domingo, 7 de fevereiro de 2010
Vassourinha - Seu Libório [1941]
Composição: Alberto Ribeiro e João de Barro
Seu libório tem três vizinhas
Manon, margot e fru-fru
Saem todas as tardinhas
Carregando o seu lulu
Ninguém sabe o que elas fazem
Porém todo mundo diz
Que o seu líbório é quem manda
Ah!,como o libório é feliz
A manon é mais lourinha
Que boneca de paris
A margot é queimadinha
Pelo sol do meu país
A fru-fru tem um sinalzinho
Na pontinha do nariz
E o seu libório é quem manda
Ai, como o libório é feliz
Seu libório tem três vizinhas
Manon, margot e fru-fru
Saem todas as tardinhas
Carregando o seu lulu
Ninguém sabe o que elas fazem
Porém todo mundo diz
Que seu líbório é quem manda
Ai, como o libório é feliz
Usam todas um v-8
Que lhes deu um coronel
Têm vestidos de altos preços
E perfumes a granel
Vivem assim felizes contentes
Com o que o destino lhes deu
O seu íbório é quem manda
Ai, e o seu libório sou eu
Breve tratado sobre desajustados - Estadão online - link (aqui)
O escocês Irvine Welsh revisita tipos marginais em Se Você Gostou da Escola, Vai Adorar Trabalhar
Marcelo Rubens Paiva
Foram os ingleses que melhor cunharam as distinções entre conto, novela e romance. Práticos, definiram "novella" como gênero intermediário. O parâmetro é o tamanho: maior que um conto ("short story"), menor que um romance ("novel"). Não é uma narrativa de um tiro, como um conto, nem um gênero que se aprofunda numa pequena tese, como um romance. Fica no meio-termo, mas não necessariamente deve ser inferiorizado.
O Alienista, de Machado, assim como Memórias do Subsolo, de Dostoievski, são exemplos de como, com poucas palavras, ou melhor, em menos páginas do que um romance, é possível descrever com grandeza os limites da loucura e do autocontrole que se exige do novo homem.
Welsh juntou cinco novelas distintas numa mesma publicação, com tipos semelhantes (beberrões, excêntricos, cínicos, engraçados e amadores no amor) que contêm uma recorrente incapacidade de adaptação a ambientes em que não estariam caso tivessem organizado suas vidas de outra maneira em vez de escorregarem pelos atalhos que se apresentaram.
O cinema fez bem a Welsh. Suas narrativas ganharam um clima digno de bom filme, com reviravoltas, surpresas e ação. Como na primeira história, Cascavéis, provavelmente escrita em homenagem ao precursor Hunter Thompson, que se matou em 2005.
Talvez inspirados em Medo e Delírio em Las Vegas, dois amigos e uma garota se drogam, viajam alucinados num Dodge Durango por tempestades de areia pelo deserto do Arizona e se estrepam feio. Na verdade, a droga, um elixir peruano, não batera em Eugene, que dirige o carro. Ele é um ex-atleta que perdeu o rumo da carreira e deseja a passageira ao seu lado, Madeline, uma garota que, por sua vez, deseja Scott, no banco de trás, o melhor amigo de Eugene.
Prestando mais atenção nas curvas da passageira do que na estrada, acaba capotando o carro. Os três, perdidos no meio do nada. "Estamos na América. Aqui você nunca está a mais de um quilômetro de alguém tentando vender alguma coisa", ironiza o escritor escocês.
E não estavam. Foram flagrados por bandidos chicanos religiosos numa cena difícil de explicar: Eugene fora picado por uma cascavel no pênis, e o amigo, obrigado a "sugar" o veneno. Algo que só para um amigo muito íntimo se pode pedir.
Miss Arizona se passa no mesmo deserto. Desta vez, é um cineasta frustrado que vive de publicidade e resolve ir atrás da viúva de seu grande ídolo, diretor que, por não ser comercial, optou pela indústria do filme pornô. E, evidente, o narrador se envolve com a enigmática e sedutora viúva, que tem melhores histórias para contar do que as do falecido.
Se Você Gostou da Escola, Vai Adorar Trabalhar... é talvez a melhor história das cinco, apesar de seus personagens declaradamente machistas. Não sei dizer por que é a melhor história. O editor também achou, pelo visto.
Os capítulos têm nomes de mulheres. E elas aparecem para ser amadas e odiadas.
Depois de discutir com a ex-mulher sobre a educação da filha adolescente, debate narrado como se fosse uma luta de boxe, Mickey, dono de um bar nas Canárias, explode: "Alguns de nós têm uma droga de vida para viver, muito obrigado! Como o velho Winston (Churchill, deve ser) disse uma vez: "Embora preparado, prefiro que meu martírio seja adiado"."
O papo de bar, ou melhor, de pub é a fonte inesgotável da narrativa: "Cynth é divertida, e essa é a qualidade que todo mundo aprecia numa mulher. É claro, algumas só agem assim até conseguirem o que chamam de compromisso, e então viram umas éguas escrotas."
Mickey descreve o tipo de mulher "boa de pegar": "Há algo nas magricelas chegando aos quarenta. Se elas não despencaram até então, devem ter algum vício grande. A experiência me ensinou que esse vício é, incrivelmente, trepar."
Calma. Não odeie Mickey. No fundo, é um apaixonado pelas mulheres. Nunca superou a separação. Tem carinho pelas conquistas. Dá conselhos, ajuda. E até leva a filha para morar com ele. A garota, Em, abaixa a guarda do pai e lhe arranca algumas convicções.
"Odeio a escola", ela diz. "Meu velho, seu avô, costumava dizer: "Se você gosta da escola, vai adorar trabalhar e depois viver feliz para sempre"", ele responde. Feliz? Sim, se estiver acompanhado pelo velho e eficiente Jack Daniel"s, afirma nas entrelinhas.
Relato íntimo de Norma Bengell - Folha de São Paulo - link (aqui)
Depois de brigar com a Justiça por causa do filme "O Guarani" e sofrer crise nervosa em cena, Norma Bengell volta ao teatro no drama "Dias Felizes"
Daryan Dornelles/Folha Imagem![]() |
LUCAS NEVES
ENVIADO ESPECIAL AO RIO
Personagem central da peça "Dias Felizes", de Beckett, Winnie deita a falar para se convencer de que está viva e, ao mesmo tempo, livrar-se dos fantasmas existenciais que chegam na carona do silêncio.
