domingo, 29 de junho de 2008


Jacobsen - Folha de Londrina - Londrina (PR)

Dora Kramer - Estadão online - link (aqui)


Mais eleitoreiro é quem diz

O presidente Luiz Inácio da Silva é mesmo um homem de sorte. Não que houvesse alguma dúvida quanto a isso, mas, contar com uma oposição que apóia o abuso de poder ao arrepio da lei em pleno ambiente de disputa eleitoral, convenhamos, supera qualquer expectativa.

Na quarta-feira o governo anunciou aumento de 8% - bem acima dos 5,6% da inflação - no auxílio recebido pelos inscritos no programa Bolsa-Família, o carro-chefe da pragmática relação de amor entre Lula e o eleitorado.

A oposição olhou, lembrou que há três meses o então presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Marco Aurélio Mello, também ministro do Supremo Tribunal Federal, alertou que a legislação proibia o governo de distribuir benefícios em ano eleitoral e pensou em perguntar ao TSE se a medida estava em acordo com a lei.

Menos de 24 horas depois já havia resolvido a questão. "A medida é eleitoreira e cavilosa (fraudulenta)", apontou o líder do DEM no Senado, Agripino Maia, mas a oposição resolveu ficar quieta. Ou melhor, decidiu fazer uma demagogia básica.

Acusa o governo de usar a máquina do Estado para beneficiar seus candidatos a prefeito, não faz nada para impedir a concretização da ilegalidade e ainda posa de compreensiva dizendo que o "pobre não pode pagar a conta" pelo aumento da inflação.

A ponderação é do líder do partido na Câmara, deputado Antônio Carlos Magalhães Neto, cuja candidatura a prefeito de Salvador arrefeceu sobremaneira seu outrora sempre alerta ímpeto oposicionista.

O PSDB aderiu ao lema do tudo pelo eleitoral, condenando o aumento, mas subitamente benevolente em relação à prática do partido de fazer o combate sem trégua nos tribunais. Os tucanos resolveram apoiar, "compreender" as necessidades dos desvalidos, sem deixar, no entanto, de apontar o quanto o governo se aproveita dos instrumentos de poder.

Os partidos oposicionistas deixaram a Justiça falando sozinha e deram a Lula de presente uma espécie de bolsa-oposição. A partir de agora a qualquer insinuação de ato eleitoreiro, o presidente poderá desdenhar: sou eleitoreiro, mas sou feliz, mais eleitoreiro é quem me diz.

Estará coberto de razão. A justificativa dos oposicionistas seria ridícula não fosse um produto bem calculado. A inflação subiu não apenas para os beneficiários do Bolsa-Família. Subiu para todo mundo.

Além disso, se os oposicionistas admitem pôr a necessidade acima da legalidade, aceitam que os fins são submissos aos meios e tudo pode ser justificado, dependendo da circunstância. Sendo ela eleitoral, vale tudo para não parecer impopular.

Agora, francamente, só entre nós: se a oposição se apresenta como arremedo, se abre mão de defender o correto para se render ao eleitoralmente mais rentável, por que o eleitor trocaria o certo pelo duvidoso?

PESO E CONTRAPESO

O DEM não atingiu seu ideal de conseguir o apoio oficial do PSDB, mas na contagem de benefícios e prejuízos do qüiproquó da escolha de candidaturas à Prefeitura de São Paulo o partido acha que saiu no lucro.

Perdeu de um lado, compensou de outro.

Marta Suplicy e Geraldo Alckmin têm patrimônios muito mais fornidos. "Em compensação", considerando o zero como ponto de partida, Gilberto Kassab com seus 13% nas pesquisas até agora foi quem ganhou alguma coisa.

O PFL repaginado continua minguando a olhos vistos, "em compensação", conseguiu lugar em mesa de pista na eleição mais importante do País.

Kassab terá de suar para desbancar Alckmin e conquistar a vaga antes praticamente garantida no segundo turno. "Em compensação", prefere o ex-governador como antagonista oficial, trabalhando à luz do dia para ganhar, do que como oponente informal, empenhado no escuro para impor uma derrota ao candidato do adversário José Serra.

