domingo, 31 de janeiro de 2010

When The Levee Breaks Led Zeppelin +Lyrics




When The Levee Breaks by Led Zeppelin whoo hoo!
Lyrics:

If it keeps on rainin, levees goin to break,
If it keeps on rainin, levees goin to break,
When the levee breaks Ill have no place to stay.
Mean old levee taught me to weep and moan,
Lord, mean old levee taught me to weep and moan,
Got what it takes to make a mountain man leave his home,
Oh, well, oh, well, oh, well.
Dont it make you feel bad
When youre tryin to find your way home,
You dont know which way to go?
If youre goin down south
They go no work to do,
If you dont know about chicago.
Cryin wont help you, prayin wont do you no good,
Now, cryin wont help you, prayin wont do you no good,
When the levee breaks, mama, you got to move.
All last night sat on the levee and moaned,
All last night sat on the levee and moaned,
Thinkin bout me baby and my happy home.
Going, gon to chicago,
Gon to chicago,
Sorry but I cant take you.
Going down, going down now, going down.

Led Zeppelin - Nobody's Fault But Mine

Led Zeppelin - Travelling Riverside Blues

when the levee breaks/led zeppelin

Led Zeppelin Since I've Been Loving You 1973

The Rolling Stones - Honky Tonk Women (1969)

Rolling Stones - Jumping Jack Flash

Rolling Stones - Sympathy For The Devil 1969 Live ...

The Rolling Stones - Satisfaction (live)

The Rolling Stones - Little red rooster

The Beatles - A Hard Day's Night (Live Paris 1965)

The Beatles - She loves you

Beatles - Free As A Bird

O bar e o cinema


(Source - The Independent, uk)

Comercial antigo - Johnnie Walker Commercial TV

Charge do dia


Pancho - Gazeta do Povo - curitiba, PR

O pensador que fundou o mundo moderno - Estadão online - link (aqui)



Com sua Enciclopédia, Diderot provocou poderosos e deu voz ao homem comum

Antonio Gonçalves Filho


Uma enciclopédia que fosse de fato uma suma do conhecimento humano provocaria um incômodo tão grande no mundo contemporâneo que governos cairiam, igrejas perderiam fiéis e seus autores seriam perseguidos pelo planeta afora, a julgar pelos ataques virtuais que os chineses têm desferido contra o Google nos últimos meses. Informação perturba. Conhecimento, mais ainda. Por saber demais, o filósofo francês Denis Diderot (1713-1784), um dos principais pensadores iluministas, foi parar na cadeia em 1749. Autor de um panfleto contra as regras universais da moral e a favor do livre-pensar, ele ousou defender o ateísmo numa época em que a Bíblia segurava monarquias decadentes na Europa. E mais: não fugiu do assunto em sua Enciclopédie, mãe de todas as enciclopédias modernas e tataravó da Wikipedia (leia texto abaixo).

É justamente a Enciclopédia de Diderot que volta a incomodar o coro dos conformistas em tempos de censura internética e intolerância. Depois de publicar, em 2007, um volume com seus verbetes que definem várias escolas filosóficas, o editor Jacó Guinsburg, da Perspectiva, lança agora o segundo volume de História da Filosofia (tradução de Newton Cunha, 368 págs., R$ 68), um resumo que vai de Aristóteles a Spinoza. E, de bônus, entrega às livrarias uma nova tradução, sua, de A Religiosa (256 págs., R$ 52), o polêmico relato romanesco de Diderot que também chega ao mercado na versão em DVD (Cult Classic, R$ 29,90) do filme homônimo dirigido por Jacques Rivette em 1966 (leia texto na página ao lado).

Se depender da disposição do experiente Guinsburg, a Coleção Diderot não vai parar nesse oitavo volume, que dá seguimento ao projeto de reunir o melhor da obra filosófica e literária do autor, cuja paixão pela racionalidade e a liberdade marcou o Iluminismo e conduziu à Revolução Francesa. Brevemente chegará ao leitor o terceiro volume da História da Filosofia e uma biografia do filósofo, primeira paixão de Guinsburg antes mesmo de fundar a editora Perspectiva, em 1965. "Não tenho a pretensão de publicar a obra completa de Diderot, mas creio que lançamos alguns de seus principais livros". De fato, além dos já citados, sua editora publicou, entre outros, o picaresco Jacques, O Fatalista, e Seu Amo e o satírico O Sobrinho de Rameau. Em ambos os casos nota-se a irreverência de Diderot e sua hostilidade às autoridades constituídas, do Estado ou da Igreja.

Apesar disso, entre os colaboradores de sua Enciclopédia ele contou com padres progressistas, não perdendo uma única oportunidade de incorporar visões heterodoxas. Ele foi o que se chama hoje de um homem sintonizado com seu tempo, familiarizado com as descobertas científicas e até mesmo precursor de algumas teorias - como a evolucionista, depois desenvolvida por Darwin - que definem a posição filosófica de um materialista e determinista. Sua adesão inicial ao deísmo - que vê na razão o único modo de assegurar a existência divina, o que significa não considerar qualquer religião -, que muitos atribuem à influência do pensamento filosófico de Shafstebury (1671-1713), foi trocada pelo ateísmo em seu ensaio Carta Sobre os Cegos (1749). Ele traduz a impossibilidade de Diderot de se identificar com a ideia de uma harmonia cósmica e de um design divino defendida pelo pensador inglês. Já Sainte-Beuve, o crítico francês do século 19, considerou seu ateísmo mais como uma resposta rebelde ao aspecto tirânico que a doutrina de Pascal deu ao deus cristão, alegando que Diderot, na velhice, tinha sérias dúvidas sobre a inexistência de Deus.

Educado por jesuítas e destinado à carreira eclesiástica, Diderot chegou a ser tonsurado aos 13 anos, mas sua futura carreira de libertino não poderia conviver com uma cabeça raspada e roupas de padre. Há uma passagem em A Religiosa na qual a sofredora Suzanne, confinada pelos pais num convento, expressa sua repulsa pelo hábito que lhe cola à pele e aos ossos como uma maldição que a priva da liberdade. Ela não é só a filha bastarda que se rebela contra a decisão dos pais ou a irmã humilhada pela madre superiora, mas alguém a quem ficou grudado um estigma. Privada de sua liberdade pelos pais burgueses, Suzanne é a antípoda dos homens descritos por Diderot em seu Supplément au Voyage de Bougainville (escrito em 1772 e publicado em 1796), habitantes das ilhas do Pacífico que vivem o sexo livre numa sociedade sadia. O filósofo seguiu seus modelos. Libertino, escreveu cartas a amigos contando suas orgias numa certa casa de Landes.

Não foi, claro, por seu malabarismo sexual que Diderot passou à história, embora seus panfletos tenham ligação indireta com o dito. Ao ser preso, em 1749, por causa de Carta Sobre os Cegos, a acusação que lhe pesava era de que ele professava "um ceticismo e um sensualismo confinante com o materialismo". De fato, o filósofo defende na carta que o conhecimento adquirido por meio da percepção não deve jamais ser desprezado. A monarquia francesa, que estava desmoronando, ainda teve forças para tirá-lo da prisão de Vincennes justamente porque seus representantes liberais não só entendiam como aprovavam esse conhecimento advindo dos cinco sentidos - afinal, muitos deles participavam das orgias na casa de Landes. De qualquer modo, a prisão o tornou discreto, até mesmo porque sua Enciclopédia lhe traria fortes dores de cabeça por causa das acusações de subversão da ordem constituída, desrespeito à religião e incitamento à revolução.

A Enciclopédia exigiu de Diderot mais de 20 anos de dedicação (de 1745 a 1772) e o levou a escrever O Filho Natural (1757), A Religiosa (1760) e O Sobrinho de Rameau (1761) - todos lançados pela Perspectiva -, aprofundando discussões que não cabiam nos limites dos verbetes. Na impossibilidade de lançar a enciclopédia inteira, Guinsburg selecionou dela apenas a parte filosófica, embora reconhecendo a contribuição que Diderot deu às ciências. "Ao contrário de Voltaire, sua pesquisa está calcada na ciência como instrumento de descoberta, aproximando-se do que viria a ser o positivismo", explica ele. Não é difícil entender as razões de a Enciclopédia ter sido proibida pela monarquia francesa. Era mesmo uma ameaça aos nobres, por promover o artesanato (Diderot era filho de cuteleiro) e o saber das classes "inferiores" (os enciclopedistas entrevistavam artesãos e trabalhadores para conhecer seus ofícios). Atacada por obscurantistas e saudada por outros como sinal de uma nova era, ela entrou na lista dos livros perigosos dos conselheiros de Luís XV por "incitar o espírito de independência e revolta", além de "promover a dissolução de costumes e a descrença na religião". Não era exatamente esse o espírito da publicação, mas o mundo jamais foi o mesmo depois da enciclopédia de Diderot.