Presa a uma montanha de terra em que se empilham frustrações e mágoas, improvisa platitudes a partir dos objetos que saca da bolsa. Batom, escova de dente e revólver são fiapos de vida que a impedem de sucumbir -"terá sido mais um dia feliz", certifica-se a toda hora, até que o segundo ato rarefaça seu otimismo sorridente.
A conversa com Norma Bengell, 74, desenha uma curva dramática parecida. A atriz interpreta Winnie em montagem que estreia no dia 27, em São Paulo. Na sala de sua casa na Gávea, zona sul do Rio, ela recebe a reportagem amparada por um ajudante. Recupera-se de uma operação na coluna, para tratar uma compressão da medula. Anda com dificuldade.
"Estou bem, ótima até, perto do que poderia ter sido. Na piscina, ando como uma sílfide."
O entusiasmo se mantém por quase todo o "primeiro ato". É o período em que ela lança nomes próprios e títulos de filmes e peças como iscas para o interlocutor pescar anedotas de sua carreira -antes de comentar um passado mais recente, de crises nervosas em cena e imbróglios com a Justiça.
Manequim, vedete de teatro de revista e cantora (gravou quatro LPs) nos anos 50, Norma conheceu o cinema na chanchada "O Homem do Sputnik" (1959). Virou musa três anos depois, na esteira do nu frontal de "Os Cafajestes", que teve filmagens atrapalhadas por aviões da Marinha (os militares queriam avistá-la ao natural) e um tímido assistente de direção a circular com o "Livro Vermelho" de Mao Tse-tung: Celso Amorim, hoje ministro das Relações Exteriores.
Delon "homemrengo"
Ainda em 1962, entrou no radar do produtor italiano Dino de Laurentiis graças ao sucesso internacional de "O Pagador de Promessas", no qual tinha um papel pequeno. Ele a encaixou em "O Mafioso", ao lado da estrela local Alberto Sordi.
Nas filmagens, na Sicília, conheceu Alain Delon, que rodava "O Leopardo". "Ele se achava lindo, eu mais ainda. Era um show de narcisismo", descreve, coquete. "Quando ele quis casar, disse não. Era mulherengo, "homemrengo", tudo!"
Na volta da temporada italiana, em 68, encarnou a prostituta-título da peça "Cordélia Brasil". "Confundida" com uma subversiva, foi sequestrada na porta de um hotel paulistano e levada para o DOI-Codi do Rio.
"Foi barra pesada. Eles [militares] me politizaram. Agradeço, porque virei uma fera!", diz, subindo o tom. "Não dá! Na França, nos anos 70, quando os jornalistas me abordavam, só falava que na minha terra tinha tortura. Fiquei psicótica."
A serenidade começa a deixar os olhos de Bengell. É o fim do "primeiro ato".
Frase
A nudez [de "Os Cafajestes'] me trouxe convites, amigos e um gosto do Brasil conservador. Uma vez, não pude descer do avião em BH por causa de uma representante da tradicional família mineira que cobria os peruzinhos das estátuas
NORMA BENGELL,
atriz
"O Guarani" é a única mácula na minha carreira"
Filme de Norma Bengell teve prestação de contas recusada pelo Ministério da Cultura
"Achei que fosse mais forte; pretensão, né?", diz atriz, sobre crise nervosa que a deixou sem fala durante peça de teatro em 2007
DO ENVIADO AO RIO
Norma Bengell perdeu as contas de quantas vezes foi detida durante a ditadura. "Quando não tinham mais ninguém para prender, iam lá em casa."
Em 1971, exilou-se na França. Nos anos seguintes, alternou trabalhos no cinema e no teatro, entre a Europa e o Brasil. Foi vista nos sets de Rogério Sganzerla ("O Abismo"), Glauber Rocha ("A Idade da Terra") e Walter Hugo Khouri ("Eros, o Deus do Amor"). No palco, atuou sob a direção de Patrice Chéreau, figura central das artes cênicas francesas.
Na sequência, viria um hiato teatral de mais de 20 anos. "A gente não se afasta dos lugares. São as pessoas que nos esquecem, não nos chamam mais." Ela tenta espantar a mágoa com um chiste. "Mando tomar "Memoriol"."
A reconciliação deveria vir em 2007, em "O Relato Íntimo de Madame Shakespeare", testemunho ficcional da solidão de Anne Hathaway, mulher do dramaturgo inglês. Mas uma crise nervosa a deixou sem fala em cena e a afastou da peça após quatro apresentações.
"Tive uma alta de pressão por conta de uma perda violenta [sua sócia e amiga íntima Sonia Nercessian morreu de câncer]. Fui com o maior gás e desabei. Me deu um branco. Ai, que vergonha!", diz a atriz, com lágrimas nos olhos. "Achei que fosse mais forte. Pretensão, né?"
Também contribuiu para o desequilíbrio emocional o imbróglio jurídico envolvendo a prestação de contas de "O Guarani" (1996), longa-metragem em que Norma acumulou os papeis de produtora e diretora. Fracasso de público e crítica, o filme teve autorização do Ministério da Cultura (MinC) para captar, via leis de renúncia fiscal, R$ 3,9 milhões. Levantou R$ 2,99 milhões.
O MinC achou notas frias na prestação de contas e passou o caso ao Tribunal de Contas da União, que também acusou retirada de "pró-labore" (quantia que o produtor destina a si mesmo pelo trabalho realizado) em valor superior ao permitido -e determinou a devolução de R$ 3,8 milhões.
"Não me importo"
A Justiça do Rio decretou a indisponibilidade dos bens de Norma, e ela foi indiciada pela Polícia Federal por lavagem de dinheiro, evasão de divisas e apropriação indébita.
"Não me importo nem um pouco. Tenho a consciência limpa. Sei onde ponho meu nariz, de onde pego minhas coisas", afirma, voltando a se emocionar. "Seria incapaz de mexer no que não é meu."
