Helio Fernandes
Foi uma época tumultuada, com golpes e mais golpes, alguns de bastidores, outros ostensivos, muitos chegando ao Poder, vários derrotados antes da batalha final. A candidatura à Presidência do governador de Minas, Juscelino Kubitschek, esteve sempre entre o veto (militar) e o voto (político), que vinha de longe.
Esse 1955 completava 1954, com o suicídio de Vargas e a posse do vice, Café Filho. E 1954 era consequência de 1950, os fatos desse ano, choque e hostilidade dos mesmos grupos que protagonizaram 1945 e a derrubada da ditadura.
Podem dizer: dessa forma, chegaremos à implantação (e não PROMULGAÇÃO) da República. E estarão rigorosamente certos. A História da República é uma sequencia de golpes, quase que os mesmos grupos militares se combatendo, ganhando ou perdendo sucessivamente.
Candidato, JK teve o apoio meio amedrontado do seu próprio partido, o PSD. Este reunia informes e informações dos quartéis e de líderes civis, “não aceitariam a candidatura e a consequente eleição de Juscelino”. Mas ele se lançou, sem medo, sem apoio, sem dinheiro.
Pediu audiência ao presidente Café Filho, foi recebido por ele em fevereiro de 1955. Comunicou ao presidente, “serei candidato à sua sucessão”. Café Filho, honestíssimo em matéria de dinheiro, não respeitava a própria palavra, falseava sem qualquer constrangimento.
Respondeu a Juscelino: “Fico satisfeitíssimo com a sua comunicação, pois minha decisão é irrevogável: ficarei neutro, não terei candidato”. Logo que JK deixou o Catete, Café Filho se dedicou a telefonar e a conspirar, não fez outra coisa a vida toda. Começou em 1935, participando da “Intentona Comunista”, liderada por Prestes. No interior do Rio Grande do Note, sua terra, foi grande ativista.
Enquanto corríamos o Brasil inteiro (JK alugara um avião Constellation), Café Filho fazia exatamente o contrário do que dissera a Juscelino. Lançou como presidenciável (com apoio total da máquina) o seu chefe da Casa Militar, Juarez Távora (importantíssimo como “Tenente” de 1922 a 1930, chamado de Vice-Rei do Nordeste).
Realizada a eleição em 3 de outubro, foi confirmado o que os bons analistas já sabiam: a vitória de Juscelino. Teve 36 por cento dos votos, mas nenhuma Constituição determinava MAIORIA ABSOLUTA. Só que, garantidos pelo presidente Café Filho, civis e militares tramaram NÃO EMPOSSAR o vencedor. Essa tentativa de materializou em 11 de novembro, completando os 55 anos hoje.
Café Filho foi para o hospital, se dizia doente, mas estava com mais saúde do que qualquer um. Passou o cargo ao vice-presidente da Câmara, Carlos Luz, e se internou no Hospital dos Servidores do Estado (naquela época, assombro até para estrangeiros, depois e até hoje, em plena decadência).
Nesse 11 de novembro aconteceu tudo. Carlos Luz “presidente”, demitiu o Ministro da Guerra, general Lott, e nomeou para substituí-lo o general Fiúza de Castro. (Só que Lott não saiu e Fiúza de Castro não entrou). Os acontecimentos se transferiram para a Câmara dos Deputados.
Às 4 horas da manhã, foi votado o impeachment de Carlos Luz e a posse, como sucessão natural, do presidente do Senado, Nereu Ramos. (Depois de demitir o general Lott, Carlos Luz foi assistir a sessão inaugural do filme “Carmem Jones”, grande direção de Otto Preminger. Quase à meia-noite foi para o Catete, pela manhã recebeu a notícia de que não era mais “presidente”. Integrou então o grupo que foi para São Paulo no “Tamandaré”.
Ele e Carlos Lacerda chegaram juntos. Foram tentar “Janio Quadros a formar um governo no exílio”, maluquice completa. Recusados por Janio, voltaram ao Rio, Lacerda se asilou na Embaixada de Cuba, 5 anos antes de Fidel Castro. O embaixador era admirador de Lacerda, a embaixatriz tinha ódio. A embaixada era numa casa pequena em Copacabana, Rua Djalma Urich, o constrangimento, total. (Mas isto é outra história).
Café Filho continuava no hospital, no dia 16 tentou voltar ao Catete. Recusado, seu advogado Celso Fontenelle (competente e depois várias vezes presidente da OAB da Guanabara e Estado do Rio) entrou com Mandado de Segurança, rapidamente recusado pelo Supremo.
No dia 21, o mesmo Fontenelle impetrou Habeas-Corpus pedindo a mesma coisa: a volta de Café Filho ao Catete. Esse foi um julgamento histórico, sem abusar da palavra. O relator, Nelson Hungria, de pé, de improviso e com aquele vozeirão, fulminou a pretensão, (a palavra é exatamente essa) votando de forma inédita.
