sábado, 2 de julho de 2011

Jelly-Roll Morton - Mamie's Blues

 
 

Jelly Roll Morton, The Dirty Dozen



Jelly Roll Morton - Honky Tonk Blues

 
 

Jelly Roll Morton - Wolverine Blues

 
 

Ex-presidente Itamar Franco morre aos 81 anos em São Paulo - Folha.com - link (aqui)

02/07/2011 - 11h18

http://f.i.uol.com.br/fotografia/2011/06/01/60650-970x600-1.jpeg

DE SÃO PAULO

O senador e ex-presidente Itamar Franco, 81, morreu neste sábado no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, onde estava internado desde o dia 21 de maio, quando foi diagnosticado com leucemia.
Itamar se licenciou do Senado poucos dias depois para realizar o tratamento contra a doença e, segundo os médicos, vinha respondendo bem às sessões de quimioterapia. 

No dia 27 de junho, porém, boletim médico mostrou que o senador havia contraído uma pneumonia grave e foi transferido para a UTI (Unidade de Tratamento Intensiva) do hospital. A leucemia havia sido detectada após o ex-presidente realizar exames devido a uma forte gripe.
O ex-presidente, que governou o país de 1992 a 1994, após a renúncia de Fernando Collor de Mello, completou 81 anos no último dia 28 de junho. Itamar também governou o Estado de Minas Gerais entre 1999 e 2003 e foi eleito senador no ano passado, com 5.125.455 votos.
PERFIL
O engenheiro Itamar Augusto Cautiero Franco nasceu em 28 de junho de 1930 a bordo de um navio. Ele foi registrado em Salvador (BA). Sua carreira política teve início no MDB (Movimento Democrático Brasileiro), legenda pela qual foi eleito prefeito de Juiz de Fora em duas gestões, entre 1967 e 1971 e entre 1973 e 1974.
Também representando o MDB, Itamar chegou a Brasília para seu primeiro mandato como senador em 1974. Ele se reelegeu em 1982, já como militante do PMDB.
Quatro anos depois, Itamar migrou para o PL, após divergências com o diretório mineiro do PMDB. Ele chegou a concorrer ao governo de Minas, mas perdeu a disputa para a antiga legenda.
Em 1989, durante as primeiras eleições diretas para presidente depois da ditadura militar, Itamar foi eleito vice-presidente do Brasil pelo PRN, na chapa de Fernando Collor de Melo. Collor recebeu 20 milhões de votos no primeiro turno e 35 milhões no segundo turno, contra o petista Luiz Inácio Lula da Silva.
PRESIDÊNCIA
Itamar Franco assumiu a Presidência da República em 2 de outubro de 1992, depois da renúncia de Collor e do processo que levou ao seu impeachment. O mineiro nascido na Bahia permaneceu no cargo de comandante em chefe da nação durante dois anos, três meses e 29 dias.
Seu governo foi marcado por uma coalizão de partidos com o objetivo de garantir a governabilidade e a estabilidade democrática após o processo de impeachment que mobilizou a sociedade e os crescentes problemas econômicos, como a escalada da inflação.
Entre os feitos de Itamar como presidente está a aprovação do IPMF (Imposto Provisório sobre Movimentação Financeira) que, em 1996, passou a se chamar CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira).
Em 1993, o governo realizou um plebiscito previsto na Constituição de 1988 para escolher a forma e o sistema de governo brasileiros. O resultado confirmou o regime republicano e o sistema presidencialista.
Ainda durante a gestão de Itamar, em 1993, Fernando Henrique Cardoso foi nomeado ministro da Fazenda, e incumbido com a tarefa de combater a inflação. No mesmo ano, o Brasil adotou o Cruzeiro Real, e foi lançado o Plano de Estabilização Econômica, que preparava o país para a introdução de uma nova moeda.
Em julho de 1994, o real começou a circular.
A estabilidade econômica do Plano Real garantiu a FHC a vitória na disputa presidencial daquele ano.
VIDA PÚBLICA
Desde que passou a faixa de presidente a FHC, em 1º de janeiro de 1995, Itamar seguiu na vida pública. Ele se tornou embaixador do Brasil em Portugal entre 1995 e 1996 e, depois, representou o país na OEA (Organização dos Estados Americanos) de 1996 a 1998.
Neste ano, depois de não ter conseguido a indicação do PMDB para disputar a Presidência, Itamar venceu as eleições para o governo de Minas Gerais.
Ele tentou concorrer nas eleições presidenciais de 2002 e 2006, mas perdeu a indicação do partido novamente para outros candidatos. Em 2009, Itamar anuncia sua filiação ao PPS e, no ano seguinte, disputa as eleições para o Senado.
O ex-presidente foi eleito senador por Minas com 5.125.455 votos. Seu primeiro suplente é José Perrela de Oliveira Costa.

