domingo, 19 de outubro de 2008

Elis Regina - "Atrás da Porta" - ao vivo

Edith Piaf - "La Vie en Rose"

Sarah Vaughan - "Somewhere over the rainbow"

Maysa - "Manhã de Carnaval"

Manhã de Carnaval
Luiz Bonfá

Composição: Música: Luiz Bonfá - Letra: Antonio Maria

Manhã, tão bonita manhã
Na vida, uma nova canção
Cantando só teus olhos
Teu riso, tuas mãos
Pois há de haver um dia
Em que virás

Das cordas do meu violão
Que só teu amor procurou
Vem uma voz
Falar dos beijos perdidos
Nos lábios teus

Canta o meu coração
Alegria voltou
Tão feliz a manhã
Deste amor

Charge do dia



Aroeira - O Dia - Rio de Janeiro, RJ

Suely Caldas - Estadão online - link (aqui)


Aprendendo com os erros


Tragédias trazem destruição, mas também servem para refletir sobre os erros, tentar corrigi-los e planejar o futuro para não os repetir. Depois de tanto errar no mercado financeiro, os governos dos países ricos estão agora desesperadamente empenhados em desfazer estragos, sabendo que não conseguirão evitar o maior deles: uma recessão econômica de grande dimensão e duração longa, que abala e assusta o mundo inteiro. A injeção de trilhões de dólares nos bancos dos EUA, Europa e Japão ajuda, mas até agora não foi capaz de restabelecer a confiança no sistema financeiro. Os mercados continuam em pânico, alarmados com o futuro encolhimento da economia mundial.

Longe do epicentro da crise, o Brasil tem sofrido menos seus efeitos, mas, porque também cometeu erros, vai viver sua parte com graus de intensidade e estresse que poderiam ter sido evitados. O primeiro deles foi não ter aproveitado a boa maré em que o mundo e o Brasil navegaram entre 2003 e 2007 para fortalecer os fundamentos econômicos e dar maior proteção ao País. Nesse período, o PIB cresceu continuamente, a receita tributária se multiplicou e o governo se abarrotou de dinheiro, mas desperdiçou, gastou muito mais do que devia - e mal, porque priorizou gastos correntes e não investimentos -, limitou os superávits primários ao pagamento dos juros da dívida pública e perdeu oportunidade de ouro de reduzir seu estoque sem incorrer em sacrifícios - rara na história econômica recente.

Acertou ao trocar a dívida em dólar por real e acumular reservas cambiais de US$ 200 bilhões, tornando o País menos permeável a crises importadas, como a que vivemos. Sem isso, o dólar já teria chegado a R$ 3,00. Mas não cuidou de reduzir o tamanho da dívida interna em reais, que tem dificultado ao Brasil se apresentar ao mundo como um bom e confiável tomador de empréstimos. É verdade que, neste momento de pânico, a escassez de crédito atinge todos os países, mas, quando a normalidade voltar, os bancos serão mais seletivos e exigentes - negarão crédito ou cobrarão caro de países com dívidas elevadas.

Outro erro do governo Lula foi ter desperdiçado o prestígio político conquistado nas urnas para fazer as reformas - política, tributária, previdenciária e trabalhista. Lula sabe que elas são fundamentais para desemperrar o desenvolvimento, dar racionalidade aos gastos públicos e avanço, respeito e reconhecimento às instituições democráticas, mas desistiu de tocá-las muito facilmente, não brigou por elas. Conduziu mal suas relações com o Congresso ao entrar no jogo da chantagem política de parlamentares para construir maioria. Hoje tem larga maioria e muitos partidos em sua base, mas passa a maior parte do tempo negociando favores e aceitando a chantagem para "convencer" deputados e senadores. E o resultado tem sido pífio: as propostas do governo não andam ou tramitam muito lentamente. Com isso, o que restou da reforma tributária - a única que o governo enviou ao Congresso - é adiado indefinidamente. As outras reformas, nem isso, porque Lula desistiu de tocá-las para não abalar sua popularidade política.

