
The Water Nymph - Oil on canvas ( 1923 )
da mesa de um bar, a palavra, a prosa e a poesia
O almirante Faria Lima, governador do Rio, foi convidado para um Congresso de Engenharia Sanitária, em Manaus. Foi, participou da sessão solene de inauguração. No dia seguinte, deu entrevista lá mesmo:
- Não acredito em congressos e encontros semelhantes. Esses técnicos só falam e, além de não apresentarem solução para os problemas, nunca dizem onde está o dinheiro para seus planos e projetos. Atrás deles, sempre há alguém ou alguma organização que eles representam e nunca revelam.
Havia um passeio para ver o desmatamento da Amazônia, muito denunciado no congresso. O governador não foi. Preferiu ficar no hotel. Perguntaram-lhe sobre os contratos de risco do governo para tirar madeira. - Para desmatar, não é preciso contrato de risco nenhum. No Rio, queimaram tudo e não foi preciso contrato de risco nenhum. O que é preciso é saber, sempre, quais são os interesses atrás dessa conversa toda.
Em 24 de abril, escrevi aqui sobre o conflito, em Roraima, em torno da reserva indígena Raposa-Serra do Sol, mostrando que Roraima é uma região riquíssima em minérios, terra feita de ouro, diamantes, e que não se tratava de uma simples disputa entre 18 mil índios e seis arrozeiros (plantadores de arroz) por um pedaço da floresta, mas de uma briga pelo que está embaixo do chão, uma verdadeira "Raposa Mineral".
Recebi do brilhante general Durval de Andrade Nery (da reserva do Exercito, além de baiano e primo), dirigente do Cebres (Centro Brasileiro de Estudos Estratégicos), um estudo sobre "A Amazônia cobiçada e ameaçada", que é um verdadeiro "ABC da Amazônia". Lá ele diz:
1 - "A Amazônia brasileira mede aproximadamente 4 milhões de km2 e se estende pelos estados do Acre, Amazonas, Roraima, Pará, Amapá, e parte dos estados de Rondônia, Mato Grosso e Tocantins. Ocupa 50% do território brasileiro. Se constituísse um país à parte, a Amazônia seria o sexto do mundo, cabendo em seu interior metade do continente europeu".
2 - "Vivem na Amazônia cerca de 145.000 índios de 210 etnias diferentes. Os territórios da Alemanha, Espanha, Portugal e Bélgica somados reúnem espaço similar, abrigando, no entanto, 125 milhões de habitantes, o que é uma primeira amostra de quão estranha e equivocada é a nossa política indigenista, que precisa urgentemente ser repensada".
3 - "A Amazônia é região de floresta tropical primária, praticamente virgem. Apenas 8% da sua superfície foram expostos à ação antrópica, quer dizer, sua vegetação primária retirada e substituída por outra natural. Esta, por sinal, só avança 0,2%. Nos 300.000 km2 alterados pelo homem acham-se incluídos 150.000 km2 de cidades, fazendas, etc.".
4 - "Os dados disponíveis comprovam a vocação mineral da Amazônia. Já foram localizados cinturões de rochas verdes nos quatro cantos da região. Essas seqüências fornecem pistas seguras sobre a presença do ouro nas rochas mais antigas do continente sul-americano: 2 milhões de km2 e formadas por mais de 200 chaminés vulcânicas".
5 - "Calculou-se, em 1986, que se poderiam extrair, de depósitos secundários, mais de 15 mil toneladas de ouro puro, que na época valiam 200 bilhões de dólares e equivaliam a 32% das reservas medidas do planeta. Essa a razão pela qual, no início do governo Collor, os japoneses propuseram a troca da dívida externa brasileira pelo ouro da Amazônia".
6 - "Só recentemente começaram a aparecer os depósitos primários do metal, localizados pela Vale do Rio Doce na província mineral de Carajás, que, por sinal, ocupa uma área cortada por seqüências de `cinturões de rochas verdes'. Mais recentemente, a Anglo American, mineradora sul-africana, encontrou grande depósito primário no Amapá, nas vizinhanças da Serra do Navio, onde o Grupo Antunes, testa-de-ferro de empresas norte-americanas e japonesas, esgotou uma grande jazida de manganês que, no futuro, poderá fazer falta ao Brasil".
7 - "A margem esquerda do Amazonas, do rio Negro até o Jari, revelou-se o maior depósito primário de cassiterita do País. As rochas da mina de Pitinga são também hospedeiras de ouro, nióbio, tântalo, zircônio, ítrio e criolita, flúor usado como fundente na eletrólise do alumínio".
8 - "As `chaminés' vulcânicas dos `escudos' amazônicos são mais de 200. Só três foram submetidas a pesquisa. O morro dos Sete Lagos, no município de São Gabriel da Cachoeira (AM), é o maior depósito de nióbio do mundo, e ainda com óxidos e carbonatos de ferro, manganês, titânio, apatita, barita, fluorita, wolframita e minerais radioativos".
