domingo, 30 de março de 2008

Após a quarta dose o bar é só prosa



Café de coador




Nhô Cansado, compadre de Sinhá Sensata, andava meio ressabiado.

Tem ouvido coisas demais, e soluções de menos, não tem encontrado, nas conversas, no assuntar, no correr a vista cansada pelos diários, uma herança de seu avô, preciosa herança que sempre utilizou com cuidares, com respeito, sabendo estar tratando com uma virtude.

Sinha Sensata, enquanto serve o café, ainda pouco saido do coador, observa esse franzir de testa, esse olhar de sanhaço ouvindo algazarra de meninos, esse quase resmungo do Nhô Cansado.

Perguntar o motivo, não comete, ela é do tempo deixar vir, do amadurecer para colher, e assim só espreita.

Entre o picar do fumo e o cortar da palha, na pousada da tarde, ali perto do borralho, Nhô Cansado, após o calmo pigarro, naquele jeito pausado, como quem repassa manteiga no pão caseiro, exclama:

- Comadre!

E manso, como riacho em tempo de seca, acrescenta:

- Esse povo de Brasília, tá perdendo o prumo e o rumo.

- Parece içá caida no terreiro, sem chance de cavar, perdendo asas e vendo o destino chegar no bico do anú.

- Afinal!

Elevando o tom e guardando o canivete:

- Comadre, eles nunca ouviram falar em bom senso?

E nada mais falou, distraído pela chama da binga, aquela mesma que herdara do pai, como o cadinho, ainda vivo, de bom senso ao falar.

O café cheirava como saudade.

Do tempo que escorreu pelo caminho, do olhar o jeito da mocinha sorrir depois do primeiro beijo, do gosto do primeiro trago por conta própria.

Nhô cansado perdido no fumar já não mais franzia a testa.

A tarde retomou seu rumo.

Sinhá Sensata já cuidava do preparo do jantar.

Cláudio - Tribuna do Norte - Natal (RN)

Documento do TCU não sustenta versão sobre 'banco de dados' - Estadão online - link (aqui0


Órgão pede dados de gastos com cartão de setembro de 2002 a dezembro de 2005, e não entre 1998 e 2001

Gisele Silva, do estadao.com.br


SÃO PAULO - Documento do Tribunal de Contas da União (TCU) não é suficiente para justificar o levantamento de informações sobre os gastos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que, segundo a revista Veja, correspondem ao período de 1998 a 2001. O Acórdão 230/2006, no qual a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, se baseia para justificar o banco de dados do ex-presidente, determina retroatividade das contas apenas até setembro de 2002, fim do segundo mandato de FHC.


Segundo o documento do TCU, a auditoria abrange "o uso do Cartão de Pagamento em processos de suprimento de fundos movimentados no período de setembro de 2002 a julho de 2005". A partir dessa data, as informações sobre gastos da Presidência passaram a ser lançadas no sistema informatizado de controle, o chamado Sistema de Controle de Suprimento de Fundos (Suprim).

No último sábado em Curitiba, a ministra afirmou que o banco de dados foi uma determinação do TCU. "Foi uma recomendação do Senado e do Tribunal de Contas da União, em junho de 2005, e depois retroagimos às contas de 2004, 2003 e 2002 a pedido do próprio tribunal." Dilma, no entanto, deixou de explicar os dados referentes ao período anterior (1998-2001), das chamadas contas tipo B.

Nota da Casa Civil, divulgada na última sexta-feira, reiterou a coleta de dados. "O que o jornal insiste em chamar de dossiê são fragmentos de uma base de dados em fase de digitação para alimentação do Suprim (Sistema de Controle de Suprimento de Fundos)", dizia o texto.

Ainda segundo a Casa Civil, o sistema organiza os dados relativos aos gastos com suprimento de fundos (cartões e contas tipo B) desde 1998. "Trata-se de uma ferramenta de gestão e não de um dossiê", diz a nota do governo, que lamenta o vazamento de dados sigilosos. A nota foi uma resposta ao jornal Folha de S. Paulo, segundo o qual a secretária-executiva da ministra, Erenice Guerra, foi responsável pelo dossiê.

Também em Curitiba, Dilma defendeu Erenice e descartou a demissão de seu "braço direito" no ministério. A ministra voltou a dizer ainda que o banco de dados que originou o vazamento das informações e pelo qual seu ministério é responsável tem um conceito diferente de dossiê. "Ele (dossiê) é usado para denúncias políticas e isso não cabe em uma democracia, é uma manipulação dos dados para esse tipo de política", afirmou.

