terça-feira, 16 de setembro de 2008

O salve-se quem puder



Um notável desconforto ronda os editores de nossa brava e insensata mídia.

Como manter coerência numa crise como essa?

A maioria, senão a totaçlidade dos articulistas econômicos, até ontem, só repetiram o pensamento único, propalado exatamente pelas instituições financeiras, trocando a ciência econômica pelo repetir monótono das "verdades" do mercado financeiro.

Articulistas, quando pretendiam dar ares de seriedade em seus comentários, os permeavam com entrevistas de "autoridades" no assunto, ou seja, executivos de empresas financeiras, apresentados como "analistas" da área.

Agora, sob o impacto da nova realidade, o que se vê, é um conjunto de interrogações, buscando, no desespero, entender a ciência que sempre ignoraram.

Nesse aspecto, pelo menos, disponível está a oportunidade de mudanças efetivas nesse batalhão de "articulistas do nada" em benefício de poucos.

Sebastião Nery - Tribuna da Imprensa - link (aqui)



A manha do barão

Mario Rodrigues, pai do Nelson Rodrigues, era jornalista do "Correio da Manhã", no Rio. Acusou a mulher do presidente Epitácio Pessoa (1919-1922) de ter se vendido aos usineiros de Pernambuco em troca de um colar de pérolas. Foi preso e, quando saiu, demitido.

Fundou "A Manhã". Não queria os militares no poder:

- Os tenentes (de 1922, 24) querem tomar o governo porque dizem respeitar os dinheiros públicos. Seria o caso de se fazer uma experiência com os capuchinhos e as irmãs de caridade.

Defendia o governo de Artur Bernardes (1922- 26) e o estado de sítio. Fazia sucesso a coluna "Amanhã Tem Mais", de um jovem humorista gaúcho, saído de "O Globo", Aparício Fernando de Brinkerhoff Torelly, o Apporelly, depois o incomparavel Barão de Itararé, que um dia lhe disse:

- Mario, fora do governo sua reputação é a pior possível.
- Sossegue, meu filho. No jornalismo, é melhor ter má reputação do que não ter reputação nenhuma.

Mario Rodrigues

Uma tarde, muito calor na redação, Apporelly disse a Mario:

- Vamos tomar alguma coisa?
- De quem?

Um ano depois de inaugurado o jornal, as oficinas entraram em greve, por falta de pagamento. Mario foi a Belo Horizonte e pediu 80 contos a Mello Viana, presidente (governador) do estado. Mello Viana deu. Mario pensou que aquele era seu dia de sorte, entrou em um cassino, jogou tudo, perdeu tudo. Desesperado, voltou para o Rio, disse a Apporelly:

- Sou um canalha, tirei o pão da boca de meus filhos. Vou me matar.
- Doutor Mario, conhece a "teoria do dá"? Vai lá e pede de novo.
- Você acha?
- Quem dá uma vez, dá duas.

Mario Rodrigues voltou ao Palácio da Liberdade e pediu mais 80 contos a Mello Viana que, sabendo que ele queria se matar, deu mais 80 contos. Pensando recuperar o primeiro dinheiro, Mario voltou ao Cassino do Bomfim e perdeu tudo de novo. Foi uma tragédia. Agora, ia se matar.

Mello Viana

No Rio, tentou pular da janela do quarto andar do hotel onde Apporelly morava. Apporelly impediu. E voltou à "teoria do dá":

- Doutor Mario, escute. Quem dá uma e dá duas, dá três. Se ele não tivesse dado uma, não dava duas nem três. Deu, dá. Vai lá e pede de novo.

Mario foi e, sob ameaça de ser posto na cadeia se voltasse ao cassino, conseguiu voltar com o dinheiro. Abraçava Appporelly:

- Meu filho, você é um gênio. Um gênio!
- Doutor Mario, agora bem que o senhor podia me pagar. Faz um ano que eu trabalho e não recebo nada.
- Meu filho, quem dá um ano de trabalho de graça, dá dois e dá três. Se você não tivesse dado um, não dava dois nem três. Mas deu, dá.
Apporelly saiu e fundou "A Manha", "um jornal de ataques... de riso".

