segunda-feira, 29 de agosto de 2011
A glória do ministro das cidades - Estadão online - link (aqui)
Pequeno município da Bahia, reduto eleitoral dos Negromonte, recebeu R$ 3 mi em 35 dias
29 de agosto de 2011 | 0h 00
Angela Lacerda - O Estado de S.Paulo
ENVIADA ESPECIAL A GLÓRIA (BA)Localizada a 446 quilômetros de Salvador, no sertão baiano, Glória é uma cidade pequena, com 15 mil habitantes distribuídos na zona rural e comércio acanhado. Poucos veículos circulam na cidade. Não há semáforo. Mas o município, base eleitoral do ministro das Cidades, Mário Negromonte (PP), e administrado pela mulher dele, Ena Wilma, é um ímã de verbas federais.
A pacata Glória recebeu R$ 992.254 do Ministério das Cidades (Programa de Segurança e Educação no Trânsito) para a construção de uma ciclovia e pista de cooper de três quilômetros de extensão. O município terá um Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU), no valor de R$ 205.965 - outro incentivo da pasta das Cidades.
A empresa Evereste Consultoria e Marketing Ltda., vencedora da licitação para elaborar o PDDU, pertence a dois aliados dos Negromonte: Antonio Almeida Júnior e Claudio Ademar da Silva. Claudio da Silva foi diretor de Meio Ambiente da prefeitura até o ano passado e Antonio Almeida é diretor da Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrário (EBDA), cargo para o qual foi indicado pelo ministro e seu filho, o deputado estadual Mário Negromonte Júnior. A oposição levanta dúvidas sobre a empresa. "É de fachada", diz o deputado estadual Paulo Rangel (PT-BA).
Glória estampa, logo na entrada, placas de convênios federais. Do Ministério dos Esportes tem R$ 1.529.574,36 para a edificação da Praça da Juventude e do Ministério do Turismo R$ 989.637,14 para a revitalização do Balneário Canto das Águas.
O total dos recursos destinados ao município - para obras e equipamentos - ultrapassa R$ 4 milhões. Em 35 dias (de 2 de julho a 5 de agosto), R$ 3,025 milhões foram pagos, incluindo R$ 200 mil do Ministério do Desenvolvimento Agrário para a implantação de uma unidade de beneficiamento de frutas. O mesmo ministério destinou mais R$ 150 mil para a aquisição de um caminhão baú refrigerado para transporte de produtos da agricultura familiar. Do Ministério da Integração Nacional o município recebeu R$ 225 mil para a compra de um caminhão pipa.
Somente duas obras tiveram liberação parcial dos recursos: a Praça da Juventude - que recebeu R$ 300 mil, ou 19,23% do custo total - e o PDDU, que teve a liberação de R$ 160 mil, o equivalente a 80% do total do custo. Para os demais projetos, a liberação foi total.
Marido. "Tenho certeza que todas as prefeitas deste País gostariam de ter um marido ministro", afirma Nivaldo Lopes, secretário de Governo da prefeita Ena Wilma. "Isso não quer dizer que todo recurso que chega a Glória seja suspeito", retruca.
Lopes destaca a eficiência da prefeitura, que "apresentou projetos que atendiam a todos os critérios estabelecidos por lei" e passaram por "análise técnica rigorosa". Lembra que os projetos vêm sendo trabalhados desde 2009 em vários ministérios, e que a força de Negromonte, que é deputado federal, é anterior ao seu cargo de ministro. "Aqui é base eleitoral dele, é para cá que ele tem que trazer benefício, se não trouxesse seria criticado."
A prefeita estava fora da cidade durante a visita da reportagem, na sexta-feira. "Ela está em trânsito", informou o secretário.
Críticas. A oposição vê desperdício de dinheiro público em alguns projetos, como o da ciclovia. "É brincadeira, uma imoralidade. O número de carros da cidade é pequeno, nunca se ouviu falar de acidente de trânsito, há poucas bicicletas e a maioria delas é usada pelos agricultores na zona rural", critica o deputado Rangel. "É obra de metrô?", indaga Ricardo Vieira, dono da churrascaria Boi e Bode na Brasa, que fica perto da futura ciclovia.