Aprender com erros é uma virtude de governantes conscientes. Mas seria ingenuidade política esperar que Lula corrija os seus com uma eleição presidencial à frente, em que ele deseja desesperadamente fazer o sucessor. E sua vocação populista o impede de tomar decisões que possam tirá-lo do pedestal da popularidade. No máximo ele tentará aprovar a tímida reforma tributária e reduzir alguns poucos gastos. E só.

Mas seu sucessor, seja quem for, precisa usar o cacife eleitoral para iniciar mudanças em série, para corrigir erros e redirecionar rumos. A primeira delas, que terá influência positiva sobre as demais, é mudar os métodos de relacionamento com o Congresso, abolir a chantagem política, o toma-lá-dá-cá e exigir dos parlamentares comportamento comprometido com os interesses do País. Impossível? A ver. Mas vale tentar, com garra, disposição e sem ceder na primeira dificuldade. Se for bem-sucedido, será possível aprovar no Congresso reformas mais consistentes e duradouras, não os paliativos e remendos dos últimos anos.

Também é preciso definir prioridades para os gastos públicos, inverter a equação e priorizar investimentos que beneficiem a população, em vez de gastos correntes. Restringir as nomeações político-partidárias a cargos que não exijam qualificação técnica e despolitizar as agências reguladoras. Isso é aprender com erros.

*Suely Caldas é jornalista e professora de Comunicação da PUC-RJ (sucaldas@terra.com.br)

Guy Sorman - Divagações sobre o tema - Folha de São Paulo - link (aqui)



Liberais brasileiros são os mais radicais de todos, diz analista

DENYSE GODOY
DA REPORTAGEM LOCAL

No meio da crise internacional, a única certeza a permanecer de pé, tempestade após tempestade, é a de que será necessário rever alguns preceitos econômicos que se fizeram hegemônicos no mundo a partir dos anos 70. Considerando que o plano lançado pelo primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, para combater as turbulências foi até agora o mais aplaudido, talvez uma versão aprimorada do capitalismo seja mais próxima da maneira como os europeus o vêem.
Nesse caso, pode-se considerar o economista francês Guy Sorman, 64, como um dos seus maiores teóricos. Defensor apaixonado do "laissez-faire", o analista pondera que os mercados financeiros corrigem, sim, seus próprios erros, mas sempre dentro das leis criadas pelo Estado.
Na sua opinião, os liberais brasileiros são os mais radicais que existem. "Entendo o fenômeno de um ponto de vista político, porque o seu Estado é tão pesado que acaba requerendo esse tipo de intelectual que empreende uma luta extrema pela liberdade", disse ele em entrevista à Folha por telefone, de Nova York. Ele desembarca no Brasil na próxima quinta-feira para lançar seu mais recente livro, "A Economia não Mente", editado pela É Realizações. A seguir, trechos da entrevista.

FOLHA - Por que o sr. diz que "a economia não mente"?
GUY SORMAN - Porque é uma ciência, não é uma opinião. Não é perfeita, mas descreve uma parte do funcionamento da sociedade e ajuda a tomar decisões. O Brasil está crescendo pois, entre outros motivos, seguiu idéias da teoria econômica como a estabilidade da moeda e a abertura ao comércio.

FOLHA - Qual foi a parte da teoria que o governo americano ignorou e que causou esta crise?
SORMAN - O governo dos EUA tem papel muito limitado na economia -basicamente é o mercado que decide. Havia alguns sinais, mas os economistas não são bons em fazer previsões. Sabemos dizer o que não fazer, como um médico aconselha seu paciente a não fumar, mas não conseguimos afirmar o que se deve fazer.

FOLHA - Há motivos para o mundo se preocupar com uma bolha na China também?
SORMAN - A economia chinesa tem dois pontos fracos. Primeiro, o governo da China resolveu ter um tipo de economia que é completamente dependente das exportações -não existe mercado doméstico. A segunda questão é social: o país não vai conseguir gerar o crescimento de que precisa para diminuir a pobreza.