Défilé Chanel Printemps-été 2011 - Madame Le Figaro, fr



Bar é fotografia - aнка черноская

 


http://www.artlimited.net/user/0/0/0/3/4/6/6/artlimited_img272320.jpg


aнка черноская

"For The Gods"

O bar e os acessórios

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59 €
Espadrille en canvas, 1789 Cala.

Dilma vai ao supermercado...



Deu no blog do Augusto Nunes (aqui)

01/07/2011
às 18:08 

A fusão do Pão de Açucar com o Carrefour: o BNDES entra com R$4 bilhões para favorecer um empresário de estimação

Ao implodir todas as falácias forjadas pelo governo e pela direção do BNDES para explicar a inexplicável injeção de R$4 bilhões na fusão do Pão de Açúcar e do Carrefour, o artigo de Carlos Alberto Sardenberg publicado na seção Feira Livre deixou claro que a operação foi montada para favorecer o empresário Abílio Diniz. Para confirmar em última instância o curto e preciso diagnóstico do senador Aloysio Nunes Ferreira, que qualificou o negócio de “absurdo e escandaloso”, só faltava a entrada em cena do advogado Márcio Thomaz Bastos. Agora não falta mais nada: ao contratar o advogado-geral do Planalto para representá-lo, Abílio produziu simultaneamente uma confissão de culpa e outro indício veemente  de que o governo se meteu em outra enrascada de bom tamanho.
Criminalista talentoso, Márcio vem esbanjando inventividade desde 2005, quando abandonou as funções de ministro da Justiça para livrar da cadeia os quadrilheiros do mensalão. Transformou crime em erro, ladrão em tesoureiro distraído e produto do roubo em recursos não-contabilizados. Decerto encontrará alquimias menos bisonhas que as apresentadas pelos trapalhões federais. O mais recente se ampara na necessidade de defender a pátria ameaçada por vorazes concorrentes internacionais. “O patriotismo é o último reduto dos canalhas”, disse o escritor inglês Samuel Johnson. Como qualquer generalização, essa também é perigosa. Mas se aplica exemplarmente aos nacionalistas de araque em ação neste início de inverno.
“O mérito da operação é criar maioria nacional num conglomerado internacional”, recitou nesta quinta-feira o mineiro Fernando Pimentel, que ganhou o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior por ter naufragado na tentativa de virar senador. O fervor nacionalista contagiou o vice-presidente do BNDES, João Carlos Ferraz: “A bandeira verde e amarela é sempre importante”, declamou a jornalistas interessados em saber se a doação bilionária tem motivações técnicas ou políticas. Se fosse tão importante assim, deixaram de replicar os repórteres, o banco não estaria financiando aventuras em Cuba, na Venezuela e em outras paragens controladas por parentes ideológicos do PT.
É muito cinismo, berram os fatos. Até as gôndolas dos supermercados sabem que Abílio Diniz foi um generoso patrocinador das campanhas eleitorais de Lula e Dilma Rousseff. Tornou-se amigo de infância de Lula e continua a entrar sem bater nos gabinetes federais ocupados por quem manda.  Por algum motivo, arrependeu-se de ter vendido o controle do Pão de Açúcar aos sócios franceses do grupo francês Casino, resolveu romper o contrato e, para manter-se entre os barões do reino, pensou na fusão com o Carrefour. Se a ideia fosse boa, não lhe faltariam parceiros na iniciativa privada. Como só ele sairá ganhando, foi cobrar a conta dos favores prestados aos amigos no poder.