Segundo ela, o ministério "implicou com uma nota dada por uma pessoa que não tinha pago ISS ou INSS, um "s" desses". Norma diz que, ao perceber que havia levantado mais dinheiro do que precisaria, devolveu R$ 500 mil ao MinC.
Ao fim do projeto, restou à produtora e diretora uma remuneração de R$ 17 mil. "Falei "não é possível!". Era um trabalho de dez anos. Então, [integrantes da equipe] falaram que eu tinha de me pagar. Aí, peguei um dinheiro lá e botei no meu pagamento. Não avisei ao MinC, e isso não pode. Me dei R$ 400 mil, porque os cineastas ganham R$ 500 mil, R$ 800 mil, R$ 1 milhão."
Hoje, afirma Norma, um processo foi arquivado, dois foram ganhos por ela e um está em aberto. Seus bens estão bloqueados. "O advogado não me cobra, sabe que estou dura."
Melancolia
Ela mora numa casa de dois andares, com piscina, numa região nobre da capital fluminense. "Comprei essa casa muito velhinha. Fui reformando aos poucos. Não estou numa situação difícil de passar fome, mas tenho de trabalhar para ganhar dinheiro. O que eu roubei d'"O Guarani" deve estar na Suíça, né?", diz. "Se amanhã eu ganhar um Oscar, alguém vai falar: "E "O Guarani'?" É a única mácula na minha carreira."
Já com as pernas "dormentes como as de Winnie", a personagem coberta de terra até o pescoço que ela se prepara para encarnar em "Dias Felizes", Norma pede licença da entrevista para ensaiar. "Depois, erro o texto, e eles [o diretor Emílio di Biasi e o produtor Alexandre Brasil] brigam comigo", justifica, num lance de charme para desanuviar a melancolia que se fixou em seu olhar.
No segundo ato da peça de Beckett, Winnie não mais alcança os objetos que até ali alimentaram sua tagarelice. Norma, de seu lado, abandona as reminiscências cômicas sobre colegas de sets e palcos no "segundo ato" da entrevista. Prefere as digressões sobre os sonhos em que a mãe a visita.
"Que estranho. Parece que sempre tem alguém me olhando", diz a personagem, num dos momentos preferidos da atriz. "Deve ter alguém olhando por mim, né, porque é tudo tão perigoso...", acrescenta Norma, fora do texto. Quando a plateia do teatro ouvir "terá sido mais um dia feliz", já não saberá mais quem fala.
(LUCAS NEVES)
Frase
Tive uma alta de pressão por conta de uma perda violenta [sua sócia e amiga íntima Sonia Nercessian morreu de câncer]. Fui com o maior gás e desabei. Me deu um branco. Ai, que vergonha!
NORMA BENGELL, atriz, sobre crise nervosa em 2007 que a afastou da peça "O Relato Íntimo de Madame Shakespeare"
ANÁLISE
Símbolo sexual, Bengell se tornou sólida atriz INÁCIO ARAUJO
CRÍTICO DA FOLHA
O aparecimento em "O Homem do Sputnik", em 1959, de Carlos Manga, era curto, mas não dava margem a dúvidas: aquela imitação de Brigitte Bardot era tão excitante quanto Brigitte Bardot, e por trás dela havia, sem dúvida, uma estrela. Ou um pouco mais: um símbolo sexual. Em suma, Norma Bengell era mesmo uma aparição.
Não custou até que isso se confirmasse. Depois de aparecer em "Mulheres e Milhões" (1961), de Jorge Ileli, "Os Cafajestes" (1962), de Ruy Guerra, projetaria Norma Bengell de uma vez por todas como bela mulher e atriz talentosa e carismática. Suas qualidades de estrela voltaram a aparecer sem ambiguidade em "Noite Vazia" (1964), onde trabalhou com Walter Hugo Khouri e ao lado de outra estrela que marcou o período, Odete Lara.
Na Itália, onde viveu durante alguns anos por conta de seu casamento com o ator Gabri- elle Tinti, não chegou a ter grandes chances, e seu trabalho de maior destaque foi no faroeste "Os Cruéis", de Sergio Corbucci (1967), em que trabalhou ao lado de Joseph Cotten.
De volta ao Brasil, no final dos anos 60, Norma mostrou-se fiel aos diretores que a haviam mais valorizado no começo de carreira, Khouri e Guerra, mas ampliou com audácia seu campo, ao protagonizar o segundo filme de Júlio Bressane, "O Anjo Nasceu" (1969).
Filmaria com o "outsider" Antônio Calmon "O Capitão Bandeira contra o Dr. Moura Brasil", em 1971, e voltaria a trabalhar com outro expoente do cinema dito "marginal", Rogério Sganzerla, em "O Abismo", de 1977, sem nunca perder seu vínculo com o cinema novo: aparece com destaque, por exemplo, em "A Idade da Terra" (1980), de Glauber Rocha.
Atuou também em novelas, na Rede Globo.
Seu trabalho como diretora é bem menos relevante, embora não lhe falte ambição. "Eternamente Pagu" (1987) não superou as dificuldades da adaptação histórica, ao tratar da vida da escritora Patricia Galvão, dita Pagu, e o que tem de melhor é a atuação de Carla Camurati como protagonista.
Seu filme seguinte, "O Guarani" (1996), não mostrou evolução significativa na mise-en-scène e ainda rendeu-lhe problemas judiciais, por questões contábeis.
Nada que possa afetar a imagem de mulher forte, sensual e moderna que Norma criou no primeiro momento de sua carreira, ou de atriz sólida, que firmou a seguir.
Danusa Leão - Folha de São Paulo - link (aqui)
Como se tornar uma drag queen
Essa história chega a ser ridícula; a vocação vem do berço e não precisa de professor para ensinar |
Nela serão dados inúmeros cursos como expressão literária, expressão cênica e expressão artística, além de um inédito, para formar drag-queens. Já começa aí o preconceito: por que não ensinar também a trabalhar com mecânica, carpintaria, eletricidade, ou a consertar um ar-condicionado? Por que existem pessoas que acham que o mundo gay só é capaz -na cabeça deles- de fazer trabalhos "artísticos"?