FOLHA - O Brasil também necessita que a China continue crescendo bastante para comprar suas commodities agrícolas e minerais?
SORMAN - Se é que posso colocar desta maneira, a beleza do atual momento é mostrar o quanto somos interdependentes. A globalização é positiva porque é razão de relações mais pacíficas entre os países. No caso do Brasil, o momento que vivemos deixa claro que é essencial diversificar a economia. Desta vez, diferentemente do que aconteceu nos anos 30, os governos não estão falando em fechar as suas fronteiras -exceto [Barack] Obama, mas é só para ganhar a eleição- e em aumentar impostos.

FOLHA - O mundo vai deixar de acreditar no dogma da auto-regulação dos mercados?
SORMAN - Não há mercado sem o Estado. O mercado resolve os seus problemas -dentro das leis e regras do Estado. Só no Brasil encontrei liberais tão radicais -essa é uma criação brasileira. E entendo esse fenômeno de um ponto de vista político, porque o seu Estado é tão pesado que acaba requerendo esse tipo de intelectual que empreende uma luta extrema pela liberdade.

FOLHA - O sr. vem com freqüência ao Brasil. Que mudanças no país chamam sua atenção?
SORMAN - É fascinante observar a mudança de atitude desde a primeira vez em que estive no país, em 1985. Para ver socialistas agora é preciso ir procurar na Universidade de São Paulo. Na vida real, a democracia e o livre comércio foram aceitos. A justiça social é importante, mas entende-se que ela é resultado de crescimento econômico e não de uma revolução. Lembro de uma conversa com o então sindicalista Lula, no início dos anos 80. Ele era trotskista, fumava bastante, bebia muito café e falava em revolução para fazer justiça social. É o mesmo cara que agora, como presidente, está mantendo a estabilidade da moeda e a abertura da economia.

FOLHA - Isso o surpreendeu?
SORMAN - Na verdade não, porque o Lula é um político. Você pode ser um [Hugo] Chávez para se colocar como o último grande revolucionário e fingir que está fazendo as pessoas felizes tomando o caminho errado. No entanto, se você é um político de verdade e gosta do seu povo -e acho que o Lula ama o Brasil-, torna-se realista, olha o mundo ao redor, vê o que mudou e repete o que deu certo. Não é um debate teórico, é um debate prático: o que funciona e o que não funciona. É melhor pegar o caminho certo. Quer dizer, é melhor pegar o melhor caminho, porque caminho certo não existe. Em épocas de desaceleração, como a presente, fica claro que o caminho não é uma linha reta.

FOLHA - O que mais pode ser feito pelos governos em todo o mundo para resolver a crise?
SORMAN - Não vejo muito mais atitudes que possam ser tomadas. Os governos estão indo bem. Por meio de uma ação coordenada, estão evitando o congelamento do crédito, o crescimento da inflação e o protecionismo. Depois disso, é deixar os empreendedores fazerem seu trabalho.

FOLHA - Em que medida o Estado brasileiro atrapalha os empresários?
SORMAN - Os empreendedores não estão felizes em lugar nenhum do mundo. Mesmo na Suíça eles reclamam dos impostos e da burocracia. É parte da sua função. No Brasil, nos anos 80, era realmente impossível fazer negócios por causa das regulações, da tributação, do fechamento do país. Então, prefiro olhar no longo prazo e identificar uma tendência. As coisas mudam devagar, e o importante é o rumo tomado. A tendência do país é positiva e encorajadora.

Keynes volta à moda com intervenções - Folha de São Paulo - link (aqui)


Economista defendia que o governo poderia bombear dinheiro para a economia para estimular as empresas a gastar mais

A chave para compreender Keynes é seu compromisso para com a preservação da economia de mercado, que ele desejava fazer funcionar

ED CROOKS
DO "FINANCIAL TIMES"