Pós-Walds - Estadão online - link (aqui)

 

No artigo a seguir, um dos mentores da poesia concreta revê a extraordinária herança cultural do escritor paulista Oswald de Andrade, o homenageado deste ano da Festa Literária Internacional de Paraty, que começa nesta quarta-feira, 06

01 de julho de 2011 | 15h 34


AUGUSTO DE CAMPOS
Conheci "Oswáld" (não "Ôswald") em 1949, na companhia de Décio Pignatari e Haroldo de Campos. Eu tinha 18 anos, Décio, o mais velho, 22. Fomos apresentados a Oswald por Mário da Silva Brito, que nos levou ao apartamento do poeta. Estava ainda muito ativo, defendendo o Modernismo e combatendo a "geração de 45", em conferências e desaforadas crônicas (Telefonemas), e às vezes aos risos e berros no Clube de Poesia, com o costumeiro sarcasmo e muitos trocadilhos.

http://www.estadao.com.br/fotos/oswaldandrade292.jpg

Loredano

Mesmo reconhecido como o último representante radical dos modernistas (Menotti del Picchia, Guilherme de Almeida e Cassiano Ricardo eram biacadêmicos), não era levado muito a sério nem pelos poetas dominantes nem pelos "chato-boys" da revista Clima, que chegou a botar fé no oposto da poesia oswaldiana, a oratória engajada de Rossine Camargo Guarnieri... Mas ele se dava com todos. Temido polemista, porém sociável e ridente, por certo contava que suas gozações públicas, de ferinas a ferozes, fossem perdoadas pelos inimigos com os quais facilmente se reconciliava sem propriamente se emendar.
Em memorável comunicação ao Congresso de Poesia, realizado em São Paulo, em 1948, tribuna da "geração de 45", Patrícia Galvão, solidária com Oswald, o descreve "de facho em riste, bancando o Trotsky, em solilóquio com a revolução permanente". Em 1982, eu trouxe à tona esse importante documento, desconhecido das novas gerações e de nós mesmos, no livro Pagu: Vida-Obra.
Contemporâneo do grupo de 45, porém marginalizado por sua paixão pelos modernistas, Mário da Silva Brito era amigo íntimo de Oswald. Nenhum de nós, os "novíssimos", tinha livro publicado, mas as revistas e jornais literários já haviam estampado alguns dos nossos poemas. Oswald se entusiasmou tanto com a nossa visita que deu a cada um de nós, autografado, um volume dos poucos que ainda tinha de Poesias Reunidas O. Andrade (1945), edição especial de largo formato ilustrada por Tarsila, Segall e por ele (tiragem: 200 cópias). Mais adiante, presenteou-nos com um volume da esgotadíssima edição de Serafim Ponte Grande (1933) com a dedicatória: "aos Irmãos Campos (Haroldo e Augusto) - firma de poesia". Guardo dele uma impressão de vulnerabilidade e solidão, sob a máscara galhofeira. Magoado com a ambígua amizade e o mal disfarçado desdém da intelectualidade da hora, apostava nos jovens. Depois nos encontramos várias vezes em reuniões em sua casa ou na de amigos comuns. Quando completou 60 anos, em 1950, época em que foram publicados O Auto do Possesso, de Haroldo, e O Carrossel, de Décio, saudamos Oswald em documento público, "Telefonema a Oswald de Andrade", assinado por uns poucos escritores, no qual o poeta era apontado como "o mais jovem de todos nós". Décio nos representou no famoso "banquete antropofágico" em homenagem ao poeta "sexappealgenário", no Automóvel Clube.