Em Coleção


Oito volumes da Coleção Diderot já foram lançados pela Editora Perspectiva, de São Paulo. Além dos dois dedicados à História da Filosofia - que usam verbetes da Enciclopédia - as duas principais coletâneas dos textos de Denis Diderot reúnem os livros Filosofia e Política (Obras I) e Estética, Poética e Contos (Obras II). Dos textos ficcionais, três obras são essenciais: Jacques, o Fatalista, e Seu Amo, A Religiosa e O Sobrinho de Rameau. Jacques, o Fatalista foi considerado até mesmo superior a seu modelo, o Tristram Shandy, de Laurence Sterne, tratando com humor o tema do destino e do livre-arbítrio.

Na Web, a mesma ambição de reunir todo o conhecimento

Referências online no século 21, a Wikipédia e a Britannica ficaram mais parecidas, num esforço para corrigir erros de informação

Raquel Cozer


Minutos após o anúncio da morte do escritor americano J.D. Salinger, na quinta-feira, o verbete dedicado a ele na Wikipédia já incluía, ao lado da data de nascimento, a nova informação. Não é algo que surpreenda hoje, mas, quando a enciclopédia colaborativa surgiu na rede, em janeiro de 2001 - como uma espécie de continuação do ambicioso projeto iluminista de reunir todo o conhecimento -, a proposta de voluntários adicionarem conteúdo tornou-se alvo de críticas.

Parte delas veio de editores da Encyclopedia Britannica, publicada desde 1768 e a mais antiga em língua inglesa ainda em impressão. A rejeição não era ao meio, a internet - no mesmo ano a Britannica estreou a sua versão online -, mas ao fato de a Wikipédia dar ao usuário o poder de manipular informações.

A polêmica se estendeu por anos e, em 2006, a revista Nature fez um teste. Pediu a 42 especialistas que analisassem 50 artigos científicos das duas publicações. A conclusão: a Wikipédia tinha média de quatro inconsistências por verbete, ante três da Britannica. "Empate técnico", decretou a Nature.

A Wikipédia está mais sujeita a erros, mas eles podem ser corrigidos em menos tempo. Em vários artigos lê-se um "carece de fonte"; se o trecho se mantém sem nota de rodapé, é eliminado. Mas o método colaborativo permitiu à enciclopédia wiki (veloz, em havaiano) chegar a 14 milhões de artigos, enquanto o site da Britannica tem 120 mil. Para efeito de comparação, o acervo da Wikipédia é 200 vezes maior que o da Enciclopedia de Diderot, que abrangia 72 mil artigos e cuja gestação demorou décadas.

Outras experiências digitais tiveram menos sucesso. A Microsoft fechou no ano passado a sua Encarta. Era a segunda enciclopédia online mais visitada até então, mas tinha apenas 1,25% desse tráfego, ante 97% da Wikipédia. Àquela altura, o Google já havia lançado o Knol, no qual a pessoa que cria o verbete se torna seu único responsável. Embora continue no ar, o site não virou referência.

Há um ano, a Britannica anunciou que passaria a aceitar a edição de usuários em sua versão na rede, passando sempre pelo crivo de um grupo de editores. No mesmo mês, a Wikipédia informou que alguns verbetes seriam moderados antes da publicação dali em diante. É possível que tenha sido apenas coincidência, mas a busca simultânea por um meio-termo dá a dimensão do que pode vir a ser a enciclopédia do século 21.

A Religiosa, a via-crúcis do filósofo

Publicado postumamente, o livro teve censurada a adaptação para o cinema

Antonio Gonçalves Filho


É uma adaptação austera como o texto original que a inspirou. E igualmente polêmica e censurada em sua época. Finalmente, após anos de ausência do circuito cinematográfico, chega ao mercado (em DVD) o filme A Religiosa, dirigido por Jacques Rivette em 1966 com base no último romance de Diderot, publicado apenas em 1796, doze anos após a morte do filósofo. Compreensível. Preso uma vez, em 1749, por causa de um ensaio cujo tema era o poder dos cinco sentidos sobre a razão (Carta Sobre os Cegos), Diderot foi mais cauteloso ao dar ao mundo sua versão de uma história real, a de uma freira de Longchamp, Suzanne Saulier, que perdeu um processo contra o convento em que foi confinada. Sem vocação, ela teria lutado sem sucesso pela revogação de seus votos religiosos, como a bela Suzanne Simonin de seu livro, que, aos 17 anos, obrigada pelos pais, ingressa na vida religiosa sem convicção.

A nova tradução, a cargo de Jacó Guinsburg, destaca o vigor crítico desse texto "visual" que nasceu de uma brincadeira de salão de Diderot e seus amigos, ao saber da história da freira de Longchamp. A esse respeito, o filósofo Roberto Romano, que coordena a Coleção Diderot com o editor Guinsburg, aponta os exageros dos analistas que viram no romance certo "pictorialismo literário", embora defenda que se trata, efetivamente, de um livro com vocação cinematográfica. Considerando o interesse do filósofo por todas as manifestações artísticas e literárias da época, é bem possível que estivesse hoje escrevendo roteiros para cinema - e certamente menos reverentes que o de Rivette e Jean Gruault para o seu livro. A Religiosa antecipa algumas invenções da literatura moderna, que o diretor deixa escapar em seu filme. Parece claro que, para Rivette, a ética precede a estética. Já para Diderot, as duas andam juntas.

Aparentemente, Diderot teria escrito o livro como um panfleto amargo contra a vida monástica, um ataque à religião mais voraz que seus escritos anteriores sobre o tema. A prisão de Suzanne Simonin não seria apenas física, mas, acima de tudo, moral. Privada de sua liberdade para pagar uma pena que não era a sua - a de ser filha bastarda de um advogado e uma mãe adúltera culpada -, a "religiosa" antecipa o drama dos personagens sartrianos. Para ela, não há saída. Seja no convento das freiras histéricas de Longchamp, que a identificam com Satã por ter negado seus votos, ou no convento das lésbicas libertinas de Arpajon, para o qual é enviada depois, Suzanne está condenada a pagar por sua lucidez e seu desejo de liberdade. E a pagar com a própria vida. Ajudada por um padre confessor igualmente sem vocação, ela foge do convento para viver livre, mas descobre tarde demais que a liberdade tem alto preço num mundo em que o senso de justiça social é precário. Às portas da prostituição, ela se mata.

De algum modo, A Religiosa (1760) é o tratamento trágico de temas que seriam posteriormente abordados em Jacques, o Fatalista, e Seu Amo (1773) e O Sobrinho de Rameau (1761). Se, no primeiro, Jacques acredita ingenuamente no destino, sendo contestado por seu amo, a "religiosa" de Diderot luta contra esse destino, embora saiba - e diga isso com todas as letras - que sua história está traçada pela sociedade. Esta marcou seu corpo com o estigma do hábito, grudado nela como a própria pele. Em outras palavras, sua roupa de freira seria equivalente à burca da mulher muçulmana, cuja identidade é negada em nome de uma lei divina - nos países fundamentalistas, evoque-se, uma mulher pode ser presa por não usar o véu.

O acadêmico suíço Jean Starobinski já observou que Diderot se sentia embaraçado por ser obrigado a dar aos seus personagens uma identidade fixa e estável. Ele se saía melhor quando podia contar a história de forças naturais agindo sobre a estabilidade dessa existência individual, quando se abandonava ao prazer de acabar com a ilusão da autonomia pessoal, segundo Starobinski. Não por outro motivo a freira de Diderot é uma filha ilegítima sem recursos ou poder de barganha com a família. Se, na tragédia grega, os filhos sempre acabam pagando pela culpa dos pais, o destino de Susanne Simonin não é diferente. Há, efetivamente, uma progressão trágica que marca A Religiosa desde o princípio.