"Chegamos a um ponto crítico", escreveu John Maynard Keynes em março de 1933. "Podemos divisar claramente o abismo ao qual nosso caminho atual nos conduz." Sem ação dos governos, "devemos esperar a progressiva dissolução da estrutura existente de contratos e instrumentos de dívida, acompanhada pelo completo descrédito da liderança ortodoxa nas finanças e no governo, cujo desfecho final não podemos prever".
Enquanto o mundo cambaleia sob os golpes de um mergulho nas Bolsas semelhante ao de 1929 e de uma crise bancária semelhante à de 1931, as palavras de Keynes servem como avaliação precisa dos riscos que voltamos a enfrentar. Keynes, cuja missão na vida era salvar o capitalismo de seus excessos, tornou-se mais relevante hoje do que em qualquer momento desde a sua morte, em 1946.
Sua influência renovada pode ser vista em toda parte: no pacote de estímulo econômico planejado pelo candidato Barack Obama, por exemplo. Quando George W. Bush disse que o plano de seu governo de assumir participações em bancos "não pretende tomar o controle do livre mercado, mas preservá-lo", poderia estar citando Keynes diretamente.
A chave para compreender Keynes é seu compromisso para com a preservação da economia de mercado, que ele desejava fazer funcionar.
O economista desconsiderava o marxismo, mas acreditava que a economia de mercado só poderia sobreviver caso conquistasse o apoio do público ao promover uma melhora nos padrões de vida.
O papel do economista, acreditava, era servir como guardião da "possibilidade de civilização", e jamais houve economista mais adaptado à função.
Lionel Robbins, mais tarde diretor da London School of Economics, descreveu Keynes como "um dos homens mais notáveis de todos os tempos", superado em sua era apenas por Winston Churchill. Até mesmo Friedrich Hayek, o mais severo adversário de Keynes, descreveu-o como "o único homem realmente grande que conheci, pelo qual minha admiração nunca teve limites".
Seu pensamento positivo, otimista, refletia sua criação feliz e confortável e sua carreira de sucesso. Filho de um professor universitário, ele ganhou bolsas para estudar em Eton e na Universidade de Cambridge, e logo se enturmou com o grupo de Bloomsbury, o círculo de escritores e artistas como Virginia Woolf e Lytton Strachey, que representavam um ideal de vida culta.
Keynes era uma figura imponente, com 1,98 metro de altura, e estava sempre repleto de piadas e fofocas a contar e de observações argutas a fazer. Além da economia, ele tinha diversos outros interesses como matemático, administrador, acadêmico, investidor, jornalista, colecionador de arte, político, empresário das artes e diplomata. Foi um marido exemplar, devotado à mulher, a bailarina Lydia Lopokova. Na linguagem que empregava, ele podia ser descuidado e provocativo. Mas, como afirmou, "as palavras precisam ser um pouco selvagens, pois representam o ataque do pensamento contra aqueles que não pensam".
Quando más políticas tornavam os problemas econômicos ainda piores, ele sentia a obrigação moral de mudá-las. Trabalhou com distinção no Tesouro britânico durante a Primeira Guerra Mundial. Ao final do conflito combateu, prescientemente, a imposição de sanções severas demais à Alemanha. Quando seus conselhos foram ignorados, ele se demitiu e publicou suas opiniões em seu primeiro grande trabalho polêmico, "As Conseqüências Econômicas da Paz".
