar os lordes na rua. Na sexta-feira, uma liminar tirou o Cosan da lista, mas o processo continua. O Cosan fatura R$ 4 bilhões por ano e se orgulha de gerar 40 mil empregos.
Janio de Freitas - Folha de São Paulo - link (aqui)
O governo contra o governo
O Programa Nacional de Direitos Humanos é um dos atos de governo mais tresloucados do pós-ditadura |
É suficiente notar dois dos muitos propósitos que o decreto junta à pretendida comissão da verdade -causa de imediata e extremada reação dos comandos militares-, para captar o desatino masoquista do governo: modificação das regras de renovação dos canais de TV, para dissolver as atuais concentrações e impedir novas, e criação de imposto específico sobre a grande riqueza pessoal.
Excetuadas as tolices como a classificação permanente dos meios de comunicação, segundo sua adesão aos direitos humanos, grande parte do decreto é uma antecipação do futuro, menos ou mais remoto. Hoje impraticável, considerada a força dos poderes que se confrontariam, a desconcentração de meios de comunicação é uma quase certeza aqui reservada ao futuro. As legislações dos Estados Unidos e de vários países europeus preveniram-se logo aos primeiros sinais do poder identificado nas concentrações. O endeusamento do "mercado", ou vale tudo, nos anos 90 atenuou as restrições nos EUA, mas as limitações já estão outra vez em discussão. Na América Latina, território prioritário da concentração, o assunto está esquentando em diversas capitais.
Um exemplo interessante da importância desse tema foi deixado por Roberto Marinho. As divergências políticas levaram ao erro de obscurecer as qualidades de Marinho como condutor da empresa jornalística herdada dos pais. Alcançar o domínio do jornalismo impresso no Rio foi por muito tempo, claro, um dos seus sonhos, e agiu para isso com todas armas do capitalismo. Mas quando o "Jornal do Brasil", conduzido por qualidades inversas, deu sinais de derrocada, Roberto Marinho preocupou-se talvez mais do que os donos do "JB": não queria ficar sozinho na "grande imprensa" carioca, porque via nesse predomínio um estímulo a ideias antimonopolísticas nos meios de comunicação. Pelo mesmo motivo, ajudou Adolpho Bloch a fazer a TV Manchete, até que a nova TV entrou na seara das novelas e tornou-se concorrente direta.
Aumentar os serviços e diminuir o custo abusivo dos planos de saúde, restrições verdadeiras à influência do dinheiro nas eleições, a manifestação pública em questões polêmicas e de interesse da população são, entre outros, casos em que o teor do decreto antecipa o que virá, por certo, menos ou mais tarde. Mas, com a associação de intenções problemáticas feita pelo governo, o decreto não ultrapassa as barreiras conhecidas. E, se ficar por aí só para poupar Lula de recuos vexaminosos, será um fantasma inócuo, porque não se desdobrará nas leis que fariam do plano uma realidade.
Inovações
Deve ser um novo estilo de política. Com todos as desgraças por aí afora, Lula não foi capaz de abalar-se sequer em um gesto mínimo de solidariedade formal às vítimas. Nos soterramentos e desabamentos iniciais em São Paulo, José Serra não se mostrou nem falou, e quando falou foi para responsabilizar os paulistanos por entupirem os bueiros com lixo. Sérgio Cabral não foi a Angra e Ilha Grande, em seguida aos desastres, porque "não é demagogo", mas depois cedeu às críticas e foi "fazer demagogia". A secretária fluminense de Ação Social, Benedita da Silva, levou seis dias para mostrar algum interesse pelo que aconteceu em Angra.
Nem mesmo o ministro Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal, emitiu considerações sobre as tragédias. Deve ser uma novidade constatável mas, por ora, inexplicável.
Carlos Heitor Cony - Folha de São Paulo - link (aqui)
Tapetes legais
RIO DE JANEIRO - Mais uma vez se discute a lei da anistia, com posições antagônicas que chegam a ameaçar uma minicrise entre o governo e os comandantes militares. Os argumentos são os mesmos: a anistia foi para os dois lados, mas crimes de morte e tortura não estão incluídos entre os desmandos políticos de 1964 a 1985.
Acontece que estão, do ponto de vista penal. São crimes prescritos de ambos os lados e a anistia não foi uma vitória de um deles sobre o outro. Foi o consenso que permitiu a redemocratização do país.
Ao contrário do final da Segunda Guerra Mundial, quando os aliados exigiram a rendição incondicional da Alemanha, o regime militar aqui no Brasil se exauriu aos poucos, desgastando-se ao ponto de ser obrigado a aceitar o consenso, caso contrário poderia haver ainda alguns bolsões que continuariam a ditadura por mais um tempo. Tivemos o caso da demissão do Sílvio Frota, que desejou prender o presidente da República para impedir a abertura política; e a bomba do Riocentro, que prolongou o terrorismo do governo contra a sociedade civil que desejava o fim da excrescência militar.
