terça-feira, 10 de janeiro de 2012
A farsa-tarefa de Dilma, por Celso Arnaldo - Coluna do Augusto Nunes - link (aqui)
09/01/2012
às 21:45Celso Arnaldo Araújo
São seis os cavaleiros do pós-apocalipse que aparecem na foto que deveria figurar em qualquer dicionário universal junto à palavra Cinismo. Cinco envergam ternos circunspectos, um ostenta farda verde oliva; quatro estão de cabeça baixa, fingindo assumir a vergonha que não têm; um tem o olhar perdido no infinito a dois metros de distância, mas no fundo exulta: meia hora antes, salvara o empregão; o último, o de bigode em forma de símbolo do Batman, aparentemente balbucia alguma promessa morta no berço por sua incompetência científica e tecnológica. Sem ter como inovar ─ terceira missão de sua pasta – repete o anúncio feito por algum outro mentiroso exato um ano atrás, diante da devastação da região serrana pelas chuvas do verão de 2011: “Vamos fazer um mapeamento in loco para identificar as áreas mais vulneráveis e ajudar a Defesa Civil na remoção das famílias”.
A sétima figura da encenação galhofeira, única mulher presente a essa imagem da farsa como método de governo, é também o único membro do sinistro septeto a desfilar um olhar desafiador, de quem está à cavaleiro da situação – na qualidade de ministra da Casa Civil e gestora de mais um embuste inventado por Dilma, já saboreia a possibilidade de fazer cobranças imaginárias bem longe dos cenários da tragédia de 2012, ela e a chefa fingindo que é dor a dor que deveras nunca sentiram.
Há poucos minutos, no Blog do Planalto, a imagem revoltante ganhou um título arrasador, na acepção mais destrutiva da palavra:
“Governo cria força-tarefa para atuar nas áreas atingidas pelas chuvas”
Já no olho da matéria, começa a fantasia tonitruante, cheia de pompa e circunstância: “O governo federal vai criar uma força-tarefa, composta por 35 geólogos e 15 hidrólogos, para atuar nas áreas de risco dos estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo, afetados pelas chuvas. A decisão foi tomada hoje (9) pela presidenta Dilma Rousseff em reunião com seis ministros no Palácio do Planalto. A força-tarefa vai trabalhar na identificação das áreas sujeitas a deslizamentos e inundações, de onde as famílias devem ser removidas pela Defesa Civil”.
E sabem da maior?
“Evitar mortes é nossa prioridade número um”, disse a ministra-chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, em entrevista coletiva após a reunião com a presidente”.
A seguir, todos os homens de preto e o de verde oliva também falaram, sequencialmente, bem roteirizados pelas respectivas assessorias, numa espécie de jogral da fraude.
Para evitar as mortes que já ocorreram no ano passado e neste, incluindo a morte civil de quem perdeu tudo na vida, a presidenta que não chove no molhado também determinou que “os centros de operação e monitoramento permaneçam nos estados até fim de março para atuar nas ações de prevenção e reconstrução das cidades mais afetadas pelas chuvas”. O ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, Aloizio Mercadante, informou em primeira mão – pelo menos para quem não viu os boletins de 15 dias atrás — que o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemanden) prevê fortes chuvas na região serrana do Rio de Janeiro, em Belo Horizonte e Ouro Preto. Por essas e outras é que ele conta os dias de ir para a Educação.
Já o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, revelou que mais 800 quilos de medicamentos serão enviados para as áreas mais atingidas, “somando 12,8 toneladas o total já encaminhado pelo governo”, por decisão pessoal de Dilma assim que voltou das férias, numa estranha ênfase na abordagem epidêmica de uma inundação.
Por fim, segundo o Blog do Planalto, o ministro que hoje salvou o empregão, Fernando Bezerra Coelho, transmitiu, em nome da gerentona Dilma, solidariedade às famílias das vítimas do deslizamento na cidade de Sapucaia, no norte do Rio de Janeiro – a mais recente tragédia que o governo vai prevenir. E afirmou, sem ficar vermelho e sem rir:
“Vamos envidar esforços para resgatar as vítimas e oferecer apoio aos familiares.”
Ele já o ofereceu ao irmão burocrata, ao filho deputado e ao correligionário proprietário do terreno em Petrolina comprado e pago duas vezes.
Todo brasileiro que ainda não se afogou nesse mar de lama, de corrupção, de inépcia, da pior forma de cinismo que existe, o cinismo que mata, deve olhar compenetradamente para cada um dos descarados da foto e anunciar em alto e bom som:
EU SEI O QUE VOCÊS FIZERAM NO VERÃO PASSADO.