O primeiro número saiu atrasado para que os leitores pagassem em dobro. Não tinha expediente: "Jornal sério não vive de expediente". No segundo número, fez o primeiro aniversário, "para ganhar a credibilidade do leitor".

Ipojuca Pontes

Ótimas histórias, não são? Você, leitor, ainda não viu nada. Hoje, às 20 horas, na Livraria da Travessa de Ipanema (Visconde de Pirajá, 572), o jornalista e cineasta Ipojuca Pontes lança "A Manha do Barão - Confissões de bom e mau humor", uma peça de teatro que é um longo, magnífico, irresistível monólogo do gênio do humor brasileiro, o Barão de Itararé.

Ipojuca teve a sorte de ser vizinho do Barão, na Praça São Salvador, no Flamengo, Rio, e conversar muito com ele, antes de ele morrer, em 27 de novembro de 71 (nasceu em São Leopoldo, RG, em 1895). Depois, procurou o irmão Edecio, os filhos. Em novembro de 72, em um sebo de São Paulo, encontrou a coleção completa de "A Manha". Comprou na hora.

Chico Anisio

E também conseguiu uma coleção dos "Almanahques", a revista do Barão, que acabou eleito vereador do Rio pelo Partido Comunista em 1947 e logo depois cassado e preso, com a cassação do PCB pelo governo Dutra.

Só falta agora o Ipojuca entregar a peça ao outro gênio do humor brasileiro, o Chico Anísio, para vir o sucesso certo, que virá.

Não vou, não posso, contar o livro todo. Mas não há brasileiro que não conheça "uma do Barão", suas frases perfeitas, definitivas, inesquecíveis:
1 - Na Faculdade de Medicina (fez só três anos, no Rio Grande), o examinador, irritado com suas respostas zombeteiras, lhe perguntou:
- Quantos rins nós temos?
- Quatro. Dois meus e dois seus. A menos que o senhor seja anormal.

Foi reprovado e abandonou.

Prestes

2 - Na ditadura de Vargas, só o chamava de G.Tulio Dor Nelles Vargas. Dizia: O Estado Novo é o estado a que chegamos. Ou: O Barão está sob o regime do Estado Novo: não pode falar. Várias vezes preso.
3 - Há males que vêm para bem. Mas seria melhor que não viessem.
4 - O dinheiro é a causa de todas as desgraças. Quando não se tem.
5 - João Neves é disco voador: pequeno, chato e ninguém acredita.
6 - O juiz: - O senhor foi visto conversando com Luiz Carlos Prestes.
7- Impossível. Com Prestes ninguém conversa. Ele fala sozinho.

Charge do dia


Angeli - Folha de São Paulo - São Paulo, SP

Um pequeno detalhe nada inocente




No portfólio do Lehman Brothers, um destaque é a forte participação no denominado "mercado de derivativos".

Essa peculiar atividade das instituições financeiras, que de uma maneira simples, mas objetiva, traduz a alavancagem além dos límites, já, por definição, nada moderados, quando é levado em conta apenas o capital da instituição.

No mercado dos "derivativos", esgotada a "alavancagem original", simplesmente, aposta-se no futuro, ancorado em posições, já comprometidas pela aposta inicial. Aqui a tal da "confiabilidade" atinge seu grau de insensatez.

O efeito dominó, deverá ser também multiplicado, teremos, enfim, o "derivativo da quebra".

Muitas teses acadêmicas serão produzidas, e fundamentalmente, muitas explicações sobre o irracional serão brandidas, pelos especialistas do "já foi", mas "poderia ter sido diferente".

Quem viver, verá!