Deu no Blog do Augusto Nunes (aqui)
Reynaldo-BH reconstitui a reunião que pariu a nota concebida para assassinar a verdade
REYNALDO ROCHA
Resumo de reunião dos assessores de Lula. Marqueteiros, advogados e
jornalistas chapa-branca. O próprio não está presente. Discute-se como
formular uma resposta à imprensa sobre os fatos envolvendo o
ex-presidente e o Ministro Gilmar Mendes.
Ambiente tenso. Televisores ligadas nos canais noticiosos. Tablets e
computadores em permanente pesquisa nos blogs de colunistas e dos
jornais e revistas. Lula recusa-se a participar da reunião, esperando o
resultado final, que virá do conselho de próceres reunido.
A primeira questão é colocada em discussão. Lula deve dar uma entrevista? Se sim, a qual veículo de comunicação? Com qual teor?
A decisão é unânime. Lula tem que permanecer calado. Alguém, para ter
certeza da decisão tomada, resolve consultar Lula por telefone. E
sugere ─ como teste ─ o pronunciamento esclarecedor. Ouve um palavrão
como resposta. Todos já sabem que Lula não falará.
A tensão cresce. As análises de jornalistas isentos e imparciais (os
tais da dita grande imprensa) são demolidoras. Vão da revolta à
vergonha. A esgotofesra não consegue conter a enxurrada de indignação.
Estão, todos, sem argumentos. Esperam alguma orientação ─ como bons
blogueiros de aluguel ─ para saber o que escrever.
Chegam a um acordo. Uma nota oficial.
Um ex-ministro da Justiça, atarefado com a defesa de bicheiros e
bandidos do mesmo quilate, adverte para o risco de Lula declarar algo
que possa ser desmentido posteriormente, até mesmo na esfera judicial.
Novo impasse. O homem não irá falar. E não dá para assinar uma nota
oficial. Volta-se à estaca zero. Enfim aparece a solução! A nota será
assinada pelo Instituto Lula. Pessoa jurídica que não mente por absoluta
incapacidade (factual e legal) para tanto: empresas nunca mentem, só
seus dirigentes. Se der problema, será coisa do administrador do
Instituto. Que não é Lula.
Resolvido o detalhe da assinatura da nota (mais ou menos) oficial, passa-se ao texto.
O PARTO DO MONSTRENGO
A tensão está no limite. Todos têm na cabeça a mesma pergunta que
ninguém tem coragem de expressar: alguém vai acreditar? Pior que todos
sabem a resposta.
Depois de dez rascunhos e centenas de hesitações, a nota finalmente encontra um início.
“Sobre a reportagem da revista ‘Veja’ publicada nesse final de
semana, que apresenta uma versão atribuída ao ministro do STF Gilmar
Mendes sobre um encontro com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva,
no dia 26 de abril, no escritório e na presença do ex-ministro Nelson
Jobim, informamos o seguinte:”
Alguém lembra que Nelson Jobim, o estuprador de Constituições, já
havia dito que não esteve presente em todos os momentos da conversa.
Assim, a nota começa com o desmentido do desmentido. Ninguém se entende
na sala. Afinal, o que seria melhor? Obrigar Jobim a desmentir o que
disse ─ agora afirmando ter presenciado toda a conversa, o que era a
única verdade ─ ou insistir na tese da ausência nos momentos cruciais da
negociação/chantagem? Acabam decidindo que, se alguém ficar com a pecha
de mentiroso, melhor que seja Jobim. Ele haveria de entender.
Mas como qualificar o fato? Reunião? Audiência? Conversa? Mais
discussões. Melhor “encontro”, palavra suficientemente vaga para ser
aplicada ao enlace do casal de amantes num motel ou à festa de fim de
ano das ex-alunas do Colégio Sion.
Restam os fatos. Como tocar no assunto? Já estão todos de acordo
quanto à citação expressa da revista VEJA. Lula não admitiria deixá-la
de fora. Como foi citada (pior, foi ela quem divulgou a matéria), então
os fatos teriam de ser rebatizados de …versão! Suspiro de alívio. O
monstrengo está tomando forma. Um mais esclarecido lembrou-se: versão do
jornalista? Desta vez não dava para culpar o Policarpo. Versão do
Cachoeira? De novo, problemas à vista. Ainda está preso. Versão da
direita raivosa? Embora esteja sempre por trás de tudo, ela não
compareceu ao “encontro”. A versão teria que ser do ministro!
