Eduardo Suplicy (PT-SP) chegou ao plenário do Senado, nesta quinta (16), munido de um exemplar da Folha. Achegou-se ao líder tucano Alvaro Dias (PR). Aos risos, exibiu a charge do dia (acima), do cartunista Jean Galvão. Depois, escalou os degraus que levam à tribuna.
Riso maroto nos lábios, abriu o discurso recomendando a charge aos presentes. Forneceu-lhes uma reprodução oral da peça: “Vale a pena observar… O caminho que você escolher está escolhido, Serra! Sim-não? Ele vai andando. E bate no poste. Eu fico pensando no dilema.”
Nas entrelinhas do comentário de Suplicy, um quê de duplo sentido. Poste é como os antagonistas do PT se referem a Fernando Haddad, o candidato fabricado por Lula para disputar a prefeitura de São Paulo.
Ficou boiando na atmosfera uma insinuação: derrotado em 2010 por Dilma Rousseff, primeiro poste de Lula, o grão-tucano José Serra hesita em subir ao ringue de 2012 por medo de ser abalroado pelo novo poste.
A provocação de Suplicy eriçou as plumas dos tucanos que o ouviam. Um deles, Aloysio Nunes (SP) foi ao microfone. Velho aliado de Serra, ele pediu um aparte. Suplicy aquiesceu. Mas embromou um pouco antes de passar-lhe a palavra.
Reproduziu um comentário de sua ex-mulher, a senadora Marta Suplicy (PT-SP). Antes mesmo de ser excluída do tabuleiro por Lula, a ex-candidata Marta vaticinara, segundo Suplicy: “Eu tenho a certeza de que o José Serra, que eu conheço muito, vai ser o candidato” do PSDB.
Autorizado a falar, o tucano Aloysio foi à jugular: “Não resisto a entrar no clima. Vossa Excelência começou com uma ponta de bom humor, mas eu diria que quem bateu no poste foi o senhor. Bateu num poste chamado Lula, que barrou o seu desejo legítimo de ser candidato a prefeito.”
Enfiada a faca, Aloysio virou a lâmina: Lula “optou pela escolha do candidato Haddad. E Vossa Excelência concordou. No PT, a regra é outra. A regra é a vontade do Lula.” Contrapôs a hesitação de Serra à pressa de Haddad. Ironizou a “hipocrisia” que leva um candidato a ser apelidado de “pré-candidato”.
Disse que, embora a lei desautorize atos de campanha antes das convenções partidárias, Haddad comparece “até a aniversário de boneca. Com faixa de candidato, corneta de candidato, reco-reco de candidato, banda de música de candidato sem poder ser candidato.”
Menos risonho, Suplicy fez um arrastado relato sobre a disputa interna que culminou no dedaço de Lula. Deu a entender que retirou-se do processo menos por conta da interferência do ex-soberano e mais porque Haddad, o ungido, teria se comprometido a abraçar a causa de sua vida: a renda básica de cidadania.
De resto, Suplicy fez uma incisiva defesa das prévias como método de escolha de candidatos. Disse preferir o modelo do Partido Socialista da França, que prevê a participação não apenas dos filiados, mas de todo o eleitorado.
Líder do PSDB no Senado, Alvaro Dias (PR) pediu licença: “Deixe um paranaense colocar a colher entre os paulistas.” E Suplicy, em timbre adocicado: “Foi com muita amizade e companheirismo que fiz aqui a brincadeira” com a charge.
Alvaro aproveitou o gancho: “Louvo o bom humor de Vossa Excelência. Quero dizer que a charge espirituosa não considera o fato de Serra ser um homem decidido e já ter decidido”. Hã?!?
“Ocorre que há o momento para anunciar determinadas decisões, principalmente quando elas são importantes. Eu, pessoalmente, não sei se Serra será candidato a prefeito ou não será candidato a prefeito, mas ele já sabe, ele já tem essa decisão. Obviamente, ele irá anunciar no momento adequado.”
Suplicy alfinetou: “Será que ele já tem a decisão? Eu pensei que ele estivesse pensando ainda.” Levando o pé ao freio, Alvaro buscou refúgio no condicional: “Se ele decidir ser candidato a prefeito, […] São Paulo ganhará muito com a candidatura dele. Mas essa decisão, que provavelmente ele já tomou interiormente, será anunciada em momento oportuno.”
Feita a defesa protocolar do ‘quase-quem-sabe-veja-bem-talvez’ candidato do PSDB, Alvaro ironizou o apreço de Suplicy pelas prévias: “Estou com Vossa Excelência. Louvo seu esforço para ampliar a participação popular nas primárias, porque as prévias do PT, hoje, têm um único voto: o voto do Lula.”
Alvaro absteve-se de dizer, a eventual subida de Serra ao ringue de São Paulo também passa pelo cancelamento das prévias agendadas pelo tucanato para 4 de março. Quer dizer: no fundo, no fundo PT e PSDB padecem da mesma falta de miolos. Com uma diferença: o tucanato exercita a insensatez com várias cabeças. O petismo faz a mesma coisa com uma cabeça só.








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