Sebastião Nery
Era 20 de janeiro de 1971, feriado, dia de São Sebastião, padroeiro do Rio e meu. Antes das dez da manhã, a caminho da praia, parei o carro em frente à casa do ex-deputado do PTB paulista, cassado, Rubens Paiva, na Avenida Delfim Moreira, Leblon, Rio. Minha filha, colega da filha dele, desceu para pegar a amiga. Mandei um recado:
- Diga ao Rubens que não entramos porque estamos todos com roupa de praia. Quando voltarmos, passaremos aqui para dar-lhe um abraço.
Ela subiu, demorou um pouco, desceu com a Malu e me perguntou :
- Você brigou com o tio Rubens? Ele estava no quarto, calçando o sapato, com três homens de paletó e gravata. Dei o recado, ele disse: “Foi melhor assim”.
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RUBENS PAIVA
RUBENS PAIVA
Fiquei calado, para não assustar as meninas. Mas vi quatro suspeitas kombis brancas em torno da casa, com varias pessoas dentro, olhando estranhamente para nós. Quando chegamos à praia, disse à minha mulher :
- Estão prendendo o Rubens. Aquelas kombis estão sem placas.
- Devem ser amigos ou gerentes da fazenda dele em São Paulo.
Não fiquei tranqüilo. Apressamos o banho de mar e na volta já ninguem chegava mais perto da casa cercada, com a avenida fechada. Parei mais adiante e o porteiro de um prédio próximo me contou:
- É a Aeronáutica prendendo um cara daquela casa.
Voltei rápido e aflito. Era preciso espalhar urgente a noticia. Mal entramos em casa, ali perto, na Marquês de São Vicente, toca o telefone:
- Minha filha está com vocês?
- Está, sim. O que aconteceu?
- Cuidem dela.
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EUNICE
EUNICE
E desligou. Era Eunice, mulher do Rubens, que seria presa a seguir. Peguei o carro, fui correndo à casa do José Aparecido, na Aires Saldanha, em Copacabana. Na véspera, havíamos jantado lá com o Rubens. Entre outros, lá estava o Bocaiúva Cunha, também cassado e sócio de Rubens numa empresa de engenharia. Na saída do jantar, o Rubens pegou um cartão (“Rubens Paiva, engenheiro civil”), escreveu dois números de telefone (“223.1512 e 227.5362”), me entregou (guardo até hoje):
- Você anda sumido, acompanho pela “Tribuna” e o “Politika”. Vamos conversar. Passe lá amanhã para um uísque. É dia de seu padroeiro.
Eu o conhecia desde 1953, ele presidente do Centro Acadêmico Horacio Lane, da Escola de Engenharia da Universidade Makenzie, em São Paulo, depois vice-presidente da União Estadual dos Estudantes, e eu dirigente do Diretório Acadêmico da Faculdade de Filosofia de Minas,
Em 62, nos elegemos: ele deputado federal por São Paulo,eu estadual pela Bahia. E nos encontrávamos nas lutas do governo Jango.Ele foi diretor do “Jornal de Debates” e cassado na primeira lista do golpe militar de 1964, por ter feito parte da CPI do IBAD, que denunciou inclusive o farsante do Lincoln Gordon, embaixador dos Estados Unidos no Brasil. Em 1965, Rubens assumiu a direção da “Ultima Hora” de São Paulo, onde vivi um ano clandestino e trabalhei escrevendo anonimamente.
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APARECIDO
APARECIDO
Foi uma noite desesperadora. Com Aparecido, tomando todos os cuidados, fomos à casa de Bocaiúva, na Delfim Moreira, e também à de Waldir Pires, na Ruy Barbosa. Ninguem devia falar ao telefone, naqueles sinistros anos do governo Médici. Mas era preciso avisar aos amigos, sobretudo de São Paulo e Brasília, fazer um cerco antes do pior.
Não adiantou. No dia 21, soubemos que fora levado para o notório Brigadeiro Burnier, da Aeronáutica, e de lá entregue ao DOI-CODI do Exercito, na Barão de Mesquita. Já no dia 23, a certeza de que tinha sido assassinado. O jornal “O Dia”, do Chagas Freitas, em manchete fraudada, com a foto de um carro queimado, dizia que “o carro que o transportava do comando da 3ª Zona Aérea da Aeronáutica para o DOI-CODI do Exercito tinha sido interceptado por desconhecidos, que o teriam seqüestrado”.
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GLOBONEWS
GLOBONEWS
Eunice Paiva, presa com uma filha e incomunicável durante 15 dias, quando saiu lutou como uma leoa. Com o líder do MDB na Câmara Oscar Pedroso Horta, denunciou ao Conselho de Defesa da Pessoa Humana, que o arquivou por ordem de seu presidente, o tal do Alfredo Buzaid, que disse que ele estava “foragido”. O bravo Pedroso Horta, líder do MDB, escalou os deputados Marcos Freire e Francisco Pinto para denunciarem na Camara.
A “grande imprensa” não disse nada. Só a “Tribuna da Imprensa” e nosso “POLITIKA” desafiaram a censura e furaram o tumor. Desde então, todo ano, no 20 de janeiro, relembro o crime. Agora, a “GloboNews”, em um belo trabalho da Miriam Leitão, pôs pela primeira vez na TV. Mas o mais completo documento sobre o assassinato de Rubens Paiva pela Aeronáutica e o Exercito é o livro do jornalista Jason Tércio:- “Segredo de Estado – o Desaparecimento de Rubens Paiva” (Ed. Objetiva). Está tudo lá.
Os histéricos apavorados que estão assinando manifestos contra a “Comissão da Verdade” sabem que um dia a Hora da Verdade chegará.