Contudo, o que a nação tem direito de saber não é o grau de punição que os militares e adeptos civis da ditadura merecem agora, tantos anos passados sobre o consenso que marcou o fim do arbítrio. Todos temos o direito de saber como as coisas se passaram, quem fez isso e aquilo, quais as estruturas contaminadas pelo crime, como foi possível tanta e tamanha degradação.
Que venha a verdade, os inquéritos e processos, as sessões de tortura e morte, as perseguições indiscriminadas que jogaram tantos brasileiros na clandestinidade e no exílio. Maior castigo não pode haver para aqueles que cometeram os crimes que continuam debaixo dos tapetes legais.
Eliane Cantanhêde - Folha de São Paulo - link (aqui)
Quase unanimidade
BRASÍLIA - Raramente se veem uma causa tão apoiada quanto a dos direitos humanos e um plano tão desastrado quanto o de direitos humanos. O alvo eram os chefes e torturadores da ditadura militar, mas a metralhadora giratória atingiu, como mostrou o repórter José Casado, setores tão diversos quanto igreja, imprensa, TV, rádios, ruralistas, planos de saúde e o próprio Congresso Nacional.
Tão acostumados com planos quilométricos que não chegam a lugar nenhum, tão cansados de um ano de trabalho, às vésperas do Natal, tão viciados em privilegiar o detalhe e desprezar o conjunto, o fato é que cometemos todos -a imprensa, primeiro; a opinião pública, depois- o tremendo erro de não ler, não levar a sério, não medir as consequências. Como o próprio Lula.
Tudo o que restou do lançamento do plano foi a foto da ministra Dilma Rousseff sem a peruca.
Enquanto isso, os bastidores do governo ferviam. Jobim não assinou o plano, os comandantes militares ameaçaram pedir demissão, Tarso Genro pairou sobre a confusão, Paulo Vannuchi (Direitos Humanos) sumiu. O governo se dividiu e, agora, com a leitura detalhada e as críticas à mostra, é a sociedade que está dividida. Há que melhorar e rever o que nem foi visto.
O plano é o principal e mais complexo problema que Lula enfrenta neste início de 2010, ano em que ele não deve bater de frente com velhos aliados da esquerda, nem virar as costas ao resto para, pretensamente, ficar ao lado deles.
Lula precisa de um pretexto para fazer meia volta, volver, cumprir a palavra com Jobim (Defesa) e satisfazer por tabela a tropa de descontentes, militares ou civis. E o pretexto é um viés stalinista e excessivamente amplo do plano.
Aliás, bem mais urgente e concreto do que discutir direitos humanos acadêmica e ideologicamente é agir: acabar já com a tortura de pobre em cadeias e penitenciárias.
Sem isso, o resto é tertúlia.
Clóvis Rossi - Folha de São Paulo - link (aqui)
O mandato que a finança não tem
SÃO PAULO - Na crise argentina, há um aspecto institucional infinitamente mais grave do que o afastamento à força do presidente do Banco Central, Martín Redrado, depois anulado pela Justiça.
Trata-se de saber, pura e simplesmente, quem tem mandato para tomar decisões, se o presidente da República (no caso, a presidente), que para isso foi eleita livre e legitimamente pelo único soberano, o eleitorado, ou se um funcionário subalterno, que não recebeu qualquer tipo de delegação popular. Sua autoridade, portanto, emana exclusivamente da chefe.
Imagine que o problema de desobediência tivesse acontecido na área, digamos, de transportes.
Se o ministro desacatasse uma orientação da presidente, seria sumariamente demitido e ninguém moveria uma sobrancelha para se espantar.
Agora, quando se mexe no amplo território do que os argentinos chamam de "patria financiera", que hoje em dia nem pátria tem, aí é diferente. Não interessa, do ponto de vista político-institucional, se a ordem dada por Cristina Fernández de Kirchner era tecnicamente a melhor ou a pior. Interessa que ela é a parte legítima para adotá-la. Ponto.
Não acatá-la é insubordinação. Ponto. Insubordinação se pune. Ponto. Sob pena de instaurar-se a anarquia.
O problema é que o predomínio das finanças no mundo contemporâneo é tamanho que se criaram regras formais ou informais (no caso do Brasil, é informal, felizmente) que impedem que o mandatário possa exercer o seu mandato de forma plena.
É óbvio que, uma vez criada a regra, se legítima, deve-se cumpri-la, coisa que a presidente não fez. Mas o descumprimento é uma anomalia filha direta da anomalia maior que foi dar criar a uma situação em que quem não tem mandato se insubordina contra quem tem.