Já em meados de março, o próprio PSDB mais ardorosamente kassabista percebeu que bater de frente com Alckmin poderia ser briga perdida.

Na marra daria para ganhar. "Em compensação", ferida, a "cobra" (Alckmin) pularia sem parar. Como candidato, fica engessado.

Pode vencer. "Em compensação", como prefeito de São Paulo terá de apoiar a candidatura do governador do Estado para a Presidência da República em 2010 ou então explicar ao eleitorado paulista por que prefere um candidato de Minas.

Pode perder para o PT. "Em compensação", não poderá reclamar por ter sido preterido.

Pode perder para Kassab, vale dizer, para Serra. Em compensação, é homem de fé e sabe o quanto vale uma boa prece.


Duque - O Tempo - Belo Horizonte (MG)

Elio Gaspari - Folha de São Paulo - link (aqui)




O comissariado está destruindo o Ipea


O esquadrão petista trabalha com duas patrulhas: a ideológica esconde números e a funcional esconde pessoas

O COMISSARIADO petista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, o Ipea, está destruindo uma instituição sacrossanta surgida em 1964 e respeitada até mesmo pelas bruxas da ditadura. Fazem isso com a grosseria dos bolcheviques e os instintos manipuladores dos economistas de Néstor Kirchner. O último golpe da moçada foi a alteração da periodicidade da divulgação de projeções pela Carta de Conjuntura, uma publicação trimestral do instituto, criada em 1986.
Mais: embargaram a divulgação de projeções macroeconômicas que já haviam sido mandadas para a próxima publicação. Pior: mantiveram um cenário de previsão do aumento do consumo entre 3,3% e 5%, quando cálculos já fechados indicam que a expansão poderá ficar entre 6% e 8%. Esse texto foi reescrito por pessoas que se julgam detentoras da visão genial do problema. Isso tudo acontece sob o guarda-chuva do ministro Mangabeira Unger, que até bem pouco tempo trabalhava em Harvard, e do professor Márcio Pochmann, vindo da Unicamp.
Segundo o companheiro Miguel Bruno, que dirige a Carta, "o Ipea não quer alimentar especulações do mercado". Falso, o negócio é não provocar expectativas ruins na sociedade. Felizmente Bruno nunca operou no mercado, pois teria quebrado se esperasse dados do Ipea para fechar seus negócios. A turma do papelório dos bancos lida com projeções diárias muito mais refinadas. Além disso, o Banco Central produz e divulga análises de boa qualidade. O que o comissariado quer é brincar de felicidade.
Desse jeito, acabarão querendo orientar as pesquisas do IBGE. O mercado, ao contrário da roubalheira e do aparelhamento do Estado, é uma coisa essencialmente boa. Os países que seguiram sua dinâmica prosperaram. Os que tiveram idéia melhor, arruinaram-se.
Bruno foi além e disse que, "antes, o Ipea atuava em dobradinha com o mercado financeiro". O comissário precisa definir "antes", "Ipea" , "atuava" e "dobradinha". Até lá, fica no ar a desprimorosa suspeita de que o instituto esteve dominado por uma cáfila de especuladores.
Havendo "antes", há de haver "quem". Está acontecendo no Ipea algo mais grave e primitivo do que o velho e bom disfarce das notícias ruins. Estão encostados ex-diretores recentes e pesquisadores de renome internacional, como Ricardo Paes de Barros. Foi ele quem fez as contas que puseram de pé o Bolsa Família.
PB, como é conhecido, continua no Ipea por amor à camisa da Seleção, pois teve vários convites para saltar. Um deles, da Universidade de Yale. Num astucioso episódio, o economista Fábio Giambiagi foi defenestrado e devolvido ao BNDES. O Grupo de Conjuntura, onde se discutem tendências da economia, foi expurgado. Isso no campo do patrulhamento intelectual.
Há também patrulhas funcionais. Já ocorreu caso de transferência, pelo telefone, de um economista que tinha mais de 20 anos de experiência num setor. O diretor de estudos macroeconômicos, doutor João Sicsu, jamais pôs os pés num seminário (exceção para uma homenagem a Maria da Conceição Tavares). Ele pode estar certo ao não usar o sistema de mensagens eletrônicas do instituto, mas isso não ajuda o bom andamento dos trabalhos.
Com 300 economistas, o Ipea tornou-se uma instituição desorganizada, convertida em orquestra e platéia do egocentrismo de seu presidente que, do pódio, oferece refogados de pesquisas velhas com farofas novas, ao gosto do Planalto. Falta aos comissários a generosidade profissional de chefes recentes, como Roberto Martins, que contribuiu para o reconhecimento de Paes de Barros. Caso o doutor Pochmann queira seguir um exemplo, pode prestar atenção na conduta do presidente do IBGE, Eduardo Nunes.
Se as práticas do comissariado petista estivessem em vigor ao tempo da ditadura, teriam sido afogadas as carreiras de economistas como Pedro Malan, Edmar Bacha, Regis Bonelli e Claudio Moura Castro. Foi graças a eles que os futuros petistas aprenderam (se é que aprenderam) de onde viria a crise da economia do Milagre Brasileiro.