Ella and Count Basie on special 1979

Art blakey's Jazz Messengers - Dat Dere

Bar é arte




Erlich - El País (es)

Acórdão do TCU contradiz versão de Dilma Rousseff - ,Blog do Josias - link (aqui)


Ministra diz que tribunal pediu os gastos da gestão FHC

Documento citado por ela, porém, não contém ‘pedido’

Decisão de coletar os dados foi exclusiva da Casa Civil

Sérgio Lima/Folha

De passagem por Curitiba (PR), neste sábado (29), Dilma Rousseff foi espremida por repórteres. Crivaram-na, de novo, de perguntas sobre o dossiê que coleciona despesas palacianas atribuídas ao ex-presidente Fernando Henrique e à ex-primeira-dama Ruth Cardoso. Além das negativas de praxe, a chefe da Casa Civil mencionou um documento: o acórdão 230/2006, do Tribunal de Contas da União.

Em vez de desfazer as suspeitas, o documento que a presidenciável de Lula trouxe à baila tonificou-as. O texto do TCU não condiz com o que Dilma afirmou. Bem ao contrário. Anota o oposto. Deu-se o seguinte:

1. Na entrevista, Dilma repisou a versão segundo a qual o Planalto organizou um “banco de dados”, não um dossiê. Chama-se Suprim (Sistema de Controle de Suprimento de Fundos). Registra, eletronicamente, as despesas feitas com cartões de crédito corporativos e com verbas destinadas a suprir pequenos gastos da presidência da República;

2. Segundo a ministra, a base de dados do Suprim começou a ser alimentada em 2005, “por recomendação do TCU”. No ano seguinte, o tribunal teria pedido, por meio do acórdão 230, que o arquivo eletrônico retroagisse ao período FHC. “O TCU aprovou o banco de dados e pediu um recuo para 2002”, disse Dilma;

3. Diante da suposta determinação, Dilma diz ter ordenado à sua secretária-executiva, Erenice Alves Guerra, que cumprisse “tudo o que Tribunal de Contas pedir". Por isso não vê razões para demitir Erenice, apontada como autora da ordem que resultou na elaboração do dossiê. É nesse ponto que a versão da ministra começa a fazer água;

4. O signatário do blog obteve cópia do acórdão 230, citada por Dilma. Pode-se lê-lo clicando aqui. É datado de 22 de fevereiro de 2006, dia em que foi aprovado pelos ministros do TCU. Traz o resultado de uma auditoria nos cartões de crédito da presidência da República. Cobre o período de setembro de 2002, quando os cartões começaram a ser usados, ainda sob FHC, a julho de 2005, já sob Lula;

5. Percorrendo-se o texto, descobre-se que o Suprim é festejado pelos auditores do TCU não como o atendimento a uma exigência do tribunal, mas como uma “iniciativa do próprio gestor”, a Secretaria de Administração da Casa Civil. “Houve um nítido aprimoramento dos controles internos sobre a gestão dos cartões de pagamento”, anota o relatório;

6. Não há no documento do TCU uma mísera menção à necessidade de recuar os arquivos eletrônicos à gestão FHC. Na parte em que relaciona as recomendações que julgou conveniente fazer ao Planalto, o relator do processo, ministro Ubiratan Aguiar, escreveu: “Há que salientar que algumas questões abordadas no relatório dispensaram a formulação de proposta de encaminhamento, tendo em vista as providências já adotadas” pela Casa Civil. “Com destaque para o desenvolvimento do Sistema de Suprimento de Fundos, o Suprim”, fez questão de realçar o ministro;

7. Ou seja, diferentemente do que afirma Dilma Rousseff, a criação do “banco de dados” não foi determinada pelo TCU. Tampouco partiu do tribunal qualquer pedido para que os dados da era FHC fossem adicionados ao "banco de dados" da Casa Civil. Deve-se o par de providências à exclusiva deliberação da pasta gerida por Dilma;

8. A equipe de auditores do TCU encontrou um Suprim já em franca implantação. A coisa já estava automatizada. Os auditores descreveram a novidade em seu relatório: “A alimentação do sistema é descentralizada, iniciando-se pelo próprio portador do cartão e complementado com informações específicas pelos setores competentes da Secretaria de Administração” da Casa Civil. Já estavam cadastrados, àquela altura, todos os gastos de 2004 e as despesas relativas aos meses de janeiro a julho de 2005. Fez-se menção à coleta retroativa de dados. Mas o o Planalto pretendia recuar recuar só até o primeiro ano da administração Lula: “Relativamente a 2003”, informa o relatório do TCU, “os processos estavam sendo primeiramente desmembrados por portador, para que, então, pudessem ser lançados segundo o padrão adotado pelo sistema.”