Diderot assume a personagem colocando-se no lugar da atormentada religiosa, numa espécie de "androginia literária" em que Rivette apenas esbarra. Essa ética hedonista, que derrubaria as fronteiras morais, fazendo com que freira e criador se unissem contra uma disciplina estoica, é inútil porque se limita a um impulso isolado contra o despotismo. Em todo caso, Diderot tem uma esperança, assim como Suzanne: a de que seja ouvido pelo leitor; que ele, ao menos, experimente a liberdade de imaginar a liberdade.

É ao leitor que o autor conta (como se fosse Suzanne) que o relato só existe por causa do marquês de Croismare, seu amigo, a quem escrevia cartas como se fosse a freira perseguida de Longchamp, provocando-o com a necessidade de um benfeitor para interceder em seu caso, mentira que se revelou, afinal, a mais trágica e pura verdade.



Filme Proibido


Ao ser lançado, em 1966, o filme A Religiosa, dirigido por Jacques Rivette e agora disponível em DVD da Cult Classic, provocou um escândalo e tanto. O Ministério da Informação da França recebeu 12 mil cartas solicitando sua interdição e o governo do general De Gaulle simplesmente acolheu os pedidos. Proibiu o longa tanto na França como no exterior. Ele só foi liberado porque o ministro da Cultura, André Malraux, convenceu os produtores do Festival de Cannes a mostrar o filme, proibido por "imoralidade". No Brasil, o longa foi exibido com cortes.

PF aponta superfaturamento de quase R$ 1 bi em obras de aeroportos - Estadão online - link (aqui)



Relatório diz que esquema de fraudes em licitações foi arquitetado pela cúpula da Infraero na gestão Carlos Wilson

Fausto Macedo e Bruno Tavares


A Polícia Federal apontou superfaturamento de R$ 991,8 milhões nas obras de dez aeroportos administrados pela Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero) - Corumbá, Congonhas, Guarulhos, Brasília, Goiânia, Cuiabá, Macapá, Uberlândia, Vitória e Santos Dumont. Todas as obras foram contratadas durante o primeiro mandato do governo Luiz Inácio Lula da Silva, entre 2003 e 2006.

Relatório final da Operação Caixa Preta sustenta que o desvio é resultado de um esquema de fraudes em licitações arquitetado pela cúpula da estatal na administração Carlos Wilson, que presidiu a Infraero naquele período. Ex-deputado, ex-senador e ex-governador de Pernambuco (1990), Carlos Wilson foi filiado à antiga Arena, ao PMDB, ao PSDB e, por último, ao PT. Ele morreu em abril de 2009, aos 59 anos, vítima de câncer.

Os principais assessores de Wilson no comando da Infraero foram enquadrados pela PF: Josefina Valle de Oliveira Pinha, ex-advogada-geral do Senado que exerceu a função de superintendente jurídica da estatal; Adenahuer Figueira Nunes, ex-diretor financeiro, e Eleuza Lores, ex-diretora de engenharia - o indiciamento de Eleuza foi suspenso pelo Superior Tribunal de Justiça.

O dossiê da PF esmiúça em 188 páginas como operou "um seleto e ajustado grupo" de 18 empreiteiras. A Polícia Federal imputa seis crimes a 52 investigados, entre ex-dirigentes e funcionários da Infraero, empresários, projetistas e fiscais: formação de quadrilha, peculato (crime contra a administração pública), corrupção ativa e passiva, crimes contra a ordem econômica e fraude em licitações.

O inquérito foi aberto em novembro de 2006 pela Superintendência Regional da PF em Brasília. Equipes multidisciplinares formadas por peritos criminais federais, engenheiros civis, mecânicos, elétricos, eletrônicos e cartográficos inspecionaram um a um os aeroportos. Interceptações telefônicas revelaram estreito contato entre ex-diretores da Infraero e funcionários de empreiteiras. A investigação foi conduzida pelos delegados César Leandro Hübner e Felipe Alcântara de Barros Leal. "A equipe policial identificou um enorme superfaturamento nos preços e quantidades dos serviços praticados pelas empresas contratadas em um montante aproximado de R$ 1 bilhão em valores atualizados", assinala o texto.

À página 26 do relatório a PF estima que o valor superfaturado seria suficiente para construir 34.193 casas populares, "o que equivale a todas as moradias de uma cidade de 112.837 habitantes". O desvio corresponde ainda ao total necessário para a construção do Terminal 3 do Aeroporto Internacional de Guarulhos, obra tida como fundamental para suportar o crescimento do setor aéreo e receber com conforto os turistas para a Copa 2014.

LAUDOS

Laudos periciais revelam gastos a maior. Com base no laudo 761/2009, do Instituto Nacional de Criminalística (INC), braço da Diretoria Técnico-Científica, a PF afirma que "a Norberto Odebrecht figura como responsável por um desvio do valor atualizado de R$ 163, 25 milhões dos cofres públicos".

Na obra do Santos Dumont (RJ), diz a PF, a Odebrecht "apresentou superfaturamento no valor de R$ 17,25 milhões". Segundo o relatório, "essa modalidade de superfaturamento se caracteriza pela cobrança em duplicidade, ou cobrança por serviço não executado".

O laudo 781/2009 indica que a Via Engenharia "figura como responsável por desvio de R$ 40,65 milhões das obras do aeroporto de Goiânia".

A PF aponta intrincada teia de relacionamentos entre os acusados. "Percebe-se a existência de robustos indícios de um esquema fraudulento de corrupção envolvendo servidores da Infraero e representantes legais e/ou de fato de sociedades empresariais construtoras, projetistas e de fiscalização, objetivando, por meio de conluio de vontades de mais de três pessoas, frustrar de forma reiterada o caráter competitivo de licitações, possibilitando, em seguida, modificações e vantagens em favor de tais sociedades empresariais."

São alvos do inquérito 18 empreiteiras: Odebrecht, OAS, Carioca, Construcap, Camargo Corrêa, Galvão, Via Engenharia, Queiroz Galvão, Constran, Mendes Júnior, Serveng Civilsan, Gautama, Beter, Estacon, Financial, Enpress, Triunfo e Cima. Elas negam irregularidades (veja na página A6). As fraudes, diz a PF, tiveram apoio de altos funcionários da Infraero. "Objetivando beneficiar seleto grupo de empresários, precisava-se restringir o caráter competitivo das licitações necessárias à aplicação dos recursos federais. Para tanto, eram necessárias mudanças estruturais e normativas na Infraero."

A PF destaca algumas "manobras" da direção da estatal, como contratação de uma mesma empresa para executar diferentes obras no aeroporto e a adoção da modalidade de técnica e preço. A primeira, segundo a PF, restringe a quantidade de licitações e, consequentemente, o número de empresas contratadas. A outra, embora não tivesse o "condão de direcionar a licitação, foi crucial para os atos preparatórios seguintes, que implicaram a agregação de subjetividade ao certame, facilitando os ajustes ilícitos".

A PF aponta formação de cartel - conluio entre empresas para prejudicar concorrentes -, inclusão indevida de etapa de pré-qualificação, mudanças de regras durante a licitação. Os peritos constataram dois tipos de superfaturamento: por falta de qualidade e quantidade e por sobrepreço e jogo de planilha.

Infraero sofreu loteamento político

Felipe Recondo


O loteamento político da Infraero no governo Lula é citado como um dos responsáveis pelas falhas na administração do setor de aviação e a crise enfrentada nos últimos anos. Depois do apagão aéreo, do acidente com o avião da Gol e das denúncias de corrupção na estatal, o governo mudou o perfil do comando da estatal e enxugou os cargos de confiança. As denúncias contra o órgão cessaram.

No começo do governo, em 2003, Lula nomeou o petista Carlos Wilson para o comando do órgão. Nesse período, o número de funcionários comissionados na Infraero chegou a 240. Ele deixou o cargo em 2006, para disputar uma vaga na Câmara. Sua gestão foi um dos principais objetos da CPI do Apagão Aéreo, instalada na Câmara. Carlos Wilson foi então substituído pelo o brigadeiro José Carlos Pereira.