Lute - Hoje em Dia - Belo Horizonte (MG)

Janio de Freitas - Folha de São Paulo - link (aqui)



Do morro ao quartel


A "volta" é uma das chaves para a correta narrativa do episódio da morte dos três rapazes da Providência

AS DUAS SÉRIES de contradições, em depoimentos diferentes, do tenente responsável pelo caso no morro da Providência forçam a polícia e o Exército a pôr em suspenso a versão, aceita por ambos, para o episódio. Antes de tudo, porque as variadas narrativas para os mesmos pormenores sujeitam o restante, na conveniente versão inicial, a igual descrédito. Além disso, porque as contradições do tenente Vinicius Ghidetti proporcionaram, à sua revelia, indícios mais verossímeis.
O mais importante deles: apareceu a primeira referência a um tiro e a seu autor no grupo de militares. Ao alegar na nova versão o ataque de um grupo de moradores aos 11 militares, o tenente disse haver dispersado os agressores com um tiro para o alto. Até então, em sua narrativa não houvera agressões, nem moradores tentaram defender um revistado por suspeita de posse de droga ou arma. Apenas ocorrera desacato dos três rapazes, que voltavam de uma festa, e por isso a sua prisão e entrega a bandidos para "um castigo".
A primeira referência a tiro tem implicação maior que a de incômoda contradição. As armas dos 11 militares não foram recolhidas à parte em sua volta ao quartel, prática que deveria ser norma há muito tempo no Brasil de tantos tiroteios fatais e vítimas inocentes. Também não foi dada notícia de exame dos projéteis alojados nos corpos, indicadores do tipo de armamento e de outros dados sugestivos. Ou seja, a partir da conduta no quartel, tudo se desenvolveu erradamente, para a apuração dos limites de responsabilidade, e corretamente para a conveniência dos implicados e para a praxe militar de encobrir e salvaguardar os maus atos em seu meio.
Apesar disso, as contradições do tenente Ghidetti e o seu confessado tiro não eliminam a imediata lembrança que fazem de dois fatos deixados à margem. Um, é a distribuição de tiros: 26 em um dos rapazes, 19 em outro e apenas um no terceiro. Faz pensar, ao menos, na hipótese de uma ordem: morto o primeiro com um tiro, seja lá pelo que for, seguiu-se a criação de uma carnificina para mudar o enredo. O outro fato que a menção a tiro faz lembrar é a cena, narrada por uma das mães, de seu filho "caído ensanguentado" no quartel para onde o tenente Ghidetti levou os seus presos.
Não é menos curiosa, como desdobramento, a consulta do tenente (ainda no morro) a um capitão (no quartel), sobre o destino a ser dado aos rapazes e, em seguida, a desobediência à ordem de deixá-los no morro. Presos de um grupo que atacara os militares não sugerem consulta prévia para serem levados à prisão, até pela obviedade do que deve ocorrer a quem ataca sem motivo uma patrulha. E por que a preferência do tenente por desobedecer a ordem e levar os três para o quartel onde um deles, segundo sua mãe, foi visto "ensanguentado"?
Ou a disciplina está fraquejando no Exército, ou há mais a ser apurado nos contatos entre o capitão Leandro Ferrari e o tenente Ghidetti. Depois da desobediência que levou os rapazes para o quartel, o tenente, dizem os depoimentos, já estava instalado no caminhão quando recebeu nova ordem do capitão, para não "dar uma volta", como queria, com os presos. Mas, ao voltar, não recebeu represália alguma pelas seguidas desobediências, sendo afastado só depois de conhecido o assassinato dos seus presos.
A polícia já deduziu, ao menos, que o capitão Ferreira está sujeito a indiciamento, pela estranha atitude de não impedir a saída do tenente, depois da alegada proibição, para a tal "volta com os presos". A "volta" que é uma das chaves para a correta narrativa do episódio.
Noticia-se que a promotora Hevelize Covas, da Justiça Militar, não pretende reconstituição no morro da Providência, por considerar que a saída do Exército tornou a área perigosa. Mas quer fazê-la no morro da Mineira, onde os três rapazes teriam sido entregues a bandidos. Nesse caso, o perigo de um morro é ameaçador, e o perigo maior do outro não é. Reconstituição na Mineira? Se de verdade, é impossível. Os inquéritos não sabem nem onde foram os assassinatos, quanto mais como foram, para serem reconstituídos.
O perigo agora é outro. É a fácil solução de pegar uns dois ou três para bodes expiatórios -de preferência mortos, para que não revelem mais tarde os horrores até que se dissessem assassinos dos três rapazes.