Cada um, seja bailarino, lutador de box, cabeleireiro ou bombeiro, tem o direito de escolher com quem vai para a cama, se com alguém do mesmo sexo ou de outro. Detalhe: a escola está aberta também aos heterossexuais. Será que eles acham que vai ter fila de héteros querendo estudar lá?
Essa história de dar aulas para ensinar como se tornar uma drag-queen chega a ser ridícula; a vocação vem do berço e não precisa de professor para ensinar. Mesmo nascendo e crescendo numa fazenda no interior do Acre, uma drag, desde sua mais tenra infância, sabe se "montar" como ninguém.
Ela pega um pano, amarra na cintura, de umas frutinhas faz um colar, passa colorau na boca -mais vermelho que os batons de St. Laurent- e na falta de um sapato alto, anda na ponta dos pés; é com ela mesmo, e é preciso ser muito ignorante para pensar que para ser drag é preciso aprender.
Ao que me consta, o objetivo da humanidade é integrar, fazer com que os humanos de qualquer raça, cor ou religião se sintam como na realidade são -iguais. Se os colégios só para meninas ou só para meninos já não eram recomendados, o que dizer de um dirigido preferencialmente ao mundo gay? Então por que não pensar também em colégios só para brancos e outros só para negros?
As cotas nas universidades já são de um preconceito absurdo; o resultado será a segregação, em seu mais alto grau, e me admira que as autoridades hajam permitido essa aberração. O Brasil tem mania de ser moderninho, mas é bom não esquecer Hitler; é assim que começa.
O mundo é cruel, disso já se sabe, e as crianças, ainda mais cruéis que os adultos. Se eles já fazem maldades com o coleguinha que parece "diferente", imagine do que não serão capazes quando crescerem, sabendo que os "diferentes" estão agrupados, juntos, num só colégio. Aliás, desconfie dos homofóbicos: dentro de muitos deles mora um gay ainda adormecido.
Se a moda pega, veremos no futuro anúncios de edifícios e condomínios exclusivamente para gays, separando cada vez mais o que deveria ser integrado. Essa integração só poderá acontecer quando todas as pessoas do mundo -inclusive o mundo gay, que às vezes é bem preconceituoso- aprenderem que não existem diferenças entre os seres humanos, que as preferências sexuais de cada um são pessoais, e não dizem respeito a ninguém.
Por falar nisso, o Exército dos EUA está abrindo as portas para os assumidamente gays poderem servir "à pátria que eles tanto amam", segundo o presidente Obama; como somos atrasados. Ensinar a conviver com a diversidade, isso é que as escolas e o Ministério da Cultura deveriam fazer.
danuza.leao@uol.com.br
Elio Gaspari - Folha de São Paulo - link (aqui)
A CPI do PT do Rio perdeu o ônibus
O deputado Molon quer investigar a caixa-preta da agência que regulamenta metrô, trens e barcas, mas é só? |
O Metrô do Rio tem transportecas arrogantes que mexem nos ramais sem se preocupar com o suplício que impõem aos clientes. A SuperVia tem trem que sai por aí sem maquinista e seguranças que chicoteiam os passageiros. As companhias de ônibus têm mais: cultivam um política extorsiva de tarifas e, com a cumplicidade dos prefeitos, bloqueiam a implantação do Bilhete Único, prometido por Cabral em 2007 e pelo seu prefeito, Eduardo Paes, em 2008, quando pedia votos.
Governadores, prefeitos, amigo$ e caixa$ de campanhas colocaram o Rio numa situação socialmente humilhante. Até 2004, quando a prefeita Marta Suplicy instituiu o Bilhete Único em São Paulo, as duas cidades estavam num mesmo patamar de desgraça no transporte público. Hoje, 50% dos paulistanos avaliam que os serviços de ônibus e de trens estão entre bom e ótimo. O Metrô vai a 82%. No Rio, esse índice de satisfação talvez não seja atingido nem entre os diretores das concessionárias.
O vexame não é consequência da herança escravocrata, do patrimonialismo ibérico ou da mudança da capital para Brasília. É obra de governos demófobos. Quem fez a diferença em São Paulo foram administradores petistas e tucanos que decidiram tirar o transporte público da vala.
Basta comparar a situação nas duas cidades.
O paulistano paga R$ 2,70 pelo seu Bilhete Único, tem direito a quatro viagens de ônibus num intervalo de três horas. O novo bilhete intermunicipal do Rio custa R$ 4,40, com direito a duas viagens de ônibus, trem ou metrô, por duas horas.
O Bilhete Único de São Paulo atende a todo o município e é usado em 12 milhões de viagens/dia. No Rio essa tarifa só existe para percursos intermunicipais. Estima-se que venha a atender 1,5 milhão de viagens/dia.
Desde ontem, com a nova tarifa municipal de R$ 2,35, um trabalhador que toma dois ônibus para chegar ao trabalho, mais outros dois na volta para casa (ao longo de 25 dias), gasta R$ 235. O de São Paulo gasta R$ 135. Com a diferença de R$ 100, tem direito a sete refeições de R$ 13,75 no carro-chefe do Mc Donald's (BigMac, batatas fritas na porção média, e um refrigerante médio). Para ele, almoço grátis existe.
(Na comparação com o bilhete intermunicipal do Rio, a diferença cai para seis refeições.)
O sistema de transportes públicos do Rio fez uma opção preferencial pela tunga dos passageiros dos ônibus. Antes da criação do bilhete intermunicipal de R$ 4,40, o cidadão que fazia duas viagens sobre trilhos pagava, e continuará pagando, R$ 3,80. Noutra modalidade de integração, passageiros de quatro cidades da Baixada Fluminense pagam R$ 4,00 pelo percurso ônibus-metrô. Os dois sistemas, privados e lucrativos, atendem cerca de 20 mil passageiros/dia.