De volta a Cambridge, Keynes manteve um fluxo constante de livros e artigos, entre os quais "As Conseqüências Econômicas do sr. Churchill", no qual criticava ferozmente o retorno do Reino Unido ao padrão-ouro, em 1925. Mas foi na Grande Depressão que suas idéias floresceram e foram publicadas em "Teoria Geral do Emprego, Juros e Dinheiro".
O cerne do livro é a idéia de que desacelerações econômicas não necessariamente se revertem sozinhas. Os economistas clássicos dispunham que ciclos de negócios eram inevitáveis e que haveria sempre picos e depressões. Keynes rebatia que, em determinadas circunstâncias, uma economia poderia ficar atolada. Se indivíduos e empresas tentassem poupar mais, reduziriam as rendas de outros indivíduos e empresas. O resultado seria uma espiral de queda que não se reverteria sem intervenção.
É aí que entra o governo: bombeando dinheiro de volta à economia por algum meio, tal como o gasto em obras públicas, a fim de persuadir indivíduos e empresas a economizar menos e a gastar mais.
Economistas como Paul Samuelson e James Tobin sistematizaram as idéias de Keynes e as usaram como fundações do que viria a ser a filosofia e política econômica ortodoxa das duas décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial.
A capa da revista "Time" em dezembro de 1965 atribuía a Milton Friedman a frase "agora somos todos keynesianos". Friedman disse, mais tarde, que havia sido citado de maneira seletiva e imprecisa, mas que a afirmação procedia. Charles Schultze, diretor de orçamento do governo dos Estados Unidos naquele ano, disse à revista que "não podemos prevenir todas as pequenas oscilações do ciclo econômico, mas podemos prevenir uma grande queda".
Quando Nixon tomou de empréstimo a frase de Friedman, em 1971, no entanto, a maré já havia começado a virar. Como uma dica sobre ações obtida do ascensorista, o endosso de Nixon era sinal de que o prestígio intelectual de Keynes estava a caminho de uma queda. A economia keynesiana parecia tão inadequada para a estagflação dos anos 70 como a economia clássica o era para a Depressão dos anos 30, e foi superada pelo monetarismo de Friedman entre as autoridades econômicas dos EUA e do Reino Unido.
Depois que as aplicações mais cruas do monetarismo fracassaram, nos anos 80, a moderna macroeconomia passou a combinar idéias de ambas as doutrinas, refletindo a crença na capacidade da política fiscal e monetária para afetar o emprego e o crescimento, mas também preocupação sobre inflação e déficits orçamentários.
Mas essa ortodoxia sofreu um abalo com o aprofundamento da crise. Os problemas que Keynes teve de enfrentar nos anos 30, como a ineficiência da política monetária e quebras de bancos causadas por quedas nos preços dos ativos, uma vez mais parecem ser os mais prementes. As soluções de Keynes, entre as quais maior gasto público financiado por captação, tornam-se populares. As críticas de que isso alimentará a inflação e os déficits orçamentários continuam a ser ouvidas, mas cada vez mais são consideradas irrelevantes.
No final de sua definitiva biografia em três volumes sobre Keynes, Robert Skidelsky escreve que as idéias de Keynes "viverão enquanto o mundo precisar delas". E certamente parecem necessárias agora.