O apagão aéreo levou o presidente Lula a nomear Nelson Jobim para o Ministério da Defesa.Diante do desgaste provocado pelos atrasos, cancelamentos de voos e as longas filas nos aeroportos, Jobim trocou o comando da Infraero: saiu José Carlos Pereira e entrou Sérgio Gaudenzi, indicação feita pelo PSB. Jobim iniciou um plano para a profissionalização da empresa e privatização dos aeroportos rentáveis. O primeiro passo foi uma redução dos cargos políticos. Nesse meio tempo, Gaudenzi pediu demissão e deixou o caminho aberto para uma indicação eminentemente técnica. Jobim indicou um homem de sua confiança para a presidência da empresa: Murilo Marques Barboza.

Infraero diz apoiar PF e empreiteiras negam desvios

Estatal afirma que age com ''máxima transparência'' e tem ''obrigação de colaborar com as investigações''

Fausto Macedo e Bruno Tavares


A Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero) informou que tem colaborado com as investigações da Polícia Federal, por "ser grande interessada na apuração dos fatos e na devida correção das possíveis irregularidades". "A Infraero pauta sua gestão pela máxima transparência e, como empresa pública, tem a obrigação de colaborar com as investigações, o que já vem fazendo e assim continuará".

A ex-superintendente jurídica da Infraero Josefina Pinha disse que não teve acesso ao relatório final do inquérito, "mas pode intuir que a pressa de concluí-lo, como lhe foi alegado, pode ter levado a equívocos lastimáveis". Ela afirma que "não elaborou nem rubricou qualquer dos contratos relativos às citadas obras".

Os advogados criminalistas Renato Vieira e André Kehdi ressaltaram que o indiciamento de Eleuza Lores foi suspenso pelo Superior Tribunal de Justiça, que acolheu habeas corpus em favor da ex-diretora de Engenharia da Infraero. "O STJ decidiu que enquanto o Tribunal de Contas da União não der uma palavra definitiva sobre os contratos da Infraero qualquer indiciamento é precipitação", anota Vieira.

A construtora Norberto Odebrecht diz que "cumpriu rigorosamente suas obrigações contratuais com a Infraero, não havendo qualquer envolvimento da empresa ou de seus funcionários em supostas irregularidades". E que "está segura de que o comportamento ético e lícito que pauta sua atuação será confirmado pela Justiça".

"Repudiamos isso com veemência, pois o que se vê ali são fantasias do delegado", declarou o advogado da Construcap, Aloísio Lacerda Medeiros. "Não sei como ele conseguiu atribuir a uma empresa séria condutas tão graves. Não vi no inquérito policial qualquer ligação com ato de corrupção." Em nota, a Camargo Corrêa negou "qualquer irregularidade na obra citada e aguarda ser notificada para comprovar a licitude de sua participação no processo".

O criminalista Antonio Claudio Mariz de Oliveira, que defende a empreiteira Galvão, condenou "mais um inquérito secreto instaurado no Brasil". Ele destacou que "empresários de bem se veem acusados sem saberem o porquê". "Esse inquérito teve curso à revelia de todos os interessados que são os diretores das construtoras envolvidas nas obras de vários aeroportos do País", assinala Mariz.

A Queiroz Galvão informou que "não se manifestará neste momento, pois não teve acesso à integridade do inquérito". A Mendes Júnior disse desconhecer o indiciamento de representantes da empresa. A Serveng afirma que não tem nenhuma informação sobre o inquérito.

O criminalista Antonio Pitombo, que defende a construtora Beter, aponta erros nos laudos da PF. "Fizemos longa análise dos laudos e verificamos que eles estão errados. Fizemos uma série de questionamentos para erros técnicos e impropriedades dos critérios usados pelos peritos. A investigação precisa ser mais bem feita", afirmou.

A Enpress afirma que a PF não encontrou "irregularidades nos serviços prestados pela empresa, que é a execução de grooving (ranhuras no asfalto)".

A Cima diz que "até o momento não tem conhecimento" do inquérito e que prestou serviço para a Infraero em "obras de pequeno porte" nos aeroportos de Uberlância e Uberaba. Por fim, salienta que venceu as concorrências com propostas menores do que o orçado pela Infraero.

Procuradas, as construtoras OAS, Carioca, Via Engenharia, Constran, Gautama, Estacon, Financial e Triunfo não responderam.

Investigação indica dois tipos de superfaturamento

Fausto Macedo e Bruno Tavares


A Operação Caixa Preta da PF detectou dois tipos de superfaturamento nas obras da Infraero: por falta de qualidade/quantidade e por sobrepreço e jogo de planilha. Superfaturamento é a emissão de uma fatura cujo preço está acima do valor de mercado. Sobrepreço é a diferença a maior obtida entre os preços contratados ou medidos e os preços utilizados como referência de mercado.

Segundo a PF, o superfaturamento por falta de quantidade e qualidade correspondeu a 16% do total superfaturado nas dez obras investigadas. O relatório assinala ainda que é possível concluir, "com grande margem de segurança, pela ocorrência de prática de sobrepreço".

Alteração em julgamento de licitações foi o embrião, diz PF

Fausto Macedo e Bruno Tavares


A mudança no critério de julgamento das licitações foi, segundo a Polícia Federal, o "embrião" do suposto esquema de desvio de recursos da Infraero. O relatório final assinala que a principal alteração na estrutura da estatal foi a nomeação de "diversos apadrinhados políticos para cargos de chefia", além do próprio deputado Carlos Wilson, então filiado ao PT, alçado ao posto de chefe da empresa no primeiro mandato do governo Lula.

Segundo a PF, "foi orquestrado um esquema de desvio de recursos públicos por meio de uma engenharia ilegal de editais por parte de altos funcionários da Infraero, em conluio com algumas das maiores empreiteiras do País". A PF sustenta que também se beneficiaram das "manobras" cinco empresas projetistas. Os projetos básicos servem para balizar a preparação de editais e, portanto, têm influência nos contratos.

"Verifica-se uma sofisticada estrutura criminosa que tem o fito de amealhar altíssimas somas de recursos públicos da sociedade brasileira", assevera o relatório. "Por certo, boa parte da alta soma desviada foi usada para a corrupção de agentes públicos da Infraero."

A PF descobriu que empreiteiras infiltravam funcionários em empresas contratadas pela Infraero para executar a fiscalização das obras. Os fiscais infiltrados aprovavam medições irregulares para justificar liberação de pagamentos acima do montante devido.

Mônica Bergamo - Folha de São Paulo - link (aqui)



bergamo@folhasp.com.br


Serginho & seus Meninos Jesus

O agente de modelos Sérgio Mattos, descobridor de Jesus Luz, transforma mecânico, marceneiro e sushiman em top.
Por Lígia Mesquita


Fotos Letícia Moreira/Folha Imagem

Em pé, da esq. para a dir., Raphael Sander, Vinicius Piccoli e Raphael Ghedin, com o agente Sérgio Mattos

"Ô, Serginho, o que é isso aqui?", pergunta Vinícius Piccoli, 19 anos, com forte sotaque caipira, enquanto a maquiadora usa o curvex (curvador de cílios) em seu rosto. Sérgio Mattos responde com uma gargalhada, clicando com sua câmera digital o modelo, que está de calça e sem camisa nos bastidores da SP Fashion Week.



"Esse menino aqui nem sabia o que era Calvin Klein! Hahaha! Ele era mecânico agrícola no interior de Santa Catarina", conta o booker e dono da agência 40 Graus, que tem um dos principais portfólios de modelos (especialmente masculinos) do Rio de Janeiro e é o descobridor de Jesus Luz, hoje uma celebridade graças ao namoro com a cantora Madonna.



Da vida no anonimato (há quem já tenha sido marceneiro, sushiman) à profissionalização nas passarelas, os garotos contam com a dedicação milimétrica de Serginho, sempre citado no diminutivo. "No Rio, diferentemente de São Paulo, as agências não costumam manter um apartamento para os modelos. Então eu dou uma forcinha", diz ele, que costuma hospedar os agenciados em seu apartamento, no Alto da Boa Vista, até que possam bancar o próprio aluguel.



Vinícius, o ex-mecânico, está hospedado lá há dois meses e dorme em um dos vários colchões espalhados pela sala do chefe. "Na semana de Fashion Rio, é uma loucura, a casa fica cheia. Hahaha." Todos têm de ajudar na faxina e fazem compras no supermercado.



