domingo, 12 de maio de 2013
Dona Luiza
Dona Luiza*, assoviando velhas canções
(luiz alfredo motta fontana)
noite de junho
guiado pelo luar
emergi
Ela
num sorriso delicado
transformou-se
de tépido oceano
em seguro porto
afagos
cuidares
e eventuais ralhos
compunham o berço
estendeu limites
quase que em silêncio
enquanto o crescer
assim o pedia
o seu entorno
foi meu lar
jamais reconheci como minhas
paragens outras
tornei-me hóspede
em cada novo domicílio
hoje
quando busco abrigo
resto envolto em saudade
ainda ouço velhas canções
que distraída
assoviava
entre fainas diárias
* Luiza Motta Fontana
Dona Dilma em seu devido lugar.........sem piar, como Lula gosta...
Deu no Estadão online (aqui)
Chá de cadeira em Dilma
11 de maio de 2013 | 2h 03
O Estado de S.Paulo
A presidente do Brasil é Dilma Rousseff, mas isso parece
ser apenas um detalhe. Na fabulação bolivariana, ela não passa de uma
nota de rodapé ante os "gigantes" Luiz Inácio Lula da Silva, Hugo Chávez
e Néstor Kirchner. Por isso, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro,
não teve nenhum pudor em deixá-la esperando por quase duas horas,
durante sua visita ao Brasil, enquanto se encontrava com o ex-presidente
Lula. Não foi apenas Dilma que saiu menor desse episódio. É a própria
Presidência brasileira que encolhe a olhos vistos ante o menosprezo de
Lula pela liturgia do cargo que ele não mais ocupa, mas do qual não
consegue "desencarnar". Dilma, por sua vez, obediente e disciplinada,
parece aceitar seu status de presidente ad hoc.
Como se sabe, Maduro veio ao Brasil para obter a legitimidade
política que lhe falta na Venezuela, graças à truculência com que ele
está tratando a oposição - dona de metade dos votos na controvertida
eleição vencida pelo herdeiro de Chávez. Maduro enfrenta resistência
também nas próprias fileiras chavistas, porque, com a morte do
Comandante, se multiplicaram focos de rebelião daqueles que se sentiram
preteridos dentro do Politburo venezuelano e relutam jurar lealdade ao
presidente.
Já começam a circular rumores de que os próprios chavistas,
principalmente o presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello,
estão conspirando para prejudicar Maduro. Suspeita-se que Cabello - que
já está sendo chamado de "ditador em espera", é muito ligado aos
militares e não é bem visto pelo regime cubano, padrinho de Maduro -
esteja incitando a violência para precipitar a crise.
Tudo isso acontece em meio a uma avassaladora crise econômica, cujo
lado mais perverso e politicamente explosivo é o desabastecimento de
alimentos - que Maduro atribuiu à "sabotagem econômica", sem reconhecer a
óbvia incompetência de seu governo. Não surpreende que já haja
pesquisas mostrando que, se a eleição presidencial fosse hoje, o
vencedor seria o opositor Henrique Capriles.
Nesse contexto, Maduro veio ao Brasil para pedir ajuda - que se
traduzirá em acordos comerciais francamente desequilibrados em favor da
Venezuela - e para consultar-se com Lula para saber o que fazer. O
ex-presidente não o decepcionou. "Hoje, Lula nos banhou de sabedoria",
declarou, entusiasmado, o venezuelano, após a audiência que contou
também com a presença do presidente do PT, Rui Falcão, numa deliberada
confusão de questões de Estado com interesses político-ideológicos. Lula
falou durante uma hora sobre sua "experiência de luta", disse Maduro,
que qualificou o petista de "pai dos homens e mulheres de esquerda da
América Latina". Para o venezuelano, "dos três gigantes que começaram
este processo de integração da América Latina, Kirchner, Chávez e Lula,
só nos resta Lula". Assim, a visita oficial de um chefe de Estado ao
Brasil converteu-se em peregrinação para adorar um santo vivo e beber de
seus "ensinamentos".
Somente depois de beijar a mão de Lula e de reconhecer-se como seu
"filho" é que Maduro dirigiu-se ao Planalto para ser recebido por Dilma,
que lhe reservou honras de Estado, a despeito do chá de cadeira que
levou. Não contente em fazê-la esperar, Maduro ainda lhe presenteou com
um enorme retrato de Chávez, numa cena constrangedora, que tornou a
presidente ainda menor em todo o contexto. Restou a Dilma fazer um
discurso curto, protocolar, em que exaltou a "parceria estratégica"
entre Brasil e Venezuela e chamou de "momento histórico" o fato de que a
Venezuela assumirá a presidência do Mercosul no segundo semestre -
situação esdrúxula que só está sendo possível graças a um golpe
bolivariano para isolar o Paraguai, que se opunha à entrada da Venezuela
no bloco.
À vontade, Maduro sentiu-se autorizado a dizer, sem que a mentira
fosse contestada, que o projeto do Mercosul "nasceu em essência das
ideias de Chávez". No culto à personalidade de Chávez e Lula, Dilma é
cada vez mais apenas uma coadjuvante.
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