Surpreendentemente, o ministro nem se fixou nos autos e sim no caráter, no perfil e no passado de Café Filho. Quase textualmente citando um fato que assisti há quase 55 anos, palavras de Nelson Hungria: “Entregar a Presidência da República a Café Filho, um conspirador nato, será fazer o país viver 40 dias de angústia e incerteza. (Era 21 de novembro,a posse de JK em 31 de janeiro de 1956, estão aí os 40 dias).
***
PS – Rapidamente Nelson Hungria terminou, negando o Habeas-Corpus. Com isso, a Presidência ficava vaga, no mesmo dia 21 a Câmara votava o impeachment de Carlos Luz elegia como presidente EFETIVO até 31 de janeiro, o presidente do Senado, Nereu Ramos.
PS2 – Outra grande figura, Milton Campos, sentado na primeira fila, dizia ao seu amigo Nelson Hungria: “Se eu fosse o relator, votaria, “NEGO PORQUE PEDIU”. Nas palavras dele, um presidente da República não poderia pedir a um Poder desarmado, como o Supremo, para lhe devolver a Presidência.
PS3 – Como previu Nelson Hungria, na data marcada, Nereu Ramos passou o cargo a Juscelino, foi nomeado Ministro da Justiça.
quinta-feira, 11 de novembro de 2010 | 06:10
De onde vêm o poder e o prestígio de Temer? Presidente do PMDB, acumulou com a presidência da Câmara. Agora, vice da República, não sai da presidência do PMDB. Garantido pelos lobistas.
Helio Fernandes
É fato único na História da República, começando na “velha”, ultrapassando duas ditaduras, as respectivas transições, e se mantendo sempre em dois cargos. Sendo um deles a presidência do PMDB, gerador de todos os outros.
Não deixa a presidência do PMDB, “inventou” a “presidência licenciada”, com o apoio total e irreversível da legenda, comandada pelos lobistas. E os que não são lobistas, mas “governistas” de todos os governos, engrossam seu Poder.
E mais importante ainda: os que não pertencem a esses dois grupos, têm passado, dignidade e credibilidade, jamais protestam ou se revoltam contra o domínio desse homem sem prestígio fora do PMDB, não tem voto, sempre fica em último lugar na legenda de deputado. Como o último eleito foi cassado, ele entrou. E continuou como presidente do maior partido brasileiro.
Muita gente pode acreditar que estou gastando velório importante com defunto ruim. Muito ao contrário, é o defunto mais destacado de toda a República. Ninguém chora por ele, mas está no sepultamento de todos, sempre de terno preto, compungido, que palavra, sendo cumprimentado e lembrado para todos os cargos. Não apenas lembrado, mas indicado e nomeado.
Vejamos sua repercussão: 1 – Sem votos para se eleger, um deputado eleito foi cassado (quem duvida que tenha trabalhado para essa cassação?), assume, é escolhido mais uma vez presidente do PMDB, o maior partido do país.
2 – O menos votado dos 513 deputados, é facilmente eleito (eleito?) presidente da Câmara, o terceiro cargo da República. 3 – Na luta para decidir quem seria o vice na chapa da favoritíssima Dilma, surgiu logo o nome de Michel Temer, que não foi contestado ou afastado jamais.
4 – Foi promovido sem qualquer dúvida, era o TERCEIRO personagem na hierarquia do Poder, agora é o SEGUNDO. Gostaria de ser o PRIMEIRO, mas aí precisaria de votos diretos, coisa que jamais teve. Apenas para repetir o que se diz neste país em que tantos vices assumiram: “O vice está a uma batida de coração da Presidência”. Que isso não aconteça, pelo fato e pela desgraça de ver um lobista como presidente da República.
Durante a campanha eleitoral, apesar da certeza da vitória, e praticamente vice-presidente, não largou a presidência da Câmara, ficará neste cargo até 31 de dezembro. Apesar de já ter outro cargo para o qual foi “eleito”. (Embora esteja no Senado, um projeto restringindo os Poderes do Vice. Mas não será aprovado, que audácia tentarem reduzir os Poderes desse vice importantíssimo. Aliás, esse projeto, que tenta diminuir também a presença dos suplentes de senadores, é uma verdadeira farsa).
Contestada a credibilidade política e eleitoral de Michel Temer, vejamos a credibilidade moral. Sofreu 21 acusações de irregularidades em matéria de dinheiro, nenhuma foi investigada, embora as provas fossem abundantes.
Sabendo que nada lhe aconteceria, manteve o silêncio dos inocentes, perdão, dos arrogantes e dos inatingíveis. Essas denúncias surgiram em plena campanha eleitoral, o PT tentou substituí-lo na vice, não conseguiu coisa alguma, o menor apoio, nem no PT nem no PMDB. Era natural e compreensível.
O trânsfuga moral, político e eleitoral que é Michel Temer, só não acumula a presidência da Câmara com a vice-presidência, por dois motivos. 1 – Não é mais deputado. 2 – Mesmo se pudesse, não teria interesse em acumular, não pode substituir a ele mesmo. Mas todas as indicações dos lobistas do PMDB passarão por ele, é o líder e o chefe.
PS2 – Nem falaram com a presidente eleita, procuraram Lula diretamente. Com um simples telefonema, Temer foi incluído, os três membros do PT reverenciaram subservientemente o novo “companheiro”.