9. A ausência de menções ao período FHC deixa evidente que, até a conclusão do trabalho do TCU, dois anos e três meses atrás, a Casa Civil de Dilma não esboçara a menor intenção de levar ao novo “banco de dados” as despesas realizadas na gestão do antecessor de Lula. Uma idéia que só ocorreu ao Planalto nos primeiros dias de fevereiro de 2008, uma fase em que a proposta de criação da CPI dos Cartões já estava pendurada nas manchetes dos jornais;

10. Resta a bruma de mistério. Há na praça uma planilha de computador que contém, esparramadas em 13 folhas, 295 despesas atribuídas a FHC, a Ruth Cardoso e a funcionários que passaram pelo Planalto na gestão tucana. Dilma reconhece que os apontamentos foram extraídos dos arquivos mantidos pela Casa Civil. O dossiê chegou ao Congresso, ganhou as páginas de Veja e tomou conta do noticiário. Como documento com pernas é algo que não existe, ficam no ar as perguntas: como os dados saltaram para fora do "banco de dados" da Casa Civil? Quem vazou as informações? Por ordem de Dilma, abriu-se, em 22 de março, uma sindicância para tentar responder às perguntas.

11. Há, porém, uma outra indagação que a ministra pode responder sem a necessidade de esperar pela sindicância: Por que a Casa Civil decidiu remexer a papelada da era FHC?

12. A pedido do TCU, como já restou demonstrado, não foi. Os auditores foram cavar os dados relativos a 2002, o último ano de FHC, nos computadores do Siafi, sistema eletrônico que armazena todos os gastos do governo. A propósito, o TCU informa em seu relatório que, no período coberto pela auditoria –2002 a 2005— “não se constatou a aquisição de bens ou o fornecimento de serviços de caráter estritamente pessoal”. Ressalva, porém, que não foram analisados os “gastos com alimentação, higiene, cerimonial e outros empregados em eventos sociais.”

Escrito por Josias de Souza às 00h15



Marco Aurélio - Zero Hora - Porto Alegre (RS)

Classe média paga por ano 146 dias de imposto - JB online - link (aqui)



Ludmilla Totinick, JB Online

RIO - A classe média brasileira vai trabalhar 146 dias este ano só para pagar impostos. Isso quer dizer que ainda faltam 57 dias de trabalho para que a dívida seja quitada com o governo, isso desde o dia 2 de janeiro, calculados sem um único dia de folga até hoje.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT), é considerada classe média a família com renda mensal entre R$ 3 mil e R$ 10 mil. São cerca de 8 milhões de famílias, aproximadamente 32 milhões de pessoas, ou 18% da população brasileira. Segundo o presidente do IBPT, Gilberto Luiz do Amaral, a classe média representa 50% dos pagantes de impostos do país.

– É comum no mundo inteiro que a classe média seja a grande fatia no pagamento de tributos – lembra Amaral. – Porém, no Brasil, além dos altos tributos, essa fatia da população também paga por segurança privada, escola particular, plano de saúde. Ou seja, o governo retira cada vez mais o poder aquisitivo da classe média brasileira.

Em média, as famílias gastam 56% do que ganham só com tributos (40%) e serviços (16%).

Segundo Amaral, a classe média também é responsável por grande parte do consumo no país, que chegou a R$ 1,55 trilhão e ajudou o Produto Interno Bruto (PIB) a bater 5,4% no ano passado.

A classe média representa 60% da arrecadação do Imposto de Renda e 50% do consumo dos shoppings. Nos supermercados, representa 40% dos consumidores e 60% dos clientes dos planos de saúde e escolas particulares.

A advogada Maria Rachel Coelho Pereira, 38 anos, considera a classe média é muito heterogênea. Para reforçar a renda familiar, dá aulas em duas universidades e cursos preparatórios para concursos. A rotina inclui mais de 10 horas de trabalho por dia e sábados sem folga. Carioca, moradora de Botafogo, sempre administrou o trabalho com a educação do único filho de 14 anos, que cria sozinha.

Subdivisões

Pelo novo critério padrão de classificação econômica da Associação Brasileira de Estudos Populacionais, são oito classes em uma, cujas rendas variam de R$ 276,70 a R$ 9.733,47.

Entretanto, pelo estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que utiliza o critério da empregabilidade, a classe média representa 31,7% das famílias brasileiras o que equivale a 15,4 milhões de famílias. De acordo com o presidente do Instituto, Marcio Pochmann, a classe média não pode ser conceituada só pela base salarial.

– São padrões de consumo diferentes – ressalta Pochmann. – Nos últimos dois anos, tivemos um crescimento no âmbito da construção civil, mas não temos profissionais especializados para ocupar as vagas. Fico preocupado com o grande número de exportações de bens de consumo de baixo valor agregado que constrangem a expansão da mão-de-obra.