A política de tarifas dos ônibus, do Metrô e dos trens do Rio é paleolítica. Nenhum concessionário dá desconto de fidelidade aos usuários. Em São Paulo a passagem de Metrô custa R$ 2,65. Se o cliente compra 50, fica por R$ 2,33. (Sobram R$ 16 para o McDonald's.) O Metrô do Rio prometeu esse tipo de desconto e quem acreditou fez papel de paspalho (inclusive o signatário). A Fetranspor carioca, que administra os altos interesses das empresas de ônibus, criou um RioCard, prometeu o programa de descontos e bobo foi quem acreditou (inclusive, de novo, o signatário).
A 4ª FROTA VEM AÍ
O companheiro Obama anunciou que virá ao Brasil no segundo semestre. Se desembarcar antes da eleição, não deverá reclamar caso o acusem de vir dar uma mãozinha ao "Cara". Para os brasileiros, o sonho de festa seria a conjugação de uma vitória na Copa do Mundo, seguida pela visita do companheiro no fim do ano.
EMPULHAÇÃO TUCANA
São Paulo atravessou um dilúvio, redes de esgoto invadiram galerias pluviais, centenas de pessoas perderam o que tinham, e o governador José Serra descobriu que parte do problema está na imprensa:
"Outro dia inaugurei um piscinão com 500 metros cúbicos, o segundo maior piscinão do Brasil. A imprensa não deu a menor bola. Porque dá-se bola para o problema, mas para a solução, não". Que solução? Em 2006, o tucanato paulista anunciou que reduzira de 50% para 1% o risco de enchente nas margens do rio Tietê. Os meios de comunicação, felizes, registraram a proeza e caíram na maldição atribuída ao general Orlando Geisel (1905-1979): "A imprensa desinforma, deseduca e ofende o vernáculo".
Diante de um repique na taxa de homicídios no Estado (4.771 mortos em 2009 contra 4.426 em 2008), Serra atribuiu os números, "basicamente" à "crise econômica e ao desemprego".
É a velha lenda: crise provoca crime. Se fosse assim, como explicar que a taxa de homicídios caiu 10,4% na Grande São Paulo? Mais: o epicentro do terremoto financeiro ficou em Nova York. Lá o desemprego chegou a 10,3%, o maior em 16 anos, mas os homicídios foram 466, com uma queda de 10% em relação ao ano anterior, o melhor resultado desde 1963.
MADAME NATASHA
Madame Natasha acredita que o ministro Tarso Genro fala num código que só ela entende. Por isso concedeu-lhe uma de suas bolsas de estudo com o bônus de um passagem a Cuba (só de ida) pela seguinte afirmação, ao repórter Valdo Cruz:
"Eu acho que o PT vai diminuir bastante a taxa de tradicionalização da política, em função da experiência pelo próprio mensalão". Natasha entendeu o seguinte: "Por causa do mensalão, o PT vai tomar menos dinheiro dos outros".
PÔQUER IBOPE
O presidente do Ibope, Carlos Augusto Montenegro está jogando 67 anos de prestígio da marca de seu instituto no pano verde das incertezas eleitorais.
Há alguns meses ele garante que o PT perderá a eleição presidencial. Faz isso baseado nas pesquisas de seu instituto e da capacidade analítica que acumulou em mais de 30 anos de serviço. Astrólogo não precisa fazer pesquisa e pesquisador não deve cravar previsões.
Com o crescimento da candidatura da comissária Rousseff, registrado pela CNT/Sensus, Montenegro acrescenta que Lula chegou ao teto de sua capacidade de transferir votos. (Isso oito meses antes da eleição e do início formal da campanha.) Se acontecer sabe-se lá o que, e o PT vencer, sempre se poderá dizer que Montenegro avançou o sinal. Mas o que se dirá do Ibope?
ERRO
Estava errado o nome do autor do livro "Desventuras das Nações Favorecidas" ("Misadventures of the Most Favored Nations" (...) no título original, inédito em português.) Ele se chama Paul Blustein e não Paul Blumfeld.
PT, o suplício de uma saudade - Folha de São Paulo - link (aqui)
FRANCISCO DE OLIVEIRA
ESPECIAL PARA A FOLHA
AOS 30 ANOS de sua fundação, o PT realiza todas as previsões da ciência social sobre a estrutura e o funcionamento das grandes organizações. No caso dos partidos, foi Robert Michels quem traçou essa rota.
Burocratizado, previsível, com abissal espaço entre suas elites e a massa, mesmo a hoje fracamente militante. Prestou uma excelente contribuição à democratização nacional, e continuará sendo um dos dois principais partidos políticos no Brasil. Mas não ampliou a democratização nem a republicanização do Estado.
De partido ideológico, transitou rapidamente para "partido-ônibus" e deste para "partido paraestatal". O partido paraestatal se define como uma organização ambígua, que realiza tarefas que o Estado lhe delega.
No caso do PT, o Estado lhe delega as funções de legitimação na massa popular, e o Bolsa Família é seu maior instrumento.
A mídia e a oposição, em geral, acusam o PT de aparelhamento do Estado. O fenômeno real é o oposto: é o Estado quem aparelha os partidos, embora esse aparelhamento venha coberto de deliciosos chantillys de bons salários, influência nas licitações e descaradamente na corrupção desenfreada.
Por isso, o PT já não é um partido da transformação. Na periferia subdesenvolvida, um partido patrimonialista, na versão machadiana/schwartziana da cultura do favor.
O pós-Lula não conhecerá grandes mudanças no rol dos partidos. O PT é o que mais sofrerá com uma magra dieta não governamental, se sua até agora pretensa candidata não se eleger: tensões internas ou a luta pelo espólio pós-Lula podem aproximá-lo do peronismo sem Perón. Se Dilma se eleger, a luta interna pelo controle de um governo sem personalidade e força partidária própria será também muito feroz.
A luta será para saber quem ocupa os cargos-chave, já que o próprio Lula tem a vocação de eminência parda, mas dirigirá Dilma de muito perto. Se os deuses favorecerem o atual governador de São Paulo, então será a vez de o tucanato voltar a engordar, e tratar de desfazer os trunfos lulistas.
Mas a política real passará longe dos partidos, como já acontece, e o Banco Central e as outras instituições serão os verdadeiros eixos da política.
Por último, convém frisar que o PT não tem nenhuma contribuição para a ampliação tanto da participação popular nas decisões mais importantes, como não melhorou a musculatura institucional do Estado.