Nova rodada de água com Lexotan. É suspensa a distribuição de cafés e
chás de qualquer espécie. O homem é um ministro do Supremo! Solução: a
versão é da revista VEJA, que a atribuiu ao ministro.
Mas a revista não afirmou que o ministro havia confirmado o teor do
“encontro”?, pergunta alguém, imediatamente expulso do recinto para
aprender a não tumultuar os trabalhos com meros detalhes. Não há tempo a
perder com miudezas. Gilmar Mendes, afinal, há de entender o momento
delicado urdido pelas oposições com vistas a derrubar Lula…derrubar
Dilma … derrubar os avanços do governo mais popular da história deste
país!
O ARGUMENTO QUE FALTAVA
Continua a confecção da nota quase oficial.
“1. No dia 26 de abril, o ex-presidente Lula visitou o
ex-ministro Nelson Jobim em seu escritório, onde também se encontrava o
ministro Gilmar Mendes. A reunião existiu, mas a versão da Veja sobre o
teor da conversa é inverídica. ‘Meu sentimento é de indignação’, disse o
ex-presidente, sobre a reportagem.”
Este trecho ─ todos concordam ─ é o cerne da nota oficiosa. A
resposta. A porrada nas acusações mentirosas. O argumento que faltava
aos blogs progressistas. Portanto, é necessário cuidado! Discute-se de
início se seria razoável admitir que houvera (ou não) o “encontro”. Não
dá para negar. Motoristas, ascensoristas, copeiros e serviçais (essa
gente que gosta de aparecer em CPI’S) acabariam confirmando a presença
de Lula e Gilmar no escritório de Jobim. A discussão esquenta. O
“encontro” virou reunião.
Já que a reunião (o revisor será demitido amanhã pela manhã!)
aconteceu, restam as alternativas de sempre. Lula não sabia! O problema é
que desta vez não há o que “não saber”. Não sabia que não podia tentar
corromper um ministro? Ou intimidar um juiz? Ou, ainda, chantagear um
dos julgadores do mensalão? Não, definitivamente não é caso para outro
“não sabia”.
Desta feita, o argumento sempre disponível não cabe. O pânico se
espalha entre os escribas de aluguel. Algum gênio da linhagen
frankliniana sugere a alternativa já largamente utilizada: “é algo que
todo mundo faz”. Não, não é. Uma pesquisa no Google informa que não
existe um único episódio na história do Brasil que possa sustentar o
argumento do “sou, mas quem não é?” Nada. Desta vez – todos os
arquitetos do lulopetismo admitem constrangidos – Lula foi longe demais.
Inovou perigosamente.
Resta desmentir. Peremptoriamente. De modo cabal. Mas ─ alerta outro
marqueteiro presente ─ não seria perigoso desmentir um ministro do
Supremo Tribunal Federal?
Nova pausa para consultas e avaliações. Consulta-se o advogado ─ que
interrompe de novo o esforço para livrar da cadeia o cliente de R$
15.00.000,00 ─ em busca de (mais) uma saída. Até por ser caro e estar
habituado a clientes com perfil de bandidos, o advogado alerta: não dá. É
arriscado demais acusar de mentiroso ─ ou criminoso ─ um juiz do STF.
Então a coisa ficará assim, sem desmentido? Isso jamais! A versão
passa a ser da revista VEJA. Não do ministro (ok, ok, vamos esquecer que
o ministro, na mesma entrevista, confirmou o teor da reunião). Caso
surjam problemas, Lula nunca disse que o ministro mentiu. A desmentida
foi a revista, que publicou uma versão.
Em frente! Liberado o cigarro na sala. Alguém
pergunta se a “porra da cachaça do Lula” ainda está na gaveta debaixo da
escrivaninha.
Pronto! Dada a resposta. O resto será completado com declarações de
princípios, uma das quais reafirmará que nunca antes neste país um
presidente teve em tão alta conta o Poder Judiciário.