"O volume de recursos não condiz (com a realidade da cidade)", reforça o vereador de Gloria, Alex Almeida (PTN), um dos poucos opositores da prefeita na Câmara. Segundo ele, depois de assinado pela prefeitura, cópias dos convênios deveriam ser enviadas para a Câmara em 30 dias. O que não ocorreu.
Para a oposição, a forma dos Negromonte fazer política é a troca de benesses. Negromonte Júnior, segundo deputado estadual mais votado na Bahia, era desconhecido até ser nomeado, em 2009, para o cargo de assessor especial (DAS C-2) da secretaria estadual de Infraestrutura.
Com a promessa de ter sua identidade protegida, um morador da zona rural contou ter recebido R$ 200 do grupo de Ena Wilma para votar nela, em 2008. Segundo ele, sua esposa fez o mesmo. "Não foi só a gente não, muita gente recebeu dinheiro", disse ao Estado. Polêmicas à parte, as obras quebraram o marasmo da cidade. "Aqui nunca teve obra, a prefeitura está trabalhando bem pra caramba", disse o servente Messias Siqueira Neto, sergipano, 50 anos. Às 17 horas de sexta, cinco pessoas caminhavam na pista onde será a futura ciclovia.
Augusto Nunes - Coluna do Augusto Nunes - link (aqui)
O tiro no pé do guerrilheiro de araque
Transformar um quarto de hotel em aparelho clandestino é sinal de pouca inteligência. Transformar um endereço no centro de Brasília em esconderijo para tramoias políticas e/ou comerciais envolvendo figurões do governo e do Congresso é prova de indigência mental. Fazer essas coisas simultaneamente só pode ser coisa do companheiro José Dirceu. Como comprova a reportagem de capa da edição de VEJA, ele nunca perde a chance de engrossar a colossal coleção de ideias de jerico inaugurada já nos tempos de líder estudantil.
Em 1968, Dirceu conseguiu namorar a única espiã da ditadura militar. Se quisesse prendê-lo, a polícia poderia dispensar-se arrombar a porta: Heloísa Helena, a “Maçã Dourada”, faria a gentileza de abri-la. Ainda convalescia do fiasco amoroso quando resolveu que o congresso clandestino da UNE, com mais de mil participantes, seria realizado em Ibiúna, com menos de 10.000 moradores. Até os cegos do lugarejo enxergaram a procissão de forasteiros.
No primeiro dia, mandou encomendar 1.200 pães por manhã ao padeiro que nunca passara dos 300 por dia. O comerciante procurou o delegado, o doutor ligou para a Polícia Militar e a turma toda acabou na cadeia. Ninguém reclamou: enquanto o congresso durou, todos haviam tentado dormir sob a chuva por falta de tetos suficientes. Incluído no grupo dos resgatados pelos sequestradores do embaixador americano, Dirceu avisou que lutaria de armas na mão contra a ditadura e foi descansar na França.
O lutador exilado empunhou taças de vinho num bistrô em Paris até trocar a Rive Gauche pelo cursinho de guerrilheiro em Cuba. Com o codinome Daniel, aprendeu a fazer barulho com fuzis de segunda mão e balas de festim, declarou-se pronto para derrubar a bala o regime militar e voltou ao Brasil no começo dos anos 70. Percebeu que a coisa andava feia assim que cruzou a fronteira e, em vez de trocar chumbo no campo, foi trocar alianças na cidade.
Fantasiado de Carlos Henrique Gouveia de Mello, negociante de gato, baixou em Cruzeiro do Oeste, no interior do Paraná, casou-se com a dona da melhor butique do lugar e entrincheirou-se balcão do Magazine do Homem, de onde só saía para dar pancadas em bolas de sinuca no bar da esquina. Em 1979, quando a anistia foi decretada, Carlos Henrique, apelidado de “Pedro Caroço” pelos parceiros de botequim, abandonou a frente de combate municipal, o filho de cinco anos e a mulher, que só então descobriu que vivera ao lado do revolucionário comunista menos belicoso de todos os tempos.
Livre de perigos, afilou o nariz que ficara adunco graças a uma cirurgia plástica, ajudou a fundar o PT e não demorou a virar dirigente. Ao tornar-se presidente, escolheu Delúbio Soares para cuidar da tesouraria. Depois da campanha vitoriosa de Lula, não se contentou com a chefia da Casa Civil: promoveu-se a superministro e monitorou o preenchimento dos milhares de cargos de confiança.