Desde Vargas, o último grande reformador do Estado, ele segue o mesmo. FHC tentou introduzir um semiliberalismo via agências reguladoras, mas não foi muito longe; Lula, nem tentar tentou. E La Nave Va
Janio de Freitas - - Folha de São Paulo - link (aqui)
De volta ou para trás
AGU adota a coerção para reprimir ação de procuradores contra decisões, ilegais ou polêmicas, do governo |
No primeiro caso está a promissora maneira como o novo presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Ophir Cavalcanti, investiu-se do cargo. Com presteza rara, providenciou ações judiciais para bloqueio dos bens do governador José Roberto Arruda e sua trupe. E prepara ações definitivas, para uso se vir aceita, formalmente, a evidência de suborno de testemunha por Arruda.
Manifestantes, poucos, fazem em Brasília o habitual para os ativistas de sempre, com disposição e disponibilidade invejáveis. Mas as entidades e organizações representativas de setores sociais, cuja soma forma o que se chama de sociedade civil, têm demonstrado no escândalo Arruda o quanto se alienaram nos últimos anos, na medida de sua intimidação ante o avanço de Lula e seu governo sobre as práticas democráticas.
(Exemplos? Pois não, embora só uns poucos, porque suficientes. A ininterrupta liberação de bilhões do BNDES por ordem (incabível) de Lula, em benefício de interesses privados; as distorções na legislação, para favorecer negócios privados em áreas como telefonia e grandes empreitadas de construção; os grandes negócios opacos com armamentos; o comprometimento com a fábrica Dassault e o governo Sarkozy, em desconsideração às razões da FAB às comerciais, e aos desperdícios financeiros que se projetarão no futuro; governo por medidas provisórias; o desprezo à Constituição e à legislação eleitoral, com o ostensivo trabalho eleitoreiro de Lula pela pré-candidata que escolheu sozinho -e chega, que isso aborrece.)
O escândalo maior no escândalo de Arruda -ou no escândalo do momento em Brasília- não é a recepção de suborno por governantes e parlamentares. Isso é dia-a-dia brasileiro, se ontem não foi acolá é porque foi ali, e se não foi ali logo será. Mais chocante é a sem-cerimônia com que Arruda pode continuar tramando, de dentro do governo cavernoso, com seus 40 comandados. Nada e ninguém a constrangê-lo, com os dominantes deputados da Assembleia Distrital a conduzir o caso em que são os próprios réus, como seu chefe.
Se Ophir Cavalcanti der sequência a seu início restaurador, não lhe faltarão causas. É incerto, porém, que não lhe falte maior apoio, com a CNBB dedicada ao conservadorismo vaticano, e as demais entidades expressivas sumidas em si mesmas.
Ativada em linha oposta à que a OAB reanima, está a Advocacia-Geral da União com seu novo chefe, Luís Inácio Adams. A tese que impôs à AGU, para defender Lula e Dilma Rousseff na Justiça Eleitoral, está bem à altura da atitude dos dois viajantes eleitoreiros. "Válido lembrar", acha a AGU de Adams, "que por candidato somente pode ser considerado aquele que possui registro" [registro eleitoral de candidato].
Mas a legislação que proíbe ações eleitorais antes do período legal não se refere a ter ou não ter registro. Além disso, a tese de Adams, em documento da AGU, pressupõe que quem "possui o registro" pode praticar ações eleitoreiras antes do período autorizado pela lei, o que é incorreto.
Já que é "Válido lembrar", lembremos também que as ações questionadas de Lula e Dilma não são relativas a governo ou, por qualquer forma, à União. São ações pessoais, partidárias, de projetos seus como indivíduos e não como presidente e ministra. A Advocacia-Geral da União comparece ao Tribunal Superior Eleitoral em defesa, pois, de ações de autoria e finalidade estritamente pessoais, nada a ver com a União.
Avanço ainda mais revelador, a AGU adota a coerção e a impropriedade jurídica como instrumentos para reprimir a ação de procuradores da República contra decisões, ilegais ou polêmicas, do governo. A AGU comunica que vai processar já os procuradores que acusam falhas no processo de autorização para a usina hidrelétrica de Belo Monte, no Pará. E o fará, em outros assuntos, daqui para a frente.
À parte o fato de que Belo Monte e as usinas de Jirau e Santo Antonio estão cercadas de atos no mínimo suspeitos, por parte do governo federal, a AGU adota a pressão intimidatória em lugar do procedimento apropriado: o confronto das alegações divergentes perante o Judiciário.
O que a OAB promete a AGU recusa.
Governo federal intensifica negócios com empreiteiras - Folha de São Paulo - link (aqui)
Cinco maiores construtoras negociam com BNDES, Petrobras e fundos estatais
Candidata à Presidência, Dilma Rousseff vê "com bons olhos" as transações, que envolvem notórias doadoras de campanhas eleitorais
LEONARDO SOUZA
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
No ano eleitoral, o governo federal intensificou parcerias e transações bilionárias com as cinco maiores empreiteiras do país. Notórias doadoras de campanhas, elas vêm negociando com BNDES, Petrobras e fundos de pensão de estatais.
Os movimentos avalizados pelo Palácio do Planalto coincidem com a consolidação da candidatura da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) à sucessão do presidente Lula. As construtoras foram as maiores doadoras de campanha do PT nas duas últimas eleições.
Entre dezembro e janeiro, a Petrobras anunciou a injeção de R$ 2,5 bilhões na petroquímica Braskem (controlada pela Odebrecht), o BNDES repassou um terço do capital votante da Cemig para a Andrade Gutierrez, e a Casa Civil deu aval à Camargo Corrêa para comprar o controle da Neoenergia e da Eletropaulo e AES Sul.
Em março do ano passado, a Invepar, administrada pela OAS, recebeu aporte de R$ 719 milhões da Funcef (fundo de pensão dos funcionários da Caixa Econômica Federal) e da Petros (Petrobras), o que viabilizou a compra do Metrô do Rio de Janeiro e da concessão da rodovia Raposo Tavares.
Há vários outros grandes negócios recentes das empreiteiras com a participação, direta ou indireta, do governo.