Sebastião Nery - Tribuna da Internet - link (aqui)
terça-feira, 10 de janeiro de 2012 | 02:21
A Bahia viu primeiro
Sebastião Nery
Quando o navio “Príncipe Real”, à frente das naus portuguesas, entrou na baía de Salvador, o príncipe Dom João VI não entendeu nada. O cais estava inteiramente deserto. Tudo que ele viu foi um pessoa só, “uma única autoridade, o governador, representante colonial da Coroa, postado nas docas de um porto deserto de um povoado colonial”.
“Houve uma certa inquietação à bordo, à medida que a esquadra se aproximou de seu destino. Nenhum navio de reconhecimento fora enviado de antemão e não se sabia ao certo que impacto teria na colônia a súbita chegada da família real. Os exilados haviam esperado que houvesse multidões para lhes dar as boas vindas, mas o cais parecia deserto quando as naus entraram na baía de Salvador.”
“Ao subir a bordo do “Príncipe Real”, o governador disse ao príncipe regente que ele é que mandara esvaziar as ruas, nas imediações das docas, inseguro dos desejos do regente. Dom João lhe disse que desejava ver seus vassalos do Novo Mundo e, uma vez espalhada a notícia, as ruas encheram-se aos poucos de espectadores curiosos.” Era 22 de janeiro de 1808.
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SALVADOR
Perdoem os nativos invejosos. O Brasil foi descoberto duas vezes. E ambas na Bahia. Pedro Álvares Cabral chegou a Porto Seguro em 22 de abril de 1500. Mas só 308 anos depois, com Dom João VI descendo em Salvador em 22 de janeiro de 1808, o Brasil começava a nascer como país.
SALVADOR
Perdoem os nativos invejosos. O Brasil foi descoberto duas vezes. E ambas na Bahia. Pedro Álvares Cabral chegou a Porto Seguro em 22 de abril de 1500. Mas só 308 anos depois, com Dom João VI descendo em Salvador em 22 de janeiro de 1808, o Brasil começava a nascer como país.
Salvador era a cidade mais populosa do Império Português, “com um traçado semelhante ao da cidade do Porto ou, em menor escala, ao da própria Lisboa. Trilhas íngremes subiam em ziguezague pela escarpa de 60 metros. Havia igrejas opulentas, conventos e prédios do governo espalhados pelas colinas da cidade, seguindo o que tinha sido uma estratégia medieval de construir cidades fortificadas em colinas”.
“Salvador era uma cidade mais africana que européia. Suas ruas eram povoadas por uma população predominantemente negra e mulata”. Parece que Caymmi, Caetano e Gil ainda não cantavam por aqui.
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DOM JOÃO
Ficaram um mês descansando em Salvador. “Passadas as cerimônias de boas-vindas, dom João, seu filho Pedro e sua mãe, a rainha Maria I (a Louca), desembarcaram para uma semana de recuperação no palácio do governador. Dona Carlota não os acompanhou, permanecendo mais cinco dias à bordo, antes de se mudar para o prédio do Tribunal de Justiça. Ao chegar a Salvador, dona Carlota era uma mulher abatida. Amargurada, tomou-se de ódio pelo país e por seu povo.”
DOM JOÃO
Ficaram um mês descansando em Salvador. “Passadas as cerimônias de boas-vindas, dom João, seu filho Pedro e sua mãe, a rainha Maria I (a Louca), desembarcaram para uma semana de recuperação no palácio do governador. Dona Carlota não os acompanhou, permanecendo mais cinco dias à bordo, antes de se mudar para o prédio do Tribunal de Justiça. Ao chegar a Salvador, dona Carlota era uma mulher abatida. Amargurada, tomou-se de ódio pelo país e por seu povo.”
“Nas saídas com o filho Pedro, dom João levava sua carruagem às partes altas da cidade, seguido por multidões de vassalos. Os laranjais estavam em flor, desprendendo um doce aroma que circulava pelas plantações dos arredores. Distribuía moedas entre os que acompanhavam sua carruagem, concedia perdões, conferia honrarias e ouvia petições.”
“As restrições coloniais foram afrouxadas, mediante a expedição de licenças de fabricação e a fundação de uma escola de Medicina e Cirurgia.”
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NO RIO
Em certa ocasião, visitaram Itaparica, uma grande ilha na baía, repleta de praias, coqueirais e trilhas na mata e ali passaram uma noite.