Pochmann fez questão de lembrar que a classe média ficou estagnada até os anos 30, depois cresceu até 1980, mas a partir daí começou a declinar. Nos anos 90, com as reformas implantadas no governo Collor e aprofundadas no governo Fernando Henrique, empobreceu mais.

A classe média perdeu poder aquisitivo porque as indústrias não investiram e, em 1990, com os juros extremamente altos, fábricas foram fechadas ou vendidas para o capital estrangeiro. A renda encolheu, assim como o número de empregos.

Para o Ipea, a classe média baixa representava 41,2%. Quatro décadas depois, aumentou para 54,1%. A média classe média empobreceu, composta de técnicos científicos, de pessoas que ocupam os cargos-chave da burocracia pública e professores universitários, e passou de 38,6% para 23,1% , em 2000. A média alta, cujo perfil é de executivos, gerentes e administradores, ficou estagnada. Professores que dão aula até o 2º grau, pequenos lojistas e vendedores fazem parte da classe média baixa.

Segundo o pesquisador do Ipea Ricardo Amorim, a grande curiosidade foi a diminuição dos gastos da classe média por causa do empobrecimento sofrido.

– Os dados comprovam que houve corte dos gastos e aumento dos imprescindíveis, como habitação, transporte e educação.

O advogado tributarista Rubens Branco diz que a classe média é a grande responsável pela arrecadação do Imposto de Renda. Paga de 15% a 27,5% ao Leão, além de todos os tributos indiretos.

O consultor e terapeuta financeiro Reinaldo Domingos diz que a classe média é a mais empregada do país e por isso é a que mais paga impostos.

– Virou vítima, por ficar descolada dos pobres e dos ricos – disse Reinaldo – Além dos tributos indiretos, paga pelos serviços.

Amorim - Correio do Povo - Porto Alegre (RS)

DEM denuncia Lula por campanha fora de época - JB online - link (aqui)


Partido aponta uso de dinheiro público para ataques

Luiz Orlando Carneiro

BRASÍLIA

O advogado Admar Gonzaga, do DEM, deve ajuizar, amanhã, no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), representação para abertura de investigação judicial contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por uso indevido de palanques, em cerimônias oficiais, para fazer propaganda eleitoral camuflada com vistas ao pleito municipal de outubro. De acordo com a legislação e normas específicas, a propaganda eleitoral deste ano só será permitida a partir de 6 de julho.

O advogado contratado pelo partido oposicionista disse ao JB que já tem esboçada a petição (com pedido de liminar) à qual dará forma final neste fim de semana. Segundo Admar Gonzaga, o presidente Lula tem aproveitado solenidades de lançamentos de obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) para atacar, sistematicamente, os que lhe fazem oposição, muitas vezes na companhia de políticos pré-candidatos às eleições de outubro próximo, como ocorreu em Fortaleza, no dia 28 de fevereiro, quando fez pronunciamento de conteúdo eminentemente político, num estádio, ao lado da prefeita Luizianne Lins (PT), que vai concorrer à reeleição.

– Estamos assistindo à utilização da máquina pública para a promoção de aliados e para ataques contundentes à oposição – afirma o advogado do DEM. – Além disso, sentido-se solto para prosseguir no descumprimento da legislação eleitoral, já se vê o palanque montado, com dinheiro público, a pretexto de lançamento do programa "Territórios da cidadania" em variados lugares, para o lançamento de candidatura presidencial para 2010.

E conclui: "A ilegalidade da atuação é flagrante e esbarra em diversos dispositivos da legislação, que vai da propaganda eleitoral antecipada, passa pelo abuso do poder político e chega àquilo que a Lei 11.300/06 consignou como conduta de alta gravidade, qual seja, a distribuição gratuita de benefícios pela administração pública em ano eleitoral".

A Lei 11.300 tornou mais rígidas as regras da chamada Lei Eleitoral (9.504/97), e o advogado refere-se ao dispositivo que proíbe, em ano eleitoral, a distribuição gratuita de bens, valores ou benefícios por parte da administração pública, "exceto nos casos de calamidade pública ou de programas sociais autorizados em lei".

Para o advogado do DEM, está havendo uma "congregação" de programas diversos no chamado PAC, com objetivos "nitidamente eleitoreiros".



