Jingles desafinados para a campanha presidencial
Críticos reprovam músicas escolhidas por Dilma, Serra e Marina. Dizem que vão cansar eleitor
POR MARCOS GALVÃO
Rio - Os três principais candidatos à Presidência da República já escolheram seus jingles da campanha eleitoral. As canções poderão até empolgar políticos e cabos eleitorais mais entusiasmados, no entanto, no que depender de alguns críticos musicais, o resultado não será dos melhores. Todos são unânimes ao afirmar que faltou originalidade tanto nas letras quanto nas melodias.
Ouça o jingle de Marina Silva:
A partir de 6 de julho, quando começa a propaganda eleitoral no rádio e na TV, os jingles ‘invadirão’ as casas dos eleitores. Na opinião do publicitário Lula Rodrigues, dono do maior acervo de jingles do País, as canções de José Serra (PSDB), Dilma Rousseff (PT) e Marina Silva (PV) estão longe de emocionar os eleitores.
Ouça o jingle de Serra:
"Se trocarmos o nome do Serra pelo nome da Dilma, fica parecendo o mesmo jingle. E vice-versa. Está faltando originalidade. O da Marina tem até uma letra boa, mas ficou faltando um algo mais”, opina ele. O também publicitário, Lula Vieira, avalia que os jingles expressam o atual momento político. “Acho que os candidatos estão sem ter o que dizer e os jingles acabam reproduzindo isso. Não há criatividade”, reclama.
Ouça o jingle de Dilma:
No jingle escolhido pelos tucanos para a campanha de Serra, o nome do ex-ministro da Saúde aparece 14 vezes, o suficiente para deixar irritado o músico Moacyr Luz. “Cá para nós. Em certa hora você se sente serrado pela música. O efeito é de uma motosserra”, ironizou. A letra não economiza adjetivos ao tucano, afirmando que ele é “boa gente”, “correto” e “o mais competente”.
RITMO NORDESTINO
Já o de Dilma também mereceu críticas de Moacyr Luz. “O jingle é um equívoco. Dilma não é forró, é um quarteto de cordas. A letra é interessante até dizer que ela ajuda o Lula. Mas é totalmente ao contrário”, crítica ele. O ritmo nordestino é destaque no jingle da petista, cuja letra cita Lula quatro vezes.
O jingle de Marina ressalta na composição predicados como ‘verdadeira’, ‘sábia’ e ‘serena’, e aposta no refrão ‘eu sou brasileiro, eu sou marineiro’, algo a ser destacado pelo compositor Sérgio Fonseca. “É o melhor dos três”, diz ele, fazendo coro a Lula Vieira. Fonseca destaca que a composição de jingles obedecem a um padrão em que as estrofes têm cinco ou sete sílabas, que ficam mais fáceis de serem cantadas e assimiladas pelo público-eleitor. “Ao menos, o jingle da Marina é criativo”.
Mais rigoroso, Moacyr Luz crítica também a composição para Marina “Na minha opinião, beira o inacreditável. Ficou mais parecendo música de festival do interior do Brasil, uma melodia difícil. Gente, jingle é propaganda. E olha que eu adoro a Marina. Bem que o Gilberto Gil (ex-ministro e filiado ao Partido Verde) poderia ter ajudado ela”, explica.
JINGLES HISTÓRICOS
Criador de jingles também, o publicitário Chico Abreia diz que a música tem que personificar o político. Ele conta que vetou canções que nada tinham a ver com o político. “A música deve representar um pouco do que é o candidato e um pouco do que ele pretende fazer”.
Abreia afirma que o jingle não decide uma eleição, mas influencia o eleitor de forma emocional. E cita jingles que ficaram na história, como o ‘Lula lá - Brilha uma estrela’, da eleição de Lula em 2002, o ‘la, la, la Brizola’, da eleição presidencial de Leonel Brizola, em 1989.
O publicitário Lula Vieira lembra outras canções mais antigas, que também fizeram sucesso na política e ainda são lembradas. Uma delas, o ‘Retrato do Velho’ , virou slogan da volta de Getúlio Vargas em 1950. Ele cita também as músicas de Jânio Quadros (‘Varre, varre, vassourinha’) e de João Goulart (“vamos jangar”), em 1960. “Jingle deve ser fiel ao estilo do candidato, com criatividade”, explica o publicitário.

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