Como que pressentindo que não o veria mais, Décio quis visitá-lo antes de partir em viagem para a Europa, marcada para 1954. Acompanhei-o nessa que foi a derradeira vez em que vi Oswald, já muito doente, em agosto de 1953. Recebeu-nos afundado numa poltrona, com a cabeça escalpelada encoberta por uma boina, e sempre assistido por sua amorosa esposa, Maria Antonieta d’Alkimin. Na ocasião, mostrei-lhe alguns dos poemas coloridos da série Poetamenos; Décio levou-lhe alguns textos inéditos. Revelou curiosidade e satisfação pelo nosso experimentalismo. Foi esse encontro que certamente inspirou a simpática menção que nos fez - "meninos que pesquisam" - na crônica Gente do Sul (que leva a rubrica dos seus "telefonemas"), estampada em 25 de agosto no Diário de S. Paulo. Em março de 1954, no convite impresso do espetáculo inaugural do Teatro de Cartilha, criado em Osasco por Décio Pignatari, este chegou a anunciar uma apresentação da peça O Rei da Vela (de que ninguém falava então), projeto interrompido pela sua viagem à Europa.
Oswald não sobreviveu para assistir à sua reabilitação pelos jovens em que apostara os escassos volumes de suas edições de minguada tiragem. Pouco se falava nele quando foi ressuscitado nos manifestos da poesia concreta, em 1956. Seus livros mofavam nos sebos. Numa entrevista que demos, Haroldo e eu, para o Jornal Popular, de São Paulo, em 22 de dezembro de 1956, proclamávamos: "Não é hábito, no Brasil, a obra de invenção. É verdade que, com o Modernismo, a literatura brasileira logrou atingir uma certa autonomia de voz, que, porém, acabou cedendo a toda sorte de apaziguamentos e diluições. Contra a reação sufocante, lutou quase sozinha a obra de Oswald de Andrade, que sofre, de há muito, um injusto e caviloso processo de olvido sob a pecha de ‘clownismo’ futurista. Na realidade, seus poemas (Poesias Reunidas O. Andrade), seus romances-invenções Serafim Ponte Grande e Memórias Sentimentais de João Miramar (de tiragens há muito esgotadas, para não falar de seus trabalhos esparsos ou inéditos), que ainda hoje, por sua inexorável ousadia, continuam a apavorar os editores, são uma raridade no desolado panorama artístico brasileiro. A violenta compressão a que Oswald submete o poema, atingindo sínteses diretas, propõe um problema de funcionalidade orgânica que causa espécie em confronto com o vício retórico nacional, a que não se furtaram, em derramamentos piegas, os próprios modernistas e que anula boa parte da obra de um Mário de Andrade, por exemplo."
Hoje, como disse Décio Pignatari - o Oswald magro do Concretismo -, a Antropofagia "virou carne de vaca"... e a diluição e o consumo se encarregaram de banalizar o tema, que no entanto é mais sério do que parece. Terra de muitos estudantes e estudiosos de filosofia mas de poucos filósofos, o Brasil tem em Oswald um dos raros intelectuais a que esse termo, em sua acepção integral, pode ser aplicado sem constrangimento. Embora os seus escritos continuem a ser rejeitados pelo mundo acadêmico, evidenciam-no como um solitário pensador original. Suas provocações não ortodoxas, expressas em manifestos combativos, entrevistas e textos diversos, culminam com as de recorte mais normatizado, A Marcha das Utopias e A Crise da Filosofia Messiânica, tese com a qual se inscreveu em concurso para a cátedra de Filosofia da USP, em 1950, sem que lhe fosse dado assumi-la. Oswald não enrolava o pensamento em cipoais argumentativos. Era sintético e direto. Tinha o "defeito" literário de escrever bem. Mas não se apresentava como um meritório difusor ou questionador de doutrinas. Seu coquetel filosófico, temperado com novos fermentos dialéticos, continha ideias inovadoras. Também aqui não podia ser facilmente compreendido.