Myrris - A Crítica - Manaus (AM)

Planalto vai tirar Dilma de vitrine eleitoral para abafar crise do dossiê - Estadão online - link (aqui)


Avaliação do governo é que excessiva exposição da ministra foi um erro que atiçou oposição e fogo amigo do PT

Vera Rosa

Com o argumento de que a Casa Civil virou alvo de acirrada disputa política, o governo vai tirar a ministra Dilma Rousseff da vitrine eleitoral até a temperatura da CPI dos Cartões baixar. No Palácio do Planalto, há certeza de que a excessiva exposição da chefe da Casa Civil - favorita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para a sua própria sucessão, em 2010 - "foi um erro" que provocou não apenas a fúria da oposição como o fogo amigo nas fileiras do PT. O esforço do governo, agora, é para blindar a "mãe do PAC".

Dilma manterá sua agenda de viagens para inaugurar obras do Programa de Aceleração do Crescimento, mas vai reduzir sua participação em encontros político-partidários e em reuniões relacionadas a disputas municipais. Cumprindo o cronograma técnico do PAC, ela estará amanhã no Rio, ao lado de Lula. Na sexta, também com o presidente, participará de evento da Petrobrás em Rio Grande (RS) e, depois, seguirá para Porto Alegre. No fim de abril, Dilma irá a Tóquio, onde cobrará reciprocidade do Japão nos negócios com o Brasil.

Além desse recuo estratégico, o Planalto deve encontrar alguém para punir exemplarmente no caso do vazamento do dossiê sobre gastos no governo Fernando Henrique (1998-2002). Mas não será Dilma. Por enquanto, a retórica oficial é a de que "não há cabeças a cortar". O desfecho, porém, pode não ser assim: Lula já foi informado de que virá "chumbo grosso" na CPI e o governo quer agir rápido para neutralizar os ataques do PSDB e do DEM. Se a situação piorar, a sindicância interna na Casa Civil terminará em guilhotina.

Depois que a CPI aprovou requerimento solicitando informações sobre gastos dos últimos dez anos com cartões corporativos, operações em cheque ou dinheiro vivo, o núcleo do governo vasculhou novamente as despesas. A conclusão foi de que haverá "farto material" de confronto daqui para a frente. Motivo: circulam no Planalto rumores de que mais ministros cometeram "deslizes" com dinheiro público, como pagamento de almoços e jantares. A prática também alvejaria auxiliares de FHC.

Embora Lula e colaboradores neguem a existência do dossiê - admitindo apenas a organização de um "banco de dados" -, o governo montou há tempos uma operação para reagir à esperada ofensiva de adversários na CPI dos Cartões (veja quadro ao lado). Desde fevereiro, como revelou o Estado, ministérios e repartições da administração direta foram orientados a revirar gastos com suprimentos de fundos (cartões corporativos e contas tipo B) tanto na gestão Lula como na de FHC.

O Planalto sempre quis comparar os dados, na tentativa de mostrar que o governo Lula não cometeu pecados nem caprichou nos gastos excêntricos. "Antes, servia-se vinho importado no Palácio da Alvorada. Hoje, a ordem do presidente é servir vinhos nacionais, e o último que vi lá foi da Casa Valduga", disse um ministro habituado a freqüentar o Alvorada.

Conhecida por manter a cabeça fria na crise, Dilma bate na tecla de que todas as acusações, até agora, são uma tentativa de "escandalizar o nada". Na sexta-feira, ela conversou com a secretária-executiva da Casa Civil, Erenice Guerra, e tranqüilizou-a. Erenice garante que não pediu a nenhum servidor para "pinçar dados" sobre despesas específicas do governo FHC.

Apesar de ter tomado gosto pela política, a chefe da Casa Civil avalia que é hora de se resguardar e deixar a pré-candidatura para 2010 na prateleira. Na prática, tenta se proteger do vendaval provocado pelo dossiê anti-tucano. Sabe que os parlamentares a acusam de não ter jogo de cintura e tem muitos desafetos não só na oposição como na base aliada. Além disso, seus companheiros no PT reclamam de perseguição a petistas no governo. Pior: prometem aumentar o tom da chiadeira.

Fernando - Jornal da Cidade - Bauru (SP)

Detalhes contradizem versão "banco de dados" - Folha de São Paulo - link (aqui)



Relatório feito pela Casa Civil destacou informações fora do padrão, como nome do funcionário que autorizava gastos em 1998

Ordem para montar dossiê foi dada em fevereiro, pela secretária-executiva da pasta, quando a CPI nem sequer havia sido instalada