Na correria de bastidores no desfile da grife Reserva, Serginho acompanha Raphael Sander, 22, e Raphael Ghedin, 18. Confere a maquiagem, o cabelo, a roupa dos garotos e tira muitas fotos. "É para o meu blog", justifica, levando debaixo do braço uma pasta transparente com fotos dos seus agenciados e dois celulares.



Baiano de Iguaí, Serginho faz a lista dos tops que revelou (alguns deles, como Gisele Bündchen, com "patente" também requisitada por outros agentes): "Ah, muita gente... Isabeli Fontana, Ana Beatriz Barros, Raica, Paulo Zulu...". Para encontrar seus novos meninos Jesus, ele conta com uma rede de "olheiros" pelo país. Foi um amigo que lhe passou a "dica" de um sushiman que Serginho "precisava" conhecer. "Cheguei lá e vi essa coisa maravilhosa, esse bebezão", lembra, apresentando Raphael Sander. "Foi essa beleza aqui que enlouqueceu a Luana Piovani, lembra?", diz, citando um "rolinho" breve do rapaz com a atriz. Raphael: "Ih, não posso te confirmar nada. Mas dá um Google aí pra você ver".



O "olhar clínico" para a profissão, protegido por óculos com lentes de pouco mais de um grau para miopia, ele conta que desenvolveu no começo da carreira com a ajuda de John Casablancas, o criador da agência Elite, e de Nelson Alvarenga, dono da Ellus. "No início, eu não prestava atenção em detalhes importantes, como o tamanho das pernas das meninas. Só via o rosto e pronto."



Ao circular pelo pavilhão da Bienal, cumprimenta quase todos os modelos que passam. "Aquele ali é do Piauí. Aquele outro fez campanha da Prada", aponta. A fotógrafa de um jornal de Criciúma (SC) o interrompe. Avisa que vai mandar a foto de um "menino lindo".



Os modelos homens, diz, constroem carreira sob sua tutela, enquanto as mulheres costumam trocá-lo pela concorrência. "Neguinho rouba!", reclama. Uma das exceções foi Jesus Luz, que chegou à sua agência em 2007, levado pela mãe. Quando Madonna veio ao Brasil no fim de 2008, Mattos indicou o modelo para o editorial no qual os dois se conheceriam. Do dia da foto em diante, nunca mais se falaram. "É um mistério. Ele nunca mais me ligou, nem para dizer Feliz Natal. Recebi a ligação de uma pessoa da nova agência dele e rasguei o contrato", afirma.



O motivo para os meninos serem mais fiéis, ele avalia, é a amizade. "Viro muito família de todos. Faço amizade", diz. "Também dou conselhos, mesmo que não peçam. Se a pessoa vai muito para festas, se eu sei que usou drogas, se a menina está ficando muito falada porque sai cada dia com um cara, eu dou bronca".



"Sergiiinho!!!", grita uma jovem, com máquina fotográfica na mão. "Essa aí é uma "piriguete". Toda SPFW ela vem atrás dos meninos", fala, enquanto ela pede para tirar fotos com os modelos e diz: "Ele tem as melhores mercadorias do pedaço".



Sobre o envolvimento dos seus modelos com celebridades, ele diz que nunca interferiu. "É a vida pessoal de cada um, não fico me metendo. Para alguns pode atrapalhar. Para a Raica, acho que o namoro com o Ronaldo foi bom. Ela estourou e fez um bom pé de meia", diz. "Por isso sempre digo: trate bem o "new face" de hoje. Ele pode namorar uma diva amanhã e virar uma estrela."

Danusa Leão - folha de são Paulo - link (aqui)




O preço a pagar

Escolher entre os prazeres da mesa e a vaidade é de uma crueldade que deve ter sido inventada pelo demônio



UM DOS PRAZERES da vida é comer, comer o que a gente gosta; e depois que a gastronomia ficou na moda, difícil é decidir entre comer de tudo ou viver fazendo dieta a vida inteira. Pode parecer que este é um tema superficial, só que não é; implica fazer uma opção, o que é sempre um tormento.
As tentações estão em todos os lugares: nas fotos das revistas, nas vitrines, numa conversa no telefone. Onde vamos almoçar domingo, recebi um chouriço e aprendi uma receita nova, venha para cá, você traz o vinho, e quem resiste a um convite desses? E dizer não a troco de quê?
A vida é combate, como sabemos; mas escolher entre os prazeres da mesa e a vaidade de ter um corpinho esbelto é de uma crueldade que deve ter sido inventada pelo demônio. É sempre assim: a cada prazer vem imediatamente a conta, aliás, o castigo, como aprendemos com as freiras. Se num único dia você come tudo que não devia, vai precisar de dez a pão e água -aliás, só água- para voltar ao peso antigo, o que é a prova da injustiça da vida. Se viajou por duas semanas, quando chegar vai encontrar a TV sem funcionar, e se estiver tudo na mais santa paz, desconfie. Tem mais: quanto mais maravilhosa tiver sido a viagem, mais dramáticos serão os problemas; talvez o melhor seja filosofar, imaginando que este é o tal do equilíbrio fundamental da vida -dizem.
Estamos cansados de saber que é preciso comer com moderação, beber com moderação, ser sensata ao passar por uma vitrine, não tomar sol demais, não beber demais, não ler demais, para não cansar a vista, não rir demais -muito riso, pouco siso-, não amar demais para não cair do cavalo, não acreditar demais no ser humano para não se decepcionar, mas também não ser totalmente descrente, pois sem acreditar, a vida não tem sentido. Por sensatez, compreenda-se: o mundo quer que se viva de maneira média -e quando se fala em mundo, fala-se dos pais, dos irmãos mais velhos, das leis, das pessoas com juízo; crianças médias não ameaçam a estabilidade da família, esposas com desejos médios não põem em risco o casamento, cidadãos médios são mais fáceis de ser governados. Mas é possível ser sensata e feliz? É possível ficar na praia olhando o relógio para ver se já são 10h, já que a partir daí não se pode mais tomar sol?
Não, não é; viver medindo tudo, para não ser nem de menos nem de mais, ser equilibrada o tempo todo, a vida inteira, não dá. Às vezes é preciso ser radical, em qualquer dos sentidos, e escolher: ou come tudo que tiver vontade ou passa fome; ou bebe tudo que tiver vontade ou toma água. Água, essa coisa tão sem graça, não só pode, como deve.
Uma coisa é certa: seja qual for sua decisão, você vai pagar por ela. Deve haver um lugar no universo onde se possa ter tudo o que se quer ao mesmo tempo, sem precisar contar as calorias, pesar, medir os prós e os contras, e sem pagar o preço.
Tem alguma graça ganhar uma caixa de chocolates e comer civilizadamente só um ou dois? E sentir de repente uma paixão daquelas incontroláveis e se conter, quando sua vontade é ir para o fim do mundo, se fim de mundo houvesse, e fazer tudo, absolutamente tudo que tem vontade, mandando às favas a tradição, a família, a propriedade e o que mais for preciso? Qual a relação entre uma caixa de chocolates e uma paixão? Teoricamente, nenhuma. Só que as duas, depois que acabam, costumam deixar uma mulher devastada. No corpo ou na alma.

danuza.leao@uol.com.br

Elio Gaspari - Folha de são Paulo - link (aqui)