À medida que a sua obra, em parte ainda inédita, vai sendo republicada e até revelada, mais nos surpreende a atualidade de suas intervenções, apesar dos equívocos pontuais de que ninguém escapa. Oswald não era nenhum santo, nem queria ser canonizado. Fazia suas médias e às vezes decepcionava aos jovens "franciscanos" (apud Nelson Rodrigues) que éramos nós. O livro Estética e Política, organizado por Maria Eugenia Boaventura (Editora Globo, 1992), revelou-nos afinal o texto da conferência "Novas Dimensões da Poesia", que o poeta proferiu em 19 de maio de 1949 no Museu de Arte Moderna de São Paulo. Ali Oswald repete o inaceitável elogio que vinha fazendo ao ex-adversário Cassiano Ricardo, que ele insistia agora em considerar "o maior poeta brasileiro", tendo chegado em outros textos a compará-lo até a Fernando Pessoa. Em compensação exalta Gôngora e Mallarmé, em claro desafio ao preconceito da crítica literária que chamava de "sociográfica". A certa altura tem esta bela colocação, que continua válida em nossa era "pós-utópica": "A poesia de hoje balança entre o mistério restaurado da vida e as estrelas quietas, entre a face kierkegaardiana do desespero, o deliquial e o perplexo. E mostra esse neutro avesso da utopia a que o homem se habituou, depois da frustração dos seus messianismos. Mas a revolta não acabou. E ainda se pergunta: Como cantar com a boca cheia de areia?" Sem ter ouvido as palavras do poeta, eu as ecoaria com a "areia areia arena céu e areia" do meu poema O Rei Menos o Reino, publicado no caderno literário do Jornal de São Paulo em 9 de abril de 1950. Oswald ainda reflete sobre "o caminho percorrido": "Fizemos até os primeiros passos na direção de uma geometria do verso." E acentua: "poesia é tudo: jogo, raiva, geometria, assombro, maldição e pesadelo, mas nunca cartola, diploma e beca." Menciona, por fim, Kierkegaard, Nietzsche, Joyce e Lautréamont. Conclui com estas palavras: "Mallarmé chamou de poema em prosa o maior esforço versificado do século XIX: Un Coup de Dés Jamais n’Abolira le Hasard."
Não basta Oswald ter "torcido o pescoço à eloquência" dos versos que nunca fez, criado não o poema-piada - como parecia à maioria dos seus contemporâneos -, mas o poema-palavra ou palavraprimal (amor/humor), arquitetado os seus romances-invenção, pensado, na síntese do matrianárquico "bárbaro-tecnizado", a última utopia para a civilização ideal que imaginara, e lançado dois manifestos que ainda são a suma e o sumo do ideário poético da modernidade. Tudo isso que nos fez colocá-lo entre os nossos mentores. Sabemos agora que ele nos antecipou também na reavaliação do "lance de dados" mallarmaico, que seria tido por nós como o limiar da poesia do nosso tempo e era renegado na época até pela crítica francesa. E que ele, positivamente, nunca teve medo da palavra "geometria".
Augusto de Campos é poeta, tradutor e ensaísta, autor, entre outros, de Viva Vaia (Ateliê), Não e Despoesia (ambos publicados pela Perspectiva) e do recém-lançado Poemas, de E.E. Cummings (Editora da Unicamp)