MARTA SALOMON
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Detalhes do dossiê sobre gastos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso preparado pela Casa Civil contradizem a versão oficial de que o governo se limitava, de forma burocrática, a organizar dados para alimentar o Suprim, o sistema de controle de suprimento de fundos da Presidência.
O relatório de 13 páginas -cuja autoria foi reconhecida pela Casa Civil- mostra a seleção de informações bastante diferentes do padrão de dados lançados no Suprim e estranhas a um trabalho definido como um "instrumento de gestão", sem viés político.
Numa das páginas, a coluna "observações" do relatório anota o nome do funcionário que autorizava gastos no Palácio Planalto em 1998, como uma possível sugestão a que fosse convocado a depor na CPI dos Cartões. A Casa Civil não encontrou justificativa para isso. Tampouco para, ao lado do registro da compra de 180 garrafas de champanhe, observar que parte da nota, no valor de R$ 2.250, foi paga pelo comitê da campanha de reeleição.
Os dados foram recuperados de processos de prestação de contas de gastos da gestão FHC guardados em arquivo morto, num dos prédios anexos ao Planalto. Um trabalho "descomunal", segundo relato de quem participou da empreitada.
O principal inimigo da versão do Planalto é a ausência de determinação ou pedido formal para o manuseio ou organização das despesas da administração tucana, conforme a Folha mostrou.
O primeiro argumento a ruir foi a suposta recomendação do TCU (Tribunal de Contas da União) para que o governo incluísse os gastos de 1998 a 2002 no sistema de controle de dados. Não há nenhuma recomendação formal do tribunal nesse sentido. Apenas uma sugestão, feita em acórdão de 2004, de maior controle nos gastos com cartões corporativos. Na ocasião, o tribunal criticou saques em dinheiro, em valores expressivos, nos cartões da Presidência sob Lula.
A Folha apurou que não havia movimentação no Planalto para organizar os processos anteriores a 2003 até o governo verificar que não conseguiria barrar investigação sobre os gastos de Lula no Congresso.
A ordem para organizar a base de dados foi dada pela secretária-executiva da Casa Civil, Erenice Guerra, na primeira quinzena de fevereiro, quando a CPI nem sequer havia sido instalada. Mais do que uma decisão burocrática, tratou-se, no mínimo, de uma ação politicamente "preventiva".
Por pressão dos aliados governistas, o plano de trabalho da comissão definiu como objetivo "investigar as possíveis irregularidades" nos gastos "desde 1998". Mas o único requerimento de informações aprovado até agora não trata de gastos da Presidência.
A extrema desorganização dos processos de prestação de contas dos gastos no segundo mandato de FHC e problemas tecnológicos foram motivos apontados pela Casa Civil para criar um banco de dados paralelo ao Suprim, num trabalho preliminar de digitação, cujo resultado seria revisto e incluído na base oficial do Suprim.
Esse banco de dados paralelo deu origem ao relatório, que o governo nega ser um dossiê.
Nos últimos dias, um único argumento parece fazer sentido: o de que faltava, no documento, munição para ferir a oposição, como se esperaria de um dossiê. Que dano poderia causar a revelação de gasto de R$ 30 com pagamento de gorjeta a funcionários de um hotel em Porto Alegre ou da compra, por R$ 16, de creme de leite?


Sinfrônio - Diário do Nordeste - Fortaleza (CE)

Elio Gaspari - Folha de São paulo - link (aqui)



COMISSÁRIA DILMA


Quem ouviu a ministra Dilma Rousseff no jantar do Iedi de 20 de fevereiro, numa sala reservada do restaurante DOM, em São Paulo, não teve a menor dúvida: ela informou que o governo estava coletando dados para incriminar o governo de FFHH na farra dos cartões corporativos.
Como já se passou mais de um mês, não é possível assegurar qual foi a palavra exata da comissária. Pode ter sido "coletando", "juntando" ou "levantando". O tom era policial. Quando Dilma mostrou seus poderes aos 30 industriais reunidos no DOM, a companheira Erenice Alves Guerra já havia reunido sua tropa de elite no Palácio do Planalto.

Pancho - Gazeta do povo - Curitiba (PR)

Janio de Freitas - Folha de São Paulo - link (aqui)




O dossiê da maternidade

"Ferramenta de gestão" não quer dizer nada; o que saiu da Presidência para divulgação é, sim, o que se chama de dossiê