Tradução de PAULO MIGLIACCI

Elio Gaspari - Folha de São Paulo - link (aqui)



No longo prazo, Lord Keynes ressuscitou

A turma do papelório mostrou que existe o banquete grátis e avacalhou as idéias de Milton Friedman


TERMINOU nas últimas semanas o predomínio intelectual de uma corrente do pensamento econômico que governou o mundo por cerca de 30 anos. Pode-se dizer que ela cabe no rótulo de "liberal", sem que se saiba o que isso quer dizer. Simplificando, ela encarnou a crença de que as forças internas do mercado são o elemento mais eficaz para conduzir os destinos das economias nacionais. Com o leme das nações entregue à "mão invisível", os males seriam corrigidos, e a prosperidade, assegurada. Lorota.
O naufrágio ocorreu de forma humilhante, no governo de um presidente republicano nos Estados Unidos. George Bush tem na Secretaria do Tesouro um fino espécime da banca, o ex-presidente da Goldman Sachs, Henry Paulson. Para salvar a economia mundial dos delírios do mercado, até agora foram necessários uns US$ 3 trilhões coletados nas Bolsas das Viúvas.
Trinta anos de hegemonia produziram arrogância e até maus modos. No Brasil, "desenvolvimento" tornou-se uma palavra maldita e "desenvolvimentista", uma modalidade de insulto. Além das leviandades do governo Collor, da privataria tucana e do colapso cambial de 1999, a onipotência chegou à soberba. Dois diretores do Banco Central (Afonso Beviláqua e Rodrigo da Rocha Azevedo) não se dignaram a colocar suas biografias no portal da instituição pública em que trabalhavam. Conduta semelhante, só nos BCs de Coréia do Norte, Lesoto e Armênia. Noutro exemplo do cotidiano, em 2003 a editora brasileira do economista Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel de 2001, teve dificuldade para formar uma mesa de jantar em sua homenagem com 12 convidados de renome. Stiglitz era um crítico daquilo que o professor Delfim Netto chamava de "pensamento único" no debate econômico brasileiro. (Das cabeças coroadas, só Gustavo Franco aceitou o convite.) Em 2000, um concurso do Banco Central valorizava candidatos com formação semelhante à da ekipekonômica tucana.
Viajando-se no tempo e no mundo, percebe-se que a cada 30 anos uma escola de pensamento prevalece e massacra a outra. Na segunda metade do século passado a agenda passou às mãos dos chamados keynesianos. Eram economistas que acompanhavam as idéias do inglês John Maynard Keynes, formulador da conveniência da intervenção do governo na economia. Do outro lado do debate estavam professores como o austríaco Friedrich Hayek e o americano Milton Friedman. Hayek sustentava que o planejamento econômico e a ação dos governos eram o "Caminho da Servidão", título de sua obra-prima, publicada em 1944. Comeu o pão que Asmodeu amassou. Em 1950, o departamento de economia da Universidade de Chicago negou-lhe uma posição de professor. Morava num bairro operário de Salzburgo numa casa comprada com o dinheiro da venda de sua biblioteca. Hayek ganhou o Prêmio Nobel em 1974. Dois anos depois foi a vez de Friedman.
Passados 30 anos de predomínio, os keynesianos saíram de cena. A vitória dos conservadores de Margaret Thatcher na Inglaterra, em 1979, e de Ronald Reagan nos Estados Unidos, um ano depois, significou um renascimento das idéias de Hayek e Friedman. Em 1980, o professor Robert Lucas (Nobel de 1995) dizia que já não existiam mais bons economistas com menos de 40 anos identificados com o keynesianismo. O neologismo virou palavrão. John Kenneth Galbraith, uma de suas maiores estrelas, tornou-se saco de pancadas para os polemistas conservadores. Seu último livro chamou-se "A Economia das Fraudes Inocentes" e foi um ataque às extravagâncias do papelório.
Numa trapaça da história, foi um governo conservador, educado nas liberdades de Hayek e Friedman, quem conduziu a economia americana à bancarrota. Primeiro liberando as práticas da banca em nome da santidade do mercado. Depois, recorreu à mais elementar das construções keynesianas para evitar o desastre e foi buscar na Bolsa da Viúva o remédio para a intoxicação. Hayek e Friedman dificilmente defenderiam as políticas de seus seguidores. Quem botou fogo no mundo não foram eles, mas a mediocridade prepotente, colocada a serviço de um dinheirinho fácil.

CRISE GLOBAL
Cena testemunhada por um carioca no Centro Cutural Cartola, no morro da Mangueira:
Chega Luís, figura popular de Madureira, encosta num freguês e informa: "Amigo, perdi tudo na Bolsa. Dá para pagar uma cervejinha?"

NOBEL DE KRUGMAN
Para o registro da competência do economista Paul Krugman. Os profetas do apocalipse da economia americana diziam que os EUA deviam investir em atividades de alta tecnologia, fabricando produtos cujo valor agregado seria muito superior ao da indústria automobilística, por exemplo. Surgiu até uma piada: se não fizessem isso, acabariam produzindo batatas fritas ("potato chips") em vez de semicondutores ("computer chips"). Krugman foi aos números e informou: na indústria automobilística, o valor agregado por trabalhador era de US$ 187,5 mil. Já nos semicondutores, ele ficava em US$ 96,4 mil, muito próximo do que sucedia na produção de batatas fritas, que era de US$ 76,7 mil.