Por telefone, Lula ouve a leitura da nota oficiosa. Outro esporro.
Quer dizer que o grupo reunido por mais de 6 horas não preparou sequer
um discurso de “autoria” do chefe?
Voltam todos para o término da missão. Há que se colocar, na nota,
uma declaração definitiva do próprio Lula. Mais 2 horas de intensas
elucubrações sobre o momento doloroso que Lula enfrentava, frente à
“versão da VEJA” sobre o “encontro”.
COMEMORAÇÃO PRECIPITADA
O resultado do esforço coletivo finalmente aparece: “Estou indignado!”. A
declaração mais sucinta da história política do planeta. O poder de
síntese levado ao extremo! O gênio da raça em seu momento mais glorioso.
O bichinho palanqueiro resumindo numa frase outro episódio de
mau-caratismo explícito de opositores.
E basta! Mais um é convidado a retirar-se da sala por ter proferido a
inconveniência: “Gente, quem fica indignado se indigna com algo! Com
que ou com quem Lula está indignado? Com Gilmar? Jobim? Com a VEJA? Com a
vida? Com Obama?”
“2. Luiz Inácio Lula da Silva jamais interferiu ou tentou
interferir nas decisões do Supremo ou da Procuradoria-Geral da República
em relação a ação penal do chamado mensalão, ou a qualquer outro
assunto da alçada do Judiciário ou do Ministério Público, nos oito anos
em que foi presidente da República.”
“Ação penal do chamado mensalão”? Como assim? O correto não seria
“ação penal derivada da FARSA do mensalão!”. A besta do revisor deixou
passar….Como prudência e caldo de galinha nunca fazem mal, melhor
limitar o prazo aos OITO anos de presidência. Depois, bem , depois
destes anos a nota não tem nada a dizer.
“3. “O procurador Antonio Fernando de Souza apresentou a denúncia
do chamado Mensalão ao STF e depois disso foi reconduzido ao cargo. Eu
indiquei oito ministros do Supremo e nenhum deles pode registrar
qualquer pressão ou injunção minha em favor de quem quer que seja”,
afirmou Lula.”
Lula fica possesso ao saber que a nota já fora enviada aos jornais
com a referência ao procurador Antonio Fernando. Quem foi o desavisado
que esqueceu de lembrar a FARSA criada pelo ex-procurador? Parece até
que Lula concorda com a denúncia! Tem motivos para comentar o escorregão
com voz alterada.
“4. A autonomia e independência do Judiciário e do Ministério
Público sempre foram rigorosamente respeitadas nos seus dois mandatos. O
comportamento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é o mesmo,
agora que não ocupa nenhum cargo público.”
Mais um deslize que só depois da publicação da nota oficiosa foi
notado: a acusação de agir FORA da Presidência como agiu quando a
exercia.
Fim da reunião. Todos respiram aliviados. O texto já está em
circulação. Comemora-se mais uma crise vencida. A verdade oficial está
apresentada. Lula não se expôs a nenhum processo. Nem precisou assinar a
nota. Os participantes da reunião se preparam para a retirada quando
Gilmar Mendes aparece na TV para reafirmar o que disse. Não foi uma
versão da revista; foram fatos. Não foi uma reunião; foi uma cobrança
recheada de ameaças. Jobim a tudo ouviu e até tentou ajudar Lula na
argumentação, usando o suspeitíssimo Protógenes, o suplente de palhaço. E
ainda acrescentou detalhes.
Faz-se um profundo silêncio na sala do Instituto Lula. Até que alguém
se levanta e desliga a televisão. Alguém comenta: “Amanhã vai chover…”
Todos vão embora.
Pano rápido.
Ficção? Certamente…
Nenhum autor conseguiria escrever um roteiro tão cheio de erros
quanto este. Pleno de dubiedades. Um texto que começa e termina sem
afirmar nada. Uma peça assim teria que ter, necessariamente, uma plateia
de idiotas e imbecis.
Só gente assim acreditaria na verossimilhança do teatro de horrores,
onde a ignorância faz par com a ofensa. Ignorância do autor que ofende a
inteligência dos espectadores.
Melhor devolver o valor do ingresso.