No caso das ações da Cemig, o BNDES as detinha por conta de uma dívida de R$ 2,1 bilhões (em valores atualizados) contraída pela americana AES, inadimplente havia seis anos, para a compra de 33% do capital votante da companhia energética.
Após dois anos de negociação, a Andrade Gutierrez concluiu a transação em dezembro, assumindo a dívida da AES e levando os papéis da Cemig, com dez anos para quitar o débito.
Se não foi um mau negócio para o BNDES, a operação foi melhor ainda para o grupo AG, cliente assíduo do banco estatal. Entre 2008 e 2009, o BNDES liberou quase R$ 7 bilhões para a Oi, controlada por AG e La Fonte, comprar a Brasil Telecom. Lula editou decreto para permitir o negócio.
No fim do mês passado, a Braskem comprou a Quattor, criando a maior empresa do setor nas Américas. Uma semana depois, anunciou a aquisição da americana Sunoco Chemicals, por US$ 350 milhões.
As operações foram possíveis graças ao aumento da participação da Petrobras na empresa -o controle da Braskem está nas mãos da Odebrecht, com 50,1% das ações ordinárias.
Carlos Fadigas, vice-presidente de finanças da petroquímica, ressalta que a maior operação da companhia foi realizada em 2001, com a compra da Copene, rebatizada de Braskem. "Não foi só no governo Lula. É uma história ao longo do tempo", disse ele.
Conforme a Folha noticiou na semana passada, o Palácio do Planalto aprovou a constituição de uma superelétrica formada pela Camargo Corrêa.
Controladora da CPFL, a empreiteira pretende adquirir também as ações na Neoenergia pertencentes à Previ (fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil) e ao BB, e a participação do BNDES na Eletropaulo e na AES Sul -duas operações na casa dos bilhões. Para concretizá-las, a Camargo precisará de financiamento do banco federal de fomento.
Na quarta-feira, Dilma confirmou as tratativas. "Não vemos com maus olhos. É uma tendência internacional ter grandes empresas nessa área." Ressaltou que o negócio ainda não foi "colocado de forma completa para o governo".
A Funcef anunciou também que pretende comprar metade da participação da Camargo Corrêa na usina de Jirau, no rio Madeira, o que ajudaria a capitalizar a empreiteira.
Já a Queiroz Galvão tem na Petrobras um de seus maiores clientes em construção civil e sua principal parceira na área de exploração de óleo e gás.
Procuradas pela reportagem, Invepar-OAS e Queiroz Galvão disseram, via assessoria, que não iriam se manifestar.
Carlos Heitor Cony - Folha de São Paulo - link (aqui)
Flor do asfalto
RIO DE JANEIRO - Uma opinião pessoal, sujeita a chuvas, trovoadas e enchentes como as de São Paulo. Ou piores, porque estanques na memória estagnada do menino que fui sem nunca ter sido realmente um menino. Acho que o mundo era outro. Ao cair da tarde, acendia-se a primeira lâmpada da casa. Minha madrinha era a primeira a saudar a luz que iluminaria o nosso jantar: "Boa noite!" E todos se cumprimentavam, como se estivessem chegando de uma jornada que ficara para trás.
Era hora, também, de os vizinhos se saudarem. E os boas-noites se cruzavam de varanda a varanda, passando pelas cercas de buganvílias -que toda casa tinha uma. E nosso vizinho aparecia já de pijama, arrastando os chinelos.
Ia de casa em casa levando o seu boa-noite. Chamava-se Azevedo, Azevedo não sei de quê. Meu pai dizia que Azevedo era maluco, mas boa alma -antigamente havia essa expressão: boa alma. Pois, com sua boa alma, seu pijama e chinelos, Azevedo dava boa-noite a todos e, por mais que pareça improvável, isso fazia nossa noite realmente boa.
Depois, outras luzes eram acesas, o cheiro das buganvílias ficava suspenso no ar até que chegava o cheiro do jantar que estava indo para a mesa. A cabeça da madrinha, muito branca e limpinha, começava a curvar sobre o peito, ela jamais dormiria sem antes ver acesa a primeira luz da casa, sem antes celebrar a cerimônia da paz com a senha de seu boa-noite.
Na casa ao lado, além das buganvílias, Azevedo preparava-se para dormir com seu pijama, seus chinelos e sua boa alma. Um cair de noite com cheiros bons de uma vida que corria sem pressa. A novidade era o rádio que trazia um pouco da perfídia do mundo para a nossa paz: "Deixou-me a flor do asfalto abandonado, nesta ansiedade louca do desejo...".
Eliane Cantnhêde - Folha de São Paulo - link (aqui)
Titanic do século 21
BRASÍLIA - O regime Hugo Chávez faz água por todos os lados. Quinto produtor de petróleo do mundo, a Venezuela vive uma crise interna grave, vê minguarem os seus aliados "esquerdistas" nas Américas e está pendurada internacionalmente na Rússia e no Irã, o que já diz tudo.
Chávez fez uma faxina institucional na Venezuela, virou-se de costas para os EUA e de frente para a América do Sul e planejou investimentos externos e a conversão dos fabulosos lucros do petróleo na transformação da sociedade e da quase inexistente planta industrial. O messianismo bobo, porém, afundou todos esses sonhos.
Onze anos depois, a Venezuela convive com fuga de investidores, estatizações, fechamento de TVs e uma crise na economia que não fica só nos números, mas atinge a vida das pessoas: que tal racionamento de água e de energia? Os aliados de primeira hora pulam do barco.
Chávez também imaginou uma América do Sul "bolivariana", unida e pronta a enfrentar a potência com regimes fechados e discursos a la Fidel. Falou-se até da "esquerdização" da região, com as eleições na Bolívia, no Equador e na Nicarágua, como se houvesse um processo. Mas o processo engasgou.
O Brasil, em vez de fechar, abre-se para o mundo. Na Colômbia e no Peru, a aliança com os EUA só recrudesceu. Na Argentina, os Kirchner têm problemas demais para brincar de esquerdistas. Agora, o Chile dobra à direita, e Honduras corta o fio da meada bolivariana na América Central e no Caribe.