9 - "Outras duas `chaminés', localizadas no Baixo-Amazonas setentrional (PA), guardam mais de 2 bilhões de toneladas de anatásio, minério de titânio. Somadas essas reservas com as localizadas em Tapira (MG) e Catalão (GO), que totalizam 1 bilhão de toneladas, o Brasil desponta na liderança dos detentores de reservas de titânio".
10 - "Os `escudos' da Amazônia encerram a quarta maior reserva de cassiterita do planeta, a quinta de minério de ferro, além de quantidades apreciáveis de chumbo, cobre, cromo, diamante, lítio, manganês, molibdênio, pedras preciosas, prata, tântalo, tungstênio, zinco, zircônio e minerais radioativos, particularmente o tório".
O general Heleno, comandante da Amazônia, sabia bem por que falou.
Amanhã, quarta-feira, dia 30, Carlos Lacerda estaria completando 94 anos, nasceu em 1914. (Morreu em 1977, com 63 anos, um desperdício). Morreu cedo, havia começado cedo.
Mauro Magalhães, amigo e companheiro de Carlos Lacerda nos últimos tempos, principalmente depois do Carlos governador, lança livro sobre ele, na Livraria Argumento.
Não vi o livro, mas não gostei do título: "Carlos Lacerda, sonhador pragmático". Lacerda foi realista e não sonhador e de pragmático não tinha nada. Era um guerreiro de todas as guerras e em todas elas lutava pela paz. Isso é ser pragmático? E jamais sonhou por um minuto que fosse. Quem passa a vida na trincheira, não tem tempo ou vontade de sonhar. E sim de lutar.
Aos 21 anos já era considerado o maior orador do País. Em 1935, enquanto Prestes lançava as bases da Revolução Comunista, Carlos Lacerda e seus companheiros (quase todos da Marinha) preparavam o movimento da Aliança Nacional Libertadora. Que em 1945, com a derrubada da ditadura, se transformaria em União Democrática Nacional, a tão injustiçada UDN.
Como os dois movimentos foram lançados simultaneamente e no mesmo local, a confusão foi completa e absoluta. Tudo se realizou na Escola Nacional de Música, na rua do Passeio, um prédio histórico, hoje "tombado". (Ao seu lado, também "tombado", o Automóvel Clube do Brasil, onde no dia 28 de março de 1964 João Goulart pensava que estava implantando a "República Sindicalista", enquanto alguns generais, mancomunados, que palavra, com o general Vernon Walters, a própria CIA e mais o embaixador de Harvard, Lincoln Gordon, derrubavam o governo).
7 governadores que também conspiravam estranhamente, pois todos queriam eleições em 1965, já que eram candidatos à sucessão de Jango, cometeram o erro de suas vidas. Os 7 governadores: Ademar de Barros, SP, Magalhães Pinto, Minas, Lacerda, Guanabara, Brizola, que deixara há pouco o governo do Rio Grande do Sul, Miguel Arraes, de Pernambuco, Mauro Borges, de Goiás, Ney Braga, do Paraná. Alguns ainda tiveram tempo de aderirem e se salvarem, ou, perdão, acreditando que se salvavam.
Todos "viram" mal, analisaram pessimamente, não souberam concluir. O único que viu com clareza foi Rafael de Almeida Magalhães, candidato a deputado federal pela Arena. Lacerda queria levar Rafael para o MDB, pediu que eu fizesse um jantar para convencê-lo. Fiz, durou quase 24 horas. E Rafael disse a Lacerda com sabedoria: "Isso que está aí vai durar 20 anos e eu não quero perder minha carreira". Rafael queria ser presidente (como este repórter), tinha credenciais, mas perdeu as oportunidades. Até hoje ainda não entendeu por que não foi presidente. (Eu entendi logo em 1966, quando fui cassado, seqüestrado, perseguido, capturado, destroçado).
Poderia falar ou escrever indefinidamente sobre Lacerda, principalmente os 10 dias em que estivemos presos no AI-5. Lacerda saiu antes, fiquei mais 16 dias com as companhias excelentes de Mario Lago e Osvaldo Peralva, então redator-chefe do Correio da Manhã.
Nesse dia 26 de julho de 1935 houve o tumulto-confusão que marcou para sempre a vida de Carlos Lacerda. Ele era de esquerda, como todos ou quase todos naquela época. Só que Lacerda me disse num dia de confissões na cadeia: "Helio, nunca fui comunista, da Juventude Comunista, ou do Socorro Vermelho, como tanta gente. Fui trotskista como quase todos, pois a opção era entre Trotski e Stalin, não havia qualquer dúvida".
De 1935 a 1975, durante 40 anos, Lacerda participou de tudo. E surpreendentemente morreria inesperadamente, 2 anos antes da anistia. E completamente fora de tudo, dedicado apenas à Nova Fronteira. E pensando, e não sonhando, com a presidência.
PS - Um dia, na prisão, eu disse a ele: "Agora, realizado, você largou tudo". E o furacão que era Lacerda reacendeu e me disse: "Helio, compreenda para sempre. Jamais deixarei de acreditar que ainda serei presidente".