PS3 – “Genial”, tentando evitar qualquer dispersão, fez a proposta destinada à unanimidade: “A divisão dos cargos (não apenas ministérios) será a mesma do governo Lula”. Serve a ele, aos lobistas do PMDB, e aos 10 partidos da base.
PS4 – Fica de fora apenas o PT, que não admite “ficar de fora”. Está estudando e analisando a situação. Com Dilma e Temer, o que o PT pode reivindicar?
É fato único na História da República, começando na “velha”, ultrapassando duas ditaduras, as respectivas transições, e se mantendo sempre em dois cargos. Sendo um deles a presidência do PMDB, gerador de todos os outros.
Não deixa a presidência do PMDB, “inventou” a “presidência licenciada”, com o apoio total e irreversível da legenda, comandada pelos lobistas. E os que não são lobistas, mas “governistas” de todos os governos, engrossam seu Poder.
E mais importante ainda: os que não pertencem a esses dois grupos, têm passado, dignidade e credibilidade, jamais protestam ou se revoltam contra o domínio desse homem sem prestígio fora do PMDB, não tem voto, sempre fica em último lugar na legenda de deputado. Como o último eleito foi cassado, ele entrou. E continuou como presidente do maior partido brasileiro.
Muita gente pode acreditar que estou gastando velório importante com defunto ruim. Muito ao contrário, é o defunto mais destacado de toda a República. Ninguém chora por ele, mas está no sepultamento de todos, sempre de terno preto, compungido, que palavra, sendo cumprimentado e lembrado para todos os cargos. Não apenas lembrado, mas indicado e nomeado.
Vejamos sua repercussão: 1 – Sem votos para se eleger, um deputado eleito foi cassado (quem duvida que tenha trabalhado para essa cassação?), assume, é escolhido mais uma vez presidente do PMDB, o maior partido do país.
2 – O menos votado dos 513 deputados, é facilmente eleito (eleito?) presidente da Câmara, o terceiro cargo da República. 3 – Na luta para decidir quem seria o vice na chapa da favoritíssima Dilma, surgiu logo o nome de Michel Temer, que não foi contestado ou afastado jamais.
4 – Foi promovido sem qualquer dúvida, era o TERCEIRO personagem na hierarquia do Poder, agora é o SEGUNDO. Gostaria de ser o PRIMEIRO, mas aí precisaria de votos diretos, coisa que jamais teve. Apenas para repetir o que se diz neste país em que tantos vices assumiram: “O vice está a uma batida de coração da Presidência”. Que isso não aconteça, pelo fato e pela desgraça de ver um lobista como presidente da República.
Durante a campanha eleitoral, apesar da certeza da vitória, e praticamente vice-presidente, não largou a presidência da Câmara, ficará neste cargo até 31 de dezembro. Apesar de já ter outro cargo para o qual foi “eleito”. (Embora esteja no Senado, um projeto restringindo os Poderes do Vice. Mas não será aprovado, que audácia tentarem reduzir os Poderes desse vice importantíssimo. Aliás, esse projeto, que tenta diminuir também a presença dos suplentes de senadores, é uma verdadeira farsa).
Contestada a credibilidade política e eleitoral de Michel Temer, vejamos a credibilidade moral. Sofreu 21 acusações de irregularidades em matéria de dinheiro, nenhuma foi investigada, embora as provas fossem abundantes.
Sabendo que nada lhe aconteceria, manteve o silêncio dos inocentes, perdão, dos arrogantes e dos inatingíveis. Essas denúncias surgiram em plena campanha eleitoral, o PT tentou substituí-lo na vice, não conseguiu coisa alguma, o menor apoio, nem no PT nem no PMDB. Era natural e compreensível.
O trânsfuga moral, político e eleitoral que é Michel Temer, só não acumula a presidência da Câmara com a vice-presidência, por dois motivos. 1 – Não é mais deputado. 2 – Mesmo se pudesse, não teria interesse em acumular, não pode substituir a ele mesmo. Mas todas as indicações dos lobistas do PMDB passarão por ele, é o líder e o chefe.
***
PS – Quando Dona Dilma “designou” os três membros do que chamou de “Comissão de Transição”, não incluiu Michel Temer, a formação dessa “comissão” não resistiu 24 horas.PS2 – Nem falaram com a presidente eleita, procuraram Lula diretamente. Com um simples telefonema, Temer foi incluído, os três membros do PT reverenciaram subservientemente o novo “companheiro”.
PS3 – “Genial”, tentando evitar qualquer dispersão, fez a proposta destinada à unanimidade: “A divisão dos cargos (não apenas ministérios) será a mesma do governo Lula”. Serve a ele, aos lobistas do PMDB, e aos 10 partidos da base.
PS4 – Fica de fora apenas o PT, que não admite “ficar de fora”. Está estudando e analisando a situação. Com Dilma e Temer, o que o PT pode reivindicar?
O mundo dos negócios guia-se por uma máxima do universo de Guimarães Rosa: “Pra uns as vacas morrem, pra outros até boi peça a parir”.