Obama está com um pé no Terceiro Mundo

O companheiro paga o preço de ter nomeado três médicos para o mesmo paciente



PARECE NOTICIÁRIO do Terceiro Mundo. A economia melhorou, mas pode sofrer outro piripaque e aquilo que seria um "V" viraria um "W". O presidente do Banco Central teve que batalhar votos de senadores para ser confirmado no cargo. O ministro da Fazenda, que já foi apanhado sonegando impostos, comprou pelo valor de face transações da seguradora AIG com a casa Goldman Sachs que arriscavam valer nada. Se isso fosse pouco, o companheiro Obama tinha três nomes para o comando da economia (Timothy Geithner, Lawrence Summers e Paul Volcker). Escolheu os três, botando um na Secretaria do Tesouro, outro na Casa Branca e o terceiro na presidência de um conselho.
Um ano depois, como no Terceiro Mundo, Geithner entrou num processo de fritura. Burocrata caladão, carrega a cruz de ter sido presidente do Fed de Nova York durante a farra de George Bush. Por conta do cargo, esteve no triunvirato que fez o serviço de salsicharia durante o tenebroso final de 2008, quando o sistema financeiro mundial estava derretendo. A tensão era tanta que o então secretário do Tesouro, Henry Paulson, foi ouvido vomitando no banheiro (sua versão chega às livrarias americanas amanhã).
O resgate dos negócios da AIG com a Goldman parece-se com a operação do Banco Central brasileiro durante a crise de 1999 com os bancos Marka e Fonte-Cindam. Na hora, era inevitável. Um ano depois, parece injustificável.
Durante um ano, Geithner e Lawrence Summers prevaleceram sobre Paul Volcker, que defendia um avanço sobre a jugular da banca. Com 82 anos, quase dois metros de altura e a autoridade de quem já presidiu o Fed na condição de queridinho dos banqueiros, Volcker nunca escondeu que era voz pouco ouvida e voto vencido. Passaram os meses e, da trinca, ele é hoje o mais poderoso. Não tem cargo executivo e é difícil que venha a tê-lo, mas, quanto mais rápida for a substituição de Geithner por alguém livre do passado, melhor para Obama.
Em 1982, salvou a banca que inundara o Terceiro Mundo com empréstimos temerários impondo o entendimento de que a conta da festa pertencia aos países devedores. Com isso, quebrou as economias de dezena de países, inclusive a do Brasil. Quando lhe perguntaram se ele achava que fizera isso, respondeu: "Esse era o meu serviço" (desta vez, a banca quebrou os Estados Unidos).
Paul Volcker machuca. Depois de deixar o Fed, pediram-lhe uma faxina no Banco Mundial, e ele a fez. Numa auditoria de um programa da ONU, pescou o filho do secretário-geral em traficâncias com o petróleo de Saddam Hussein. Chamado a procurar nos bancos suíços depósitos de judeus mortos no Holocausto, achou mil contas adormecidas.

PICO NOSSO GUIA
Rousseff deve fechar sua clínica e alguns médicos do Planalto, seus diretórios partidários. Eles disseram que Lula "não tem pressão alta". Como se fosse preferível chegar aos 18 por 12 sem hipertensão do que tendo-a.
Se o episódio foi um "Pico Nosso Guia", o risco foi maior, pois alterações desse tipo provocam acidentes vasculares. Quem tem pressão normal e toma um 18 por 12 no sistema corre mais perigo que um cidadão corretamente medicado.
Se Lula é hipertenso, basta passar numa farmácia, comprar um remedinho, tomar alguns cuidados, e ir em frente.
Essa conduta fará bem a Lula e aos milhões de brasileiros que sofrem de hipertensão, dão crédito a feitiçarias ou lorotas do poder, e não se tratam direito.

PESADELO GABEIRA
Fernando Gabeira criou um pesadelo para Sérgio Cabral. O ex-governador Anthony Garotinho conseguiu 20% na última pesquisa do Vox Populi, e Gabeira teve 18%. Somados, encostam em Cabral, com 39%. Cabral tem força no Grande Rio, e Garotinho, no interior. Se Gabeira avançar na cidade, Cabral corre o risco de morrer no primeiro turno. Cabral, contudo, tem uma arma secreta: Lula.

AS ÁGUAS VÃO ROLAR
O PT colecionou um acervo de filmes de propaganda usados pela campanha presidencial de Geraldo Alckmin mostrando que suas obras de drenagem dos rios de São Paulo protegeriam a cidade das enchentes. Só no leito do rio Tietê gastou-se R$ 1,1 bilhão. As obras serviram para muita coisa, mas a máquina do governo estadual anunciou que o risco de enchente na região cairia de 50% para 1%. Quem com marquetagem feriu, com marquetagem será ferido.

"L'ETÁ C'EST MUÁ"
Nosso Guia corre o risco de atravessar o espelho, indo viver no mundo do seu ego.
Outro dia disse o seguinte: "O FMI chegava ao Brasil humilhando o governo, dando palpite. Se antes era o Brasil que devia ao FMI e ficava como cachorro magro com o rabo entre as pernas, agora quem me deve é o FMI". O FMI não deve dinheiro a Lula. Deve ao Brasil.

FOFOCA
O jornalista americano Paul Blumfeld, autor de um memorável livro sobre as trapalhadas da ekipekonômica do FMI durante os anos 90, publicou nos Estados Unidos "Desventuras das Nações Favorecidas -Choques de Egos, Ambições Infladas e Grandes Ruínas do Sistema Comercial Mundial".
Nele, conta os bastidores das últimas reuniões da OMC e revela que em 2001, durante a discussão do regime de patentes farmacêuticas, em Doha, o embaixador Celso Amorim pediu socorro ao então ministro da Saúde, José Serra, para prevenir um recuo do seu chefe, o chanceler Celso Lafer.
Havia sido negociado um atalho para quebra de patentes, mas a delegação americana roeu a corda e quis virar o jogo. Amorim bateu pé, mas viu-se desqualificado, já que o chefe da delegação era Lafer, não ele.
Blumfeld contou que o embaixador "tinha um ás na manga": "Ansiosa, a equipe de Amorim saiu em busca de Serra, que estava num tour, e voltou para o Sheraton. O ministro da Saúde garantiu o embaixador". (Nesse lance Serra decidiu que, se ganhasse a eleição, faria de Amorim seu chanceler.)

A COSTURA PARA COLOCAR MEIRELLES NA VICE

A manobra que pode levar Henrique Meirelles à Vice-Presidência na chapa de Dilma Rousseff é pesada, mas pode prevalecer.
O presidente do Banco Central tem a simpatia de Lula e é defendido pelo ex-ministro Antonio Palocci. Meirelles serviria de contrapeso às inquietações que Dilma e o comissariado petista disseminaram no empresariado e no andar de cima. Nas últimas semanas, o mercado financeiro tomou-se de súbita paixão por José Serra.
Lula, Palocci e Dilma não têm votos na convenção que escolherá a chapa, mas podem recorrer a um poderoso eleitor. Costurando por dentro, o governador Sérgio Cabral viabilizaria Meirelles. Ele tem quatro vezes mais convencionais que a bancada paulista do partido.
Henrique Meirelles é e não é um quadro do PMDB, característica que o credencia para o exercício do cargo. Se Cabral emergir como seu grande eleitor, estará habilitado para se tornar uma ponte dourada entre os pleitos do partido e o Planalto num terceiro mandato petista.

Janio de Freitas - Folha de São Paulo - link (aqui)




Os mísseis em viagem

Tecnologia de mísseis e enriquecimento de urânio trouxeram Ahmadinejad ao Brasil e devem levar Lula ao Irã



AINDA que não se discuta se o Brasil deve se tornar um arsenal, como fruto das ideias estratégicas do governo Lula, ao menos as iniciativas para tentá-lo mereceriam alguma consideração. Acima dos interesses políticos e da preguiça mental que se associam contra contra todo tema sério.
Os sombrios negócios concluídos, uns, e pretendidos outros com a França, já se mostraram discutíveis nos pretensos fundamentos militares e, de outra parte, conduzidos muito mais à maneira de regimes autoritários que de democracias.
Nesse túnel de obscuridades o governo põe mais uma presença, sempre com os indícios de uma ótica estreita e alcance curto.
Lula programou para março uma viagem ao Irã. Não uma viagem de cortesias mútuas, mas também de discussão em torno de altas transações. As relações fraternais que o governo brasileiro desenvolve com o governo de Ahmadinejad -exemplo de arbitrariedade inadmissível, cuja oposição é respondida por bala ou pela forca- só se destina a contestar os Estados Unidos como efeito indireto. Os motivos imediatos estão nas tais concepções estratégicas do governo Lula.
Desde que os Estados Unidos fizeram do Irã uma potência militar, ao tempo do Xá e da Guerra Fria, os iranianos dedicam grande parte de sua fortuna petrolífera a se desenvolverem militarmente. Antes, em aquisições e em quantidade; nos tempos mais recentes, em tecnologia. Um dos frutos dessa persistência, acelerada pela política de Israel, foi exibido no final de 2009 como resultado de um projeto aprimorado no decorrer do ano: o Irã está na arena, cujos confrontos nada têm do tão falado clube, dos detentores de mísseis de grande alcance. O Sajjil-2 já chega a alvos a 2.000 km. E, se pode alcançar desde partes da Europa até o ocidente da China, tudo indica que o progresso tecnológico do Irã não tardará a levá-lo ainda mais longe.
Mísseis foram os grandes figurantes militares da Guerra Fria em seu lado de confrontação entre Estados Unidos e União Soviética; no presente são uma preciosidade também de avanços científicos e tecnoeconômicos; e são parte essencial do futuro. Vaga embora, uma noção do que está no interior disso tudo o Brasil tem, mesmo que sua tal estratégia não chegue a mais do que intenções militares. E o Brasil está mal, muito mal, em relação a mísseis.
Além do acidente que incinerou o foguetinho brasileiro e várias das personagens mais importantes do setor, nas vésperas do lançamento em Alcântara, nenhum dos compromissos de empenho então assumidos por Lula se cumpriu. Na era dos mísseis, o Brasil está enrolado em discussão para concluir se a área de uma base está afeta à Aeronáutica ou pertence a quilombolas (claro que é deles).
A Folha de sexta-feira trouxe uma notícia exclusiva de Clóvis Rossi sobre uma conversa entre os ministros do Exterior de Brasil e Irã, em Davos. Nela, disse Celso Amorim, seu colega apresentou o que denominou "novas ideias" para o enriquecimento de urânio iraniano no exterior, no grau necessário aos fins pacíficos que o governo do Irã atribui ao seu projeto nuclear. O Brasil poderia fazer esse enriquecimento, que o governo Ahmadinejad considerou inconfiável se feito na França ou na Rússia, como lhe foi proposto. Por isso mesmo as ideias podem ser novas quanto a modalidades, mas não quanto negociados enlaçamentos de Brasil e Irã.
Tecnologia de mísseis e enriquecimento de urânio trouxeram Ahmadinejad ao Brasil e devem levar Lula ao Irã. A permuta de viagens quer antecipar outras permutas. A custo internacional, para o Brasil, e institucional para a sonhada democracia brasileira, que não se pode prever em sua possível dimensão. Só em sua certa ocorrência.

