07/06/2011
Lula Marques/Folha

Depois de trocar Antonio Palocci por Gleisi Hoffmann, Dilma Rousseff vê-se às voltas com uma nova demanda: a remodelagem da coordenação política do governo.
Nos subterrâneos, PMDB e PT medem forças. O partido do vice-presidente Michel Temer reivindica maior influência nas decisões de governo.
A legenda de Dilma tenta evitar que o segundo sócio do condomínio governista apite além do razoável.
Nesta terça (7), enquanto organizava a dança de cadeiras na Casa Civil, Dilma abriu uma janela na agenda para compromisso firmado na semana passada.
Recebeu para o almoço a bancada de senadores do governista PTB. O repasto teve algo de peculiar e demarcou a nova realidade em que Dilma se vê envolvida.
A peculiaridade foi a presença de Fernando Collor, duas décadas depois do impeachment, num palácio que ele rejeitava.
Presidente, Collor preferia morar na Casa da Dinda, uma propriedade familiar adornada com jardins e cascatas custeados com verbas sujas de PC Farias.
Senador, viu-se compelido a atender ao convite de Dilma. Na saída de um Alvorada que desancava, Collor monopolizou a atenção das máquinas fotográficas.
Chamado pelos repórteres, mostrou-se hostil. Cobriu deliberadamente o rosto (repare nas imagens lá do alto).
E quanto à nova realidade? Bem, o almoço mostrou que Dilma falava sério quando informou que passaria a dar mais atenção aos políticos.
Já havia trançado talheres com os senadores do PT e do PMDB. Dedica-se agora aos partidos da periferia do consórcio que dá suporte congressual ao governo.
A própria Dilma sinaliza, porém, que sua súbita disposição para os rapapés políticos é coisa emergencial, ditada pela crise.
Nos diálogos que manteve ao longo do dia, Dilma esboçou a intenção de aproveitar a saída de Palocci para azeitar a coordenação política da Presidência.
Em entrevista, Gleisi Hoffmann, a substituta de Palocci, contou ter recebido de Dilma a “encomenda” de direcionar a Casa Civil para tarefas administrativas.
A líderes do PT e do PMDB, a presidente informou que, nos próximos dias, cuidará de reaparelhar a Secretaria de Assuntos Institucionais.
Os interlocutores de Dilma entenderam as palavras dela de maneira diversa. Uma parte depreendeu que vai ao olho da rua o ministro Luiz Sérgio.
Outros intuíram que Dilma apenas dará mais poderes ao ministro, cuja atuação como coordenador político foi asfixiada por Palocci.
Informado no meio da tarde sobre a saída de Palocci e a entrada de Gleisi, o vice Michel Temer dirigiu uma convocação à tropa.
A nata do PMDB reuniu-se na noite desta terça no Palácio do Jaburu, residência oficial de Temer. Afinaram o timbre do apito.
O PMDB deseja apitar mais alto. Não pede a saída de Luiz Sérgio. Reivindica clareza no modelo e maior influência deseja na definição dos métodos.
Já na semana passada, quando ainda havia dúvidas sobre a permanência de Palocci, o deputado Henrique Eduardo Alves, líder do PMDB, constatava:
“O cargo do Luiz Sérgio dá a ele a coordenação política, mas o Palocci absorveu tudo, tomou conta também dessa área”.
Sempre que tinha assuntos relevantes a tratar, disse Henrique ao repórter, o PMDB batia à porta de Palocci.
“O Luiz Sérgio apenas o acompanhava nas reuniões, às vezes nem isso. O Palocci acumulou a política, o acompanhamento do governo e a assessoria à presidente...”
“...Você ligava para o Palocci ao meio-dia, às cinco da tarde, qualquer hora e ele estava com a presidente. Isso náo podia dar certo”.
Henrique dava a Palocci o apoio que o petismo sonegava. Mas, ao mesmo tempo, celebrava a perspectiva de mudança de atribuições.
“Há males que vêm para o bem”, dizia, referindo-se à descoordenação exposta pela crise. “Quem sabe agora as funções sejam mais bem definidas”.
O encontro na casa de Temer revelou a pretensão do PMDB de que o vice passe a ser mais ouvido por Dilma.
De resto, o partido preocupa-se com acertos que fizera com Palocci. Seja quem for o novo coordenador –Luiz Sérgio ou outro— quer ver respeitados os acertos.
Envolve cargos pendentes de nomeação e emendas orçamentárias por liberar. No total, as emendas somam R$ 750 milhões.
São demandas de todos os partidos, não apenas do PMDB. Dilma já havia autorizado a liberação de R$ 500 milhões. E Palocci acenara com R$ 250 milhões para julho.
Quanto ao PT, um pedaço da legenda prega a saída de Luiz Sérgio. Outro naco deseja mantê-lo. As duas alas reivindicam a manutenção do posto em mãos petistas.
Escrito por Josias de Souza às 23h54