A Rússia tem o pior desempenho dos Bric na crise econômica, e o Irã, isolado da comunidade internacional e matando seus dissidentes políticos e religiosos, só pensa naquilo: enriquecer urânio. Ambos têm mais o que fazer do que embalar a Venezuela.
Chávez sonhava com o "socialismo do século 21". Os venezuelanos acordam no "titanic do século 21" e sem comandante alternativo.
FHC rotula Lula de ‘tosco’, ‘mentiroso’ e ‘dissimulado’ - Josias de Souza - Bolg do Josias - link (aqui)
Folha
Submetido a ataques de Lula e ao silêncio dos “aliados”, Fernando Henrique Cardoso decidiu cuidar, ele próprio, de sua defesa.
Aceitou o desafio “plebiscitário” de Lula: “Se o lulismo quiser comparar, sem mentir e sem descontextualizar, a briga é boa. Nada a temer”.
Levou às páginas de vários jornais, neste domingo (7), um artigo que resume no título o que lhe vai na alma: “Sem medo do passado”.
No texto, anota que “Lula passa por momentos de euforia que o levam a inventar inimigos e enunciar inverdades”.
Afirma que seu sucessor converteu a eleição de 2010 numa “guerra imaginária”. E acusa: Lula “distorce o ocorrido no governo do antecessor, autoglorifica-se na comparação e sugere que se a oposição ganhar será o caos”.
Enxerga por trás do que chama de “bravatas” de Lula “o personalismo e o fantasma da intolerância”. Aposta que, ecoando um “autoritatismo mais chegado à direita”, Lula dirá cedo ou tarde: “O Brasil sou eu!”
Lamenta que “Lula se deixe contaminar por impulsos tão toscos e perigosos”. Acha que o presidente tem “méritos”. Poderia defender qualquer candidatura.
Afirma que Lula “deu passos adiante no que fora plantado” antes dele. E pergunta: “Para que, então, baixar o nível da política à dissimulação e à mentira?”
Acha que a estratégia eleitoral de Lula e do PT é “simples: desconstruir o inimigo principal, o PSDB e FHC”. Ironiza: “Muita honra para um pobre marquês”.
Sustenta que Lula elegeu o tucanato como “inimigo principal” pela singela razão de que o PSDB pode “ganhar as eleições”.
No esforço para “desconstruir” o PSDB, diz FHC, Lula e o petismo negam “o que de bom foi feito” e apossam-se de “tudo que dele herdaram como se deles sempre tivesse sido”.
Antevê que Lula adotará na campanha um mote: “O governo do PSDB foi ‘neoliberal’”. Prevê que ele vai mirar em dois alvos principais: “A privatização das estatais e a suposta inação na área social”.
Anota no artigo que a realidade desautoriza a tática. E volta a ironizar: “Os dados, ora os dados... O que conta é repetir a versão conveniente”.
Recorda que, há três semanas, Lula disse que “recebeu um governo estagnado, sem plano de desenvolvimento”.
Em seguida, como que decidido a dar resposta à provocação do plebiscito, FHC passa a empilhar os fatos que, segundo afirma, Lula esqueceu de mencionar:
1. “Esqueceu-se da estabilidade da moeda, da lei de responsabilidade fiscal, da recuperação do BNDES, da modernização da Petrobras...”
Uma Petrobras “que triplicou a produção depois do fim do monopólio e, premida pela competição e beneficiada pela flexibilidade, chegou à descoberta do pré-sal”.
2. “Esqueceu-se do fortalecimento do Banco do Brasil, capitalizado com mais de R$ 6 bilhões” e da Caixa Econômica, libertada da “politicagem”.
3. “Esqueceu-se dos investimentos do Avança Brasil, que, com menos alarde e mais eficiência que o PAC, permitiu concluir um número maior de obras”.
4. “Esqueceu-se dos ganhos que a privatização do sistema Telebrás trouxe para o povo brasileiro”: democratização do acesso à internet e aos celulares:
5. Esqueceu-se “do fato de que a Vale privatizada paga mais impostos ao governo do que este jamais recebeu em dividendos quando a empresa era estatal”.
6. Esqueceu-se “de que a Embraer, hoje orgulho nacional, só pôde dar o salto que deu depois de privatizada”.
7. “Esqueceu-se de que o país pagou um custo alto por anos de ‘bravata’ do PT” e do próprio Lula. Menciona o “temor que tomou conta dos mercados em 2002”.
Nesse ponto, FHC diz ter sido “obrigado” a pedir socorro ao FMI. Foi ao Fundo, segundo diz, “com aval de Lula”, já eleito, para prover-lhe “um colchão de reservas”.
Escreve que o “temor” que o petismo despertara “atiçou a inflação”, forçando Lula a “elevar o superávit primário e os juros às nuvens em 2003”.
Para quê? “Para comprar a confiança dos mercados, mesmo que à custa de tudo que haviam pregado, ele e seu partido, nos anos anteriores”.
Mais adiante, FHC escreve: “É mentira dizer que o PSDB ‘não olhou para o social’.” O Real, diz ele, diminuiu a população pobre de 35% para 28% do total.
O índice continuou caindo, até chegar a 18%, já sob Lula, graças “ao efeito acumulado de políticas sociais e econômicas” adotadas antes.
Cita, por exemplo, o salário mínimo: no governo dele (1995 a 2002), “aumento real de 47,4%; na gestão Lula (2003 a 2009), de 49,5%”.
Sobre o Bolsa Família: diz que os programas de treansferência de renda começaram em Campinas e no DF. “E ganharam abrangência nacional em meu governo”.
Compara: “O Bolsa-Escola atingiu cerca de 5 milhões de famílias, às quais o governo atual juntou outras 6 milhões, já com o nome de Bolsa-Família [...]”.
No último parágrafo do artigo, que pode ser lido aqui, FHC anota: “Eleições não se ganham com o retrovisor”. E escreve a frase já reproduzida lá no alto:
“Mas se o lulismo quiser comparar, sem mentir e sem descontextualizar, a briga é boa. Nada a temer”.
O curiso é que o tucanato, a julgar por seu comportamento, teme.
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Escrito por Josias de Souza às 19h42