Empreiteira ganha 1.957% a mais que no 1º ano de Lula - Folha de São Paulo - link (aqui)





Maior recebedora de recursos federais em 2009, Delta alçou voo na atual gestão


Em sete anos, União pagou R$ 2 bilhões à companhia, que também tem negócios diversos (e questionados) em vários municípios

DIMMI AMORA
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Uma empreiteira que até o fim da década de 90 era desconhecida virou, no ano passado, a maior recebedora de recursos do governo federal. Trata-se da Delta Construções, que recebeu em 2009 R$ 720,1 milhões, quase o dobro de 2008 e 1.957% a mais do que no primeiro ano do governo Lula, 2003.
Seu faturamento passou de R$ 251,7 milhões, em 2002 (último ano do governo FHC), para R$ 1,3 bilhão em 2008.
Nos últimos três anos, a Delta já era a empresa privada que mais havia recebido recursos do governo. Ficava atrás apenas das financiadores de pesquisa e colheita de café, que foram ultrapassadas neste ano. Em sete anos, já são R$ 2 bilhões pagos a esta empresa só pela União. Os dados são do Siafi (Sistema de Administração Financeira) e foram obtidos pela ONG Contas Abertas.
Fora do governo federal, a companhia tem negócios diversos em vários municípios -de recolhimento de lixo à implantação de lombadas eletrônicas.
O crescimento da pernambucana Delta, que migrou para o Rio no governo de Anthony Garotinho em 1999, seguiu o estreitamento de sua relação com políticos de vários partidos.
Mesmo assim, ela ainda está longe das gigantes do setor: não chega a 5% do faturamento do Grupo Odebrecht, por exemplo, cuja construtora faturou quatro vezes mais que a Delta.
O aumento do volume de pagamentos no governo federal aconteceu após 2004, quando ela foi a sétima maior empresa doadora da campanha de Marta Suplicy (PT) à Prefeitura de São Paulo (R$ 415 mil ao comitê partidário) -a empresa já era fornecedora do governo. Também doou mais R$ 1,2 milhão a candidatos do PMDB e PL (hoje PR) e R$ 120 mil a um candidato do PSDB.
Dois anos depois, o maior salto. Ela foi a principal beneficiada por contratos emergenciais (sem licitação) na Operação Tapa-Buraco realizada pelo Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) para melhorar o asfaltamento das rodovias federais.
A direção do órgão é indicada por PT e PR. É de lá que vieram mais de 80% dos recursos recebidos em 2009 do governo federal, quase todos para serviço de manutenção de estradas.
O contato com políticos fluminenses ajudou. Em 2002, a Delta doou recursos (R$ 20 mil) só para dois candidatos: o deputado federal Eduardo Cunha (então no PPB e depois PMDB) e Fábio Silva, que concorreu a deputado estadual.
Após a eleição, Cunha, hoje um dos deputados mais influentes do PMDB, indicou a direção da companhia de água e esgoto do Estado, a Cedae. De nenhum recurso recebido em 2002, a Delta pulou para R$ 133 milhões em 2005.
As relações com o grupo de Garotinho continuaram. Em 2004, Geraldo Pudim, candidato do ex-governador à Prefeitura de Campos, recebeu R$ 300 mil de recursos da empresa.
A partir de 2006, a empresa parou de fazer doações legais, mas intensificou o contato com novos administradores.
Isso ocorreu em Goiânia, desde a posse de Iris Rezende (PMDB) na prefeitura, em 2005. De acordo com o vereador Elias Vaz (PSOL), os contratos iniciais, na maioria, eram para asfaltamento (e sem licitação). Depois houve contratos de recolhimento de lixo, administração de aterro sanitário, obras de viaduto e implantação de lombadas eletrônicas.
"Eles nunca fizeram lombadas eletrônicas. Entramos com uma representação e o governo cancelou esta", afirmou Vaz.
O lixo tem sido alvo das ações da empresa fora do governo federal, que a partir da administração de Gilberto Kassab (DEM) em São Paulo ganhou uma parte do contrato de varrição da cidade. No DF, ganhou contrato relacionado a lixo na administração de José Roberto Arruda (sem partido, então no DEM), pelo qual faturou R$ 20,1 milhões em 2009.
Em 2007, na administração petista iniciada dois anos antes em Palmas, capital do Tocantins, a Delta venceu concorrência para o recolhimento do lixo da cidade de 200 mil habitantes num contrato de 24 meses em que receberia R$ 11,5 milhões.
De acordo com o vereador Waldemar Júnior (DEM), no meio do contrato o prazo caiu para 570 dias, e o valor pulou para R$ 14,7 milhões. O contrato venceu e a companhia foi contratada emergencialmente.
"Colocaram coisas como recolher lixo em ilhas. Palmas só tem uma, e o dono traz o lixo ao continente", disse o vereador.
No Rio, durante a gestão de Cesar Maia (DEM), a empresa fez uma proposta muito abaixo de suas concorrentes e venceu a licitação para construir o Estádio João Havelange. Não chegou a terminar a obra: dez meses antes do prazo de conclusão (junho de 2007), a empresa exigiu mais recursos, e OAS e Odebrecht assumiram.

OUTRO LADO

Empresa diz participar de mais licitações

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

A empresa Delta Construções informou que o crescimento de sua atuação se deve ao aumento de investimentos do governo federal na área de transportes públicos, que teriam crescido quatro vezes.
"É natural que a Delta, que tem 50 anos de tradição em construção e manutenção de rodovias, participe de um volume maior de concorrências. As licitações ganhas são devido ao menor preço e à excelente competência técnica."
Sobre a Operação Tapa-Buraco, afirmou que não ter condenação do TCU. Já em relação às obras do estádio olímpico no Rio, disse que foi a prefeitura que escolheu continuar a obra com outra empresa e que a Delta concluiu a sua a parte.
Em relação às doações, a Delta informou que, "por uma decisão da direção da empresa, desde 2004 não tem feito doações a campanhas eleitorais. E ressalta que todas as doações feitas foram devidamente declaradas nos órgãos competentes, (...) são transparentes (...), sem qualquer intenção de benefício particular a este ou aquele partido político".
O deputado federal Eduardo Cunha (PMDB) afirmou que não tinha gestão nos contratos das empresas públicas para beneficiar nenhuma empresa. Segundo ele, a doação da Delta em 2002 não foi relevante e em 2006 acabou não acontecendo.
"Não tenho nenhuma gerência sobre a atual gestão do governo do Rio [Sérgio Cabral], e a empresa está recebendo ainda mais recursos do que antes", afirmou. O deputado Geraldo Pudim (PR) não atendeu à ligação da reportagem.
A Prefeitura de Goiânia informou que a Delta ganhou algumas licitações e foi derrotada em outras. Disse que houve apenas um contrato emergencial, para aluguel de máquinas, que está em fase final.
A Prefeitura de Palmas informou que houve um aumento de 3.500 toneladas para 6.000 toneladas de lixo recolhido, o que justifica o aumento dos valores. Disse que licitação para um novo contrato não pode acontecer por contestações judiciais.
O Dnit disse que não poderia responder até o fechamento desta edição, já que seus técnicos estavam fazendo levantamentos para a divulgação do relatório do PAC.