A MATERNIDADE recente é causa comum de vários problemas, e a ministra Dilma Rousseff, mãe do PAC de que Lula é o pai indeclarado mas óbvio, tem aí um diagnóstico para as perturbações que a acometem. Bem maiores do que a intromissão em gastos alheios. A casa de Dilma, que chamam de Casa Civil, está em desordem lastimável, relegada pela dona tomada de repentina mania de passar o tempo nas praças e solenidades. É difícil saber se mais revelador da atual Casa Civil é o vazamento mal intencionado do tal dossiê ou a menos falada, e não menos grave, remessa ao Congresso de medida provisória que é plágio integral do projeto de um deputado. A lucidez foi-se nas perturbações pós-maternidade.
A oposição não tem gerado rebentos de espécie alguma, limitada a uma discurseira estéril. Em sua permanência nas preliminares, não se deu conta sequer de que a gravidade do tal dossiê não está em que o Planalto levante e organize gastos de Fernando Henrique e Ruth Cardoso. Nem mesmo vem da divulgação em si de pequena parte desses dados, porque gastos de governo devem ser de conhecimento público. A gravidade está em que, de um levantamento talvez útil, os gastos pinçados e divulgados o foram com o propósito de intervenção velada do governo em uma comissão de inquérito do Congresso. Para assim inibir a busca parlamentar dos gastos de Lula e familiares. E essa operação perturbadora, de fins políticos e anti-éticos, foi feita na própria Presidência da República.
Dilma Rousseff e os governistas atribuem a má-fé da imprensa, em particular da Folha e de "Veja", às referências a dossiê. Para contestá-lo, de início disseram ser um levantamento pedido pelo Tribunal de Contas da União. Constatado haver apenas uma sugestão do TCU para menos precária organização de dados da Presidência da República, a explicação passou a ser os preparativos para atender à CPI, cuja criação refere-se ao uso de cartões e da conta B (gastos em dinheiro) dos últimos dez anos. Agora, nota oficial da Casa Civil, com a dona-de-casa em viagem pelo Nordeste, pretende que o levantamento dos gastos "trata-se de uma ferramenta de gestão".
Ocorre que "ferramenta de gestão" não quer dizer nada. É só uma expressão de burocratas e tecnocratas iletrados. Dossiê diz. Todos sabemos ser um conjunto de informações ou documentações que têm alguma ligação entre si. O que saiu da Presidência da República para divulgação é, sim, o que se chama de dossiê.
A recusa à denominação quer negar o propósito. Mas retrata também a perturbação da trabalhosa maternidade recente, Brasil afora ao som de cada discurso mais tresloucado que o anterior, e da também perturbadora condição de já candidata a Mãe do Ano de 2010. Algumas palavras que nunca se suporia ouvir de Dilma Rousseff:
"Se estão interessados em apurar mais profundamente esse episódio [do dossiê], seria importante que aqueles que divulgaram informações que constam de um banco de dados da Casa Civil viessem a público e assumissem quem recebeu aqueles documentos, aquelas páginas".

Pois é, quem recebeu, e não quem entregou, é que teria de vir a público para assumir não sei o quê. De tal modo que o auxiliar de Dilma Rousseff que selecionou os dados e aquele que os entregou a um repórter continuassem anônimos. O que está aí não é só a inversão de responsabilidades e o abandono da lucidez. É a adesão a práticas de regimes em que a inculpação e a inocentação distribuíram-se segundo a conveniência do poder, ou de um poderoso.
E quem será o chamado a assumir a responsabilidade pela medida provisória plagiadora? O deputado Asdrubal Bentes, que apresentou o projeto com o texto original no ano passado, e não o funcionário que o copiou na íntegra, talvez no Ministério do Desenvolvimento Agrário, e a Casa Civil que o recebeu, aprovou, deu à assinatura de Lula e o mandou à Câmara, para entrada imediata em vigor? Note-se ainda que Lula se comprometera a não enviar MPs senão em caso de relevância e urgência, para evitar decisões do Congresso que as limitem mesmo ao permitido pela Constituição.
O jornalismo agradece a divulgação de gastos presidenciais, ainda que só do passado, mas a operação palaciana que a executou é repugnante. O plágio da MP, por sua vez, é só uma clara radiografia do comando do governo.

Lute - Hoje em Dia - Belo Horizonte (MG)

Renata Lo Prete -Painel - Folha de São Paulo - link (aqui)


Procura-se.
No momento, todo o empenho do Palácio do Planalto está voltado para identificar um "funcionário de carreira", supostamente ligado ao tucanato, que teria se apoderado da "base de dados" sobre despesas com cartões corporativos e contas tipo B e jogado nas mãos de parlamentares da oposição. Tudo "para simular a existência" de um dossiê contra FHC.

Estado bruto. A explicação dos governistas para o linguajar informal ("dona Ruth", "uiscão") e a falta de seqüência cronológica nos dados lançados nas planilhas de gastos do período FHC é que se tratava de material de rascunho, que ainda seria digitado para compor a "base de dados" sobre suprimento de fundos.