Sebastião Nery - Tribuna da Internet - link (aqui)

 
 
sábado, 02 de julho de 2011 | 03:19

Histórias de Jequié, Lomanto e Getulio

Sebastião Nery            
Pálido, os olhos tristes e a alma cansada, Getulio Vargas desceu em Belo Horizonte, na tarde de 12 de agosto de 1954, a convite do solidário governador Juscelino Kubitschek, para inaugurar a siderúrgica Mannesman. O Rio pegava fogo com o  inquérito da Aeronáutica (a “Republica do Galeão”) contra os que tentaram matar Lacerda.
Liderados pelos comunistas e udenistas, nós estudantes, com lenços  amarrados na boca, impedimos que Vargas atravessasse a cidade pela Avenida Afonso Pena, sendo o cortejo presidencial obrigado a seguir pela Avenida Paraná e tomar a Avenida Amazonas até a Cidade Industrial.   
No palanque, ao lado do governador e dos colegas jornalistas, vi bem suas mãos trêmulas mas a voz forte. Vargas deu seu recado aos inimigos:
- “Advirto aos eternos fomentadores da provocação e da desordem que saberei resistir a todas e quaisquer tentativas de perturbação da paz”.
Da inauguração, Getulio foi direto para o palácio das Mangabeiras. Não conseguiu dormir, segundo confessou depois a Juscelino. Depois do café da manhã, antes de voltar para o Rio, de pé, sorrindo discretamente, com seu indefectível charuto, ao lado de JK, Getulio nos cumprimentou, um a um, e disse algumas palavras aos poucos jornalistas ali presentes.
Eu era o mais novo, fiquei na ponta. Achei sua mão gordinha e fria:
- É muito jovem. De que Estado você é?
- Da Bahia, presidente. De Jaguaquara.
- Onde fica?
- Entre Salvador e Ilhéus, perto de Jequié.
Ele parou, pensou um pouco :
- Jequié, Jequié. Conheci o jovem prefeito de lá. Conversamos,  me deixou uma boa impressão. É um rapaz de futuro.
- É o Lomanto, presidente.
- Pois é, um rapaz de futuro.
Despediu-se com seu discreto e distante sorriso e a mão gordinha e fria.
***
NEWTON PINTO E LAFAIETE
Lafaiete Coutinho, paraibano, grande, simpático, médico, udenista baiano, deputado estadual e duas vezes federal pela UDN da Bahia (de 47 a 59), secretario de Segurança do governo Balbino e secretario da Agricultura do governo Juracy, estava em uma solenidade no Fórum de Salvador quando o tambem médico Newton Pinto, ex-prefeito de Jequié e deputado estadual, sábio, doutor em misterios, viu a palma de sua mão:
- Lafaiete, você é um homem de coragem? Posso dizer uma coisa?
- Pode, Newton. O que você quiser. Lá vem você com sua quiromancia (Aurélio : “Adivinhação pela leitura das palmas das mãos”).
- Então arrume sua vida,porque você só tem poucas semanas de vida.
Lafaiete deu uma gargalhada.
***
Era 1959, o presidente Juscelino Kubitschek e o governador da Bahia, Juracy Magalhães, estavam  empenhados em arranjar um candidato que unisse a UDN, o PTB e até mesmo o PSD, para impedir que a UDN lançasse Jânio para presidente. Juscelino e Juracy achavam que podia ser Juracy,mas aceitavam Osvaldo Aranha,do PTB, amigo dos dois e de Jango.
Juracy mandou Lafaiete ao Rio Grande do Sul perguntar a João Goulart, vice-presidente de Juscelino e líder absoluto do PTB, se aceitava Osvaldo Aranha como candidato de união nacional, com apoio de JK.
Na véspera da viagem, jornalista politico de “A Tarde”, ao lado da  secretaria da Agricutlura, ali na praça Castro Alves, entrei no gabinete de Lafaiete, que me contou a conversa com Newton Pinto e me interrogou :
- Você, que passou oito anos no seminário e estudou essas coisas todas, acredita em quiromancia, o destino traçado nas linhas das mãos?
- Nem acredito nem desacredito. Mas não me meto.
Ele deu uma gargalhada:
- Então estou a caminho da morte. Vou a amanhã a Porto Alegre e, de lá, pegar um aviãozinho qualquer para chegar à fazenda do Jango, em São Borja. Não gosto de avião pequeno.  Mas não tem outro jeito.Vou em missão política do Juracy, não posso dizer nada, na volta te conto.
***
Lafaiete foi, conversou, voltou em um sábado, e do aeroporto de Salvador seguiu direto para o palácio da Aclamação, comeu uma feijoada com Juracy, e lhe contou a conversa toda, inclusive a resposta de Jango :
- Diga ao governador Juracy que gosto muito do doutor Osvaldo Aranha, amigo fiel do ex-presidente Vargas até o ultimo instante e meu amigo também. Mas a política do Rio Grande é um terreiro, que só dá para um galo só. Se ele se elege,  me aposenta, acabou minha liderança. 
Lafaiete pegou o carro oficial e foi para casa, na Graça.
Quando tocou a campainha, caiu morto na varanda.
Newton Pinto sabe da vida e da morte.

Comercial antigo - Cotonetes Johnson & Johnson - "Banheira"- 1978



Charge do dia

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Pancho - Gazeta do Povo - Curitiba, PR