Ique - Jornal do Brasil - Rio de Janeiro (RJ)

Clóvis Rossi - Folha de São Paulo - link (aqui)



A perpetuação da lenda

SÃO PAULO - Pesquisa recentíssima do Ipea recolocou em circulação no noticiário a lenda da queda da desigualdade.
Caiu apenas a desigualdade nos salários. Como informa o próprio Ipea, o índice divulgado dias atrás só mede a renda dos ocupados, que inclui os salários, aposentadorias e benefícios de programas de transferência de renda. Mas -atenção, crédulos- juros, lucros e renda da terra, por exemplo, não entram nessa conta.
Portanto, não dá nem para dizer que caiu a diferença de renda entre os assalariados. Afinal, é lógico supor que os mais bem remunerados, embora tenham perdido no salário, ganharam juros de suas aplicações financeiras, mesmo que seja uma modesta poupança. Já os de baixa renda, que viram seu salário aumentar, não têm, em geral, sobra para aplicar em instrumentos financeiros de qualquer raça.
A imperdível coluna "Mercado Aberto" desta Folha já mostrou avaliação de Claudio Dedecca, professor do Instituto de Economia da Unicamp, que acaba de concluir pesquisa a respeito.
Dedecca confirma o que já foi dito repetidamente aqui: não há redução de desigualdade, porque só entram nas contas que a revelariam os ganhos salariais e com a rede de proteção social, como Bolsa Família e aposentadoria. Tais números equivalem a só 40% do PIB.
Não entra, portanto, "a renda com ganho de capital das classes A e B, à qual os pesquisadores não têm acesso". Pesquisadores do próprio Ipea já calcularam em 90% a omissão de dados sobre ganhos de capital na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, mãe da lenda sobre queda da desigualdade.
Se Marcio Pochmann, presidente do Ipea, diz que o Brasil é "primitivo", mesmo com a queda apontada na desigualdade de salários, como qualificá-lo quando se verifica que não há queda na obscena desigualdade de renda?

Charge do dia


Angeli - folha de São Paulo - São Paulo (SP)

Comercial antigo - Shell (Mutantes)



sala de leitura



Manchetes:


Jornal do Brasil - Teste do cidadão reprova vereadores

Folha de São Paulo - IR sustenta aumento da arrecadação do governo

O Estado de São Paulo - Escalada de preços traz de volta risco de indexação

Correio Brasiliense - 1.585 novas vagas na elite do serviço público