Carlos Heitor Cony - Folha de São Paulo - link (aqui)




Romeu e Julieta


RIO DE JANEIRO - A historinha aconteceu com amiga minha. É verdadeira, tão verdadeira que terei de disfarçar para contar o milagre sem mencionar o santo. Digamos que ela se chama Ligia, é atriz de sucesso, casou-se aos 26 anos, separou-se e engatou caso com um colega de profissão, ator bastante conhecido, dez anos mais velho. Até aí, uma história banal, sem nada de extraordinário.
Ela ia a uma festa e foi procurar um anel que havia ganhado do ex-marido. Não o encontrou. Pensou que tinha sido roubada. Uma vez por semana vinha a faxineira, que era de confiança, mas nunca se sabe.
Comentou com o companheiro. Era a primeira vez que dava por falta de alguma coisa em sua casa. O homem ficou sem jeito, perguntou se ela não tinha usado o anel e o perdera por aí. Ela garantiu que não. Estava tão chateada que o homem resolveu contar a verdade. Confessou que roubara o anel na primeira noite em que dormiram juntos. Não sabia que era uma joia tão importante assim, um simples anel, de valor duvidoso.
"Mas por que fez isso?", perguntou a mulher espantada.
Ele contou uma história comprida. Os anos de palco lhe davam treino para ser convincente. O anel era presente de outro homem, símbolo de uma união que acabara. Nem era ciúme o que sentia. Mas um sinal de que ela tivera um passado. Ficaria ele com o anel e lhe daria outro, com uma pérola e um diamante, jóia antiga, de outros tempos, era conhecido como Romeu e Julieta.
"E onde está o meu anel? Quero-o de volta!". "Trago amanhã", prometeu o amante.
No dia seguinte, ela recebeu o anel antigo todo arrebentado, e o novo, com pérola e diamante, e um bilhete: "O anel que te roubei era vidro e se quebrou, o amor que eu tinha, era muito, por isso acabou".

Eliane Cantanhêde - Folha de São Paulo - link (aqui)




Montando o circo


BRASÍLIA - O Congresso reabre na terça com uma pauta fraca, baseada na regulamentação do pré-sal, e as energias políticas estarão voltadas para três questões: o destino de Ciro Gomes na campanha, o imbróglio do vice de Dilma e a ansiedade da oposição pelo sim de Aécio Neves para a chapa de Serra.
Se depender de Ciro, ele vai ser candidato a tudo. Se depender do PT, não vai ser candidato a nada. Ciro estava assanhado para disputar a Presidência enquanto à frente de Dilma nas pesquisas, mas isso é coisa do passado desde o Datafolha de dezembro. Serra se mantém na liderança, Dilma se isolou no segundo lugar, e simplesmente não há espaço para Ciro.
Se insistir, ele vai sem as bênçãos de Lula, sem alianças partidárias, sem financiadores e sem tempo na TV. Ou seja, para o buraco. Se desistir, vai para onde? Lula estimulou Ciro a mudar o domicílio eleitoral para São Paulo, mas o PT não quer nem ouvir falar na candidatura dele ao Bandeirantes. Seria perder a eleição por WO e jogar fora a chance de apresentar um nome em 2010 para ter um candidato petista de fato em 2012 e 2014.
Ciro está no limbo, e Michel Temer não está melhor. Esfomeado para ser vice de Dilma, já teve de digerir o Sapo Barbudo cobrando uma lista tríplice do PMDB, e agora engole um sapo atrás do outro: o PT lança nos jornais o nome de Sérgio Cabral num dia; o de Henrique Meirelles no outro; o de Hélio Costa no seguinte. Para bom entendedor, basta. Para políticos experientes como Temer, é demais.
E o PSDB está naquela: é Aécio ou Aécio para vice de Serra. Se ele bater pé que não, vai ser até engraçado -mas engraçado para nós, da plateia. Para quem está no picadeiro da oposição, um drama.
Essas três questões estarão na superfície do debate político, ao lado da tensa montagem dos palanques estaduais. Nas profundezas, a questão é outra: a explosiva atração de financiadores de campanha.

elianec@uol.com.br

Clóvis Rossi - Folha de São Paulo - link (aqui)




Porto Alegre em Davos


DAVOS - Eis que o "filho do Brasil", um certo Luiz Inácio Lula da Silva, transformou-se em pai do mundo. Seu discurso em Davos, ao receber o título de "Estadista Global" conferido pelo Fórum Econômico Mundial, é um Sermão da Montanha ao mundo (Davos está encravada nos Alpes, a 1.542 metros de altitude).
Se fosse necessário resumi-lo a duas frases, seriam estas: eu fiz tudo certo e o mundo continuou fazendo tudo errado.
Daí vem, inexoravelmente, a proposta de reinventar o mundo. Ótimo. Gostaria até de ser o primeiro a assinar um eventual manifesto a favor. Mas chego tarde: o povo de Porto Alegre, como se chamava o conglomerado que se reunia inicialmente na capital gaúcha, já está na fila faz tempo ao pregar, sempre, que "outro mundo é possível".
Pena que nem Lula nem o povo de Porto Alegre puseram de pé, até agora, como exatamente se chega a esse outro mundo. Lula produziu uma frase que é a quintessência do vácuo: "Precisamos de um novo papel para os governos. E digo que, paradoxalmente, este novo papel é o mais antigo deles: é a recuperação do papel de governar".
Faz muito tempo, antes mesmo de ser criado o Fórum Social Mundial, que observo os movimentos críticos à forma como o mundo caminha e digo que é preciso ir além das intermináveis discussões entre os convertidos e apresentar uma plataforma concreta com a qual disputar o voto do eleitorado. É a única maneira (democrática) até agora inventada de se obter um mandato para construir outro mundo.
Aí, leio que o povo do Fórum Social ovacionou Lula quando o presidente a ele compareceu.
Bom, se o projeto que esse povo quer ver implementado é esse que Davos acaba de premiar, então Porto Alegre perdeu o sentido. É melhor vir todo mundo para os Alpes. A vista é magnífica e é dela que saio hoje de férias.

crossi@uol.com.br

Elio Gaspari: A costura para colocar Meirelles na vice - Josias de Souza - Blog do Josias - link (aqui)




31/01/2010

Fábio Pozzebom/ABr

O repórter Elio Gaspari recheia sua coluna deste domingo, encontrável na Folha, com uma nota de deixar de cabeços hirtos os pemedebês afinados com Michel Temer.

Traz à luz detalhes de operação subterrânea urdida com o propósito de acomodar o cirstão-novo Henrique Meirelles na chapa de Dilma. Segue o relato:

“A manobra que pode levar Henrique Meirelles à Vice-Presidência na chapa de Dilma Rousseff é pesada, mas pode prevalecer.


O presidente do Banco Central tem a simpatia de Lula e é defendido pelo ex-ministro Antonio Palocci.

Meirelles serviria de contrapeso às inquietações que Dilma e o comissariado petista disseminaram no empresariado e no andar de cima.

Nas últimas semanas, o mercado financeiro tomou-se de súbita paixão por José Serra.

Lula, Palocci e Dilma não têm votos na convenção que escolherá a chapa, mas podem recorrer a um poderoso eleitor.

Costurando por dentro, o governador Sérgio Cabral viabilizaria Meirelles. Ele tem quatro vezes mais convencionais que a bancada paulista do partido.


Henrique Meirelles é e não é um quadro do PMDB, característica que o credencia para o exercício do cargo.

Se Cabral emergir como seu grande eleitor, estará habilitado para se tornar uma ponte dourada entre os pleitos do partido e o Planalto num terceiro mandato petista.


Escrito por Josias de Souza às 06h16