EREMILDO, O IDIOTA
Eremildo é um idiota e acredita que viu a verdade ao ouvir Nosso Guia quando ele disse o seguinte: "Já estamos há oito anos do século 21 ouvindo a mesma matriz de informação. A mesma matriz ideológica. A mesma massificação, sem que a gente faça um gesto para colocar coisas novas nos meios de comunicação do nosso planeta". O idiota aderiu à matriz-companheira e se colocou a serviço da nova idéia. Por isso repete as palavras de Nosso Guia, ditas na quarta-feira: "Podem escrever: Marta vai ganhar em São Paulo". Eremildo convenceu-se de que Lula tem uma matriz paranormal ou sabia de alguma coisa.

BIBLIOTECA SEM LIVROS
Circula no comissariado cultural de Brasília uma proposta de criação, na cidade, de uma "Biblioteca Nacional de Ciência, Tecnologia, Inovação e Inclusão Social e Digital". Nome pomposo para uma girafa. Logo em Brasília, único lugar do mundo onde existe uma biblioteca com uns 10 mil metros quadrados construídos ao preço de R$ 42 milhões, com 14 funcionários, inaugurada duas vezes. Uma beleza, mas nela não há livros para consulta pela patuléia. Tamanha excentricidade deveria fazer parte do roteiro turístico da capital: "Aqui, uma biblioteca sem livros".
Desde a fundação da cidade espera-se que Brasília tenha uma biblioteca pública com acervo de interesse geral, capaz de funcionar como o centro de uma rede de oferta de livros. Havendo o prédio, seria natural que se respeitasse a idéia original. Em vez disso, apareceu a proposta de se trocar a criação de uma "Biblioteca Nacional de Brasília" por um projeto de pretensão retórica e alcance limitado. A girafa vem com um palavrório: "A implantação de uma biblioteca com essas funcionalidades deverá estimular a curiosidade e o interesse da sociedade, em geral, e das comunidades carentes, em particular, contribuindo para a difusão e divulgação da ciência, tecnologia e inovação, fundamentais para a formação cidadã e para a inserção social".
Tudo ficaria melhor se as coisas fossem simplificadas. Brasília precisa de uma grande biblioteca pública, organiza-se um acervo de interesse geral e oferece-se o serviço à patuléia. Se ela quiser livros de ciência, haverá de pedi-los.

Clóvis Rossi - Folha de São Paulo - link (aqui)



Caixinha de surpresas

MADRI - O mundo está redescobrindo uma obviedade, contida, por exemplo, em escrito de James Madison. "Se os homens fossem anjos, o governo não seria necessário", escreveu Madison (1751-1836), quarto presidente dos Estados Unidos.
Agora que o mundo financeiro soltou todos os seus demônios, descobre-se que o governo é indispensável para cortar-lhes um pedaço do rabo. Mas é só um pedacinho. Não decorre daí que se esteja às portas do comunismo, ao contrário do que temem os ultraliberais.
Nem decorre que se esteja estatizando os bancos. Na prática, o que está ocorrendo é o inverso: privatizam-se os recursos públicos e estatiza-se o risco -só o risco.
O governo abre os cofres, mas não entra na administração dos bancos. Hank Paulson, o secretário norte-americano do Tesouro, pode soltar dinheiro, mas não pode determinar que os bancos, em vez de apostar em derivativos, financiem a juros camaradas o trem-bala Nova York-Los Angeles.
Nem sei se é possível de fato enjaular todos os demônios. Dá, por exemplo, para proibir que empresas apostem a favor da moeda do país em que operam, como o fizeram -e perderam- Sadia, Aracruz e Votorantim, fora as que ainda não saíram do armário?
Ajudaria um pouquinho se os economistas que adoram fazer previsões fossem obrigados, todos, a adotar como papel de parede de seus computadores a seguinte frase: "A economia, como o futebol, é uma caixinha de surpresas". Logo, previsões só sobre o passado.
Evitar-se-ia assim que a turma da Goldman Sachs, quando o petróleo chegou a US$ 147 em julho, previsse o barril a US$ 200. O petróleo só fez cair desde então. E os jornalistas ainda acreditamos na história dos Brics, potências mundiais a partir de 2020, palpite da mesma Goldman Sachs que não acertou nem 2008. Imagine 2020.