Ronaldo - Jornal do Commercio - Recife (PE)

Eliane Cantanhêde - Folha de São Paulo - link (aqui)



Neo-aloprados

BRASÍLIA - Por que Serra, favorito nas pesquisas para a Presidência, e Aécio, que corre atrás do prejuízo, nunca batem de frente e nem mesmo criticam Lula, como fazem adversários em qualquer lugar do mundo? Porque têm quilos de pesquisas mostrando que seria burrice, murro em ponta de faca. Com toda sua popularidade e marketing, Lula é uma faca afiada.
Waldomiro Diniz, faz-tudo de Dirceu e Mercadante nas boas CPIs (contra os outros), foi filmado pedindo algum para bicheiro quando tinha gabinete no Planalto.
Dirceu enroscou-se todo no mensalão que comprava apoio dos "aliados" e caiu do governo, do mandato de senador e do sonho de ser presidenciável um dia. Palocci, que virou ídolo nacional ao seguir à risca a cartilha Malan de estabilidade, ficou desconfortável com as histórias da sua turma em Ribeirão Preto e confortável violando contas alheias. Foi varrido da Fazenda pelo caseiro Francenildo.
Mercadante ficou mal com o dossiê que não era dossiê, mas foi comprado por uma fortuna em dinheiro vivo para atacar tucanos em 2006. Lula chamou os culpados de "aloprados". Mercadante sumiu do mapa do primeiro time político.
E o que aconteceu com Lula? Primeiro, ficou deprimido. Depois, irritado, xingou seus ministros, assessores, amigos e o churrasqueiro.
Nunca sabia de nada e livrou-se rapidinho de um a um. Reeleito, acaba de bater em 58% de aprovação na pesquisa CNI-Ibope e não pára de falar besteiras: ironiza o "meu velho Bush", acusa PSDB e DEM de "destilarem ódio" e diz que a oposição "pode tirar o cavalinho da chuva", porque sua sucessão está no papo.
Um dossiê ou um(a) aloprado(a) a mais ou a menos são fichinha, e Lula não está nem aí. Se, mesmo assim, Dilma Rousseff não resistir, não faz a menor diferença no governo. Saiu um, entra outro. O problema é sair Dilma e voltar a tese da re-reeleição em 2010. Duvida?


Paixão - Gazeta do Povo - Curitiba (PR)

Clóvis Rossi - Folha de São Paulo - link (aqui)



Quem se rende ganha

SÃO PAULO - O presidente Lula fez anteontem uma incompleta descrição de como foi a "metamorfose" de que ele seria uma manifestação "ambulante". Disse que, ao chegar ao poder, precisou "construir alianças, parcerias, para diminuir os ímpetos daqueles que não se conformam com a ascensão dos pobres".
É uma maneira pouco precisa de se referir ao fato de que jogou no lixo o que ele próprio definiu como "bravatas", mais precisamente tudo o que pregava até ser eleito. Ou, se se preferir seu mais fiel amigo, o assessor especial Marco Aurélio Garcia, o comando da economia foi entregue a "conservadores, pessoas com vínculos históricos com círculos financeiros, com o aparato econômico de governos anteriores" (depoimento para duas jornalistas inglesas em livro sobre a crise do mensalão de 2005).
Seja qual for o juízo de valor que se faça sobre a "metamorfose", o fato é que dá resultados, especialmente à luz do que está acontecendo em países vizinhos.
Todos os presidentes que se mantiveram fiéis ao "script" original e não se renderam aos conservadores estão tendo ou tiveram problemas mais ou menos sérios de governabilidade. Refiro-me ao casal Kirchner, a Evo Morales e a Hugo Chávez. Nem estou emitindo juízo de valor sobre o "script" original. Só descrevendo fatos.
Falta entrar na roda apenas o equatoriano Rafael Correa, talvez por falta de tempo, talvez por outro fator qualquer.
Note-se que o nicaragüense Daniel Ortega, que já foi o mais revolucionário de todos os citados, rendeu-se a uma aliança com gente que Ciro Gomes não se contentaria em chamar apenas de "escória", tal o nível próximo do esgoto. E está, até agora, também tranqüilo.
Posto de outra forma: a governabilidade passa hoje mais pelos mercados que pelos partidos/Parlamentos/quartéis.

Charge do dia


Jacobsen - Folha de Londrina - Londrina (PR)

Comercial antigo - Margarina Nova Saúde

Sinopse dos principais jornais - link (aqui)


sala de leitura




Manchetes:


Jornal do Brasil - Classe média paga por ano 146 dias de imposto

Folha de São Paulo - Marta sobe e divide liderança com Ackimin

O Estado de São Paulo - Planalto vai tirar Dilma da vitrine eleitoral

O Globo - O tribunal do tráfico em ação

Correio Brasiliense - Estratégia para blindar Dilma