NO RIO
Em certa ocasião, visitaram Itaparica, uma grande ilha na baía, repleta de praias, coqueirais e trilhas na mata e ali passaram uma noite.
Dom João voltou frustrado porque não encontrou lá o João Ubaldo. No dia 8 de março de 1808, a família real desembarcou afinal no Rio de Janeiro, elevada, da noite para o dia, da condição de capital colonial para a de capital do Império, com 60 mil habitantes. Então menor do que Salvador, ainda assim o Rio era um porto colonial de dimensões consideráveis para os padrões da época”.
Dom João ficou morando no Rio, mas a Bahia é que viu primeiro.
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PERO VAZ-2
PERO VAZ-2
E é assim que começa a história do Império Português no Brasil, com a chegada de dom João VI há mais de 200 anos. Há muita coisa, e boa, para ler, até para fazer a justiça histórica que o Brasil deve ao gordo comedor de frango, mas estadista, dom João.
O primeiro e mais importante documento histórico é o “diário de bordo” do oficial inglês Thomas O’Neil, o Pero Vaz de Caminha de Dom João VI: “A Vinda da Família Real Portuguesa para o Brasil” (J.Olimpio).
Ainda não li (é o terceiro da minha lista domjoânica) o best-seller “1808 – como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a história de Portugal e do Brasil”, de Laurentino Gomes (Ed. Planeta do Brasil).
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OBRA-PRIMA
Todas as citações que fartamente fiz estão em um livro magnífico, avalisado pela autoridade de Claude Levi Strauss: “Uma obra-prima, escrita com erudição e grande talento literário. Fascinante”. “Império à deriva – a corte Portuguesa no Rio de Janeiro, 1808-1821″, de Patrick Wilcken, tradução de Vera Ribeiro (Editora Objetiva).
OBRA-PRIMA
Todas as citações que fartamente fiz estão em um livro magnífico, avalisado pela autoridade de Claude Levi Strauss: “Uma obra-prima, escrita com erudição e grande talento literário. Fascinante”. “Império à deriva – a corte Portuguesa no Rio de Janeiro, 1808-1821″, de Patrick Wilcken, tradução de Vera Ribeiro (Editora Objetiva).
Patrick Wilcken é um jornalista e historiador nascido na Austrália, radicado em Londres e que já passou longos períodos no Rio. Todo seu livro é baseado em documentos brasileiros e portugueses e em pesquisas no Ministério das Relações Exteriores britânico. Magistral.
Fernando Bezerra: tenho o ‘apoio’ da presidente - Josias de Souza - Blog do josias - link (aqui)
09.01.2012 - 18:29
Shakespeare levantou a questão em Romeu e Julieta: ‘What’s in a name?” Em muitos casos, é difícil ligar o nome à pessoa. Noutros, o nome dá notícia do dono.
Veja-se o caso do titular da pasta da Integração Nacional. Traz nas pegadas do prenome dois bichos. O ministro é Bezerra Coelho. Fernando Bezerra Coelho.
A versão feminina do bezerro é sugestiva. Mas é o coelho quem convida à comparação. Esse mamífero do gênero Orictolago é conhecido pela rápida reprodução.
De uns dias pra cá, as denúncias se reproduzem ao redor de Fernando em velocidade atordoante. É como se o Coelho do sobrenome do ministro tivesse decidido andar sozinho.
A penúltima manchete informa: à época em que era prefeito de Petrolina (PE), Fernando, o Coelho, comprou duas vezes o mesmo terreno. Primeiro, pagou R$ 90 mil. Depois, R$ 110 mil.
Nesta segunda-feira, após avistar-se com Dilma Rousseff, o ministro disse que conta com “a confiança e o apoio da presidente.” Curioso, muito curioso, curiosíssimo.
Antes da encrenca do terreno, houve a notícia sobre o privilégio a Pernambuco na distrubuição de verbas. Sobreveio a informação sobre o empenho de 100% das emendas do filho, um Coelho-deputado.
Na sequência, a constatação de que o irmão, Coelho-administrador, comanda os negócios da Codefasf numa curiosa e longeva interinidade de quase um ano.
“Estamos tranquilos”, disse o Coelho-ministro, após manter “longa e boa conversa” com Dilma. “Nenhuma dessas denúncias irá prosperar porque nunca prosperou nenhuma denúncia contra a minha pessoa.”
Nesta quinta (12), o ministro deve prestar ‘esclarecimentos‘ no Congresso. Um Congresso esvaziado pelo recesso. Colocou-se à disposição em conversa telefônica com o presidente do Legislativo, José Sarney.
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