Nomeado capitão do time do Planalto, mandou e desmandou até a explosão do escândalo protagonizado por Valdomiro Diniz, o amigo vigarista com quem dividira um apartamento em Brasília. E então o país descobriu que o herói de Passa Quatro transformara um extorsionário trapalhão em Assessor para Assuntos Parlamentares. Atirado à planície pelo escândalo do mensalão, conseguiu ser cassado por uma Câmara dos Deputados que não pune sequer os integrantes da bancada do PCC.
Sem mandato, com os direitos políticos suspensos e desempregado, descobriu que estava pronto para prosperar com o tráfico de influência. Desde 2005 junta dinheiro como facilitador de negócios feitos por capitalistas selvagens. E hoje é chamado de Jay Dee por patrões que, na hora de tratar os detalhes do acerto, mandam a criançada sair da sala e vão à janela para saber se algum camburão estacionou por perto.
Quem se dedica a tal ofício tem de ser discreto. Dirceu acha possível seguir embolsando boladas de bom tamanho como “consultor” sem abandonar a discurseira contra a elite golpista e a mídia reacionária, sem renunciar à luta pelo controle do PT, sem arquivar a saudade dos tempos de primeiro-ministro, sem despir o uniforme de guerrilheiro de araque. A reportagem de VEJA contou a última dessa flor de esquizofrenia. Logo será a penúltima.
No momento, Dirceu jura que houve uma tentativa de invasão do aparelho clandestino montado em Brasília. Ele também vive jurando que o mensalão não existiu. “Tenho uma biografia a preservar”, recitou mais uma vez o chefe do que o procurador-geral da República qualificou de “organização criminosa sofisticada”. Aos 65 anos, o que tem José Dirceu é um prontuário a esconder.
Sebastião Nery - Tribuna da Internet - link (aqui)
segunda-feira, 29 de agosto de 2011 | 03:37
O cabo aloprado
Sebastião Nery
Era cabo do Palácio , quando Ademar governava São Paulo. Todo fim de mês, recebia um envelope fino, fechado, para entregar a um senhor gordo e estranho nos subúrbios da capital. E trazia de volta, mandado pelo senhor estranho e gordo, um pacote grande, fechado.
Um mês, dois meses, seis meses, todo dia 30, o cabo levando o envelope fino e trazendo o pacote grande. Morria de curiosidade, mas não tocava o dedo. Um dia, o cabo não se conteve. Discretamente, abriu pela ponta o pacote grande. Era dinheiro, muito dinheiro. Tudo nota de mil. Resistiu à tentação, entregou o pacote inteiro, intocado. No mês seguinte, deram-lhe de novo o envelope fino. Abriu. Era um cartão escrito à mão:
- “50 contos no bicho que der.”
O cabo não aguentou. Pegou uma caneta num botequim, emendou:
- “50 contos no bicho que der. Aliás, 55”.
Não lhe deram mais o envelope fino e o pacote grande. Foi demitido.
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MERCADANTE
MERCADANTE
Aloizo Mercadante, outro cabo aloprado, fez campanha com equipe aloprada, não sabe como apareceram milhões desovados por seu chefe de campanha em um quarto de hotel e, no Senado, estarreceu o pais revogando uma renuncia irrevogável. Depois, ele, que se envaidece de seu mestrado de economia na Universidade de Campinas, escreveu patético artigo na “Folha de S. Paulo” dizendo que no inicio do governo Lula a Petrobrás valia apenas 14 bilhões de dólares (sic).
O cabo dois falou do que não sabe. Como venho de uma década, a de 50, que viu e ajudou a Petrobrás a nascer, consultei antigo companheiro daquelas lutas, meio século funcionário da empresa, testemunha ocular da historia, das pessoas que melhor conhece a Petrobrás no Brasil, professor Helio Duque, doutor em Ciências Econômicas pela UNESP (Universidade do Estado de São Paulo), com varios livros sobre a economia brasileira e deputado federal pelo MDB e PMDB do Paraná de 1978 a 1990.
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PETROBRÁS
1. – Na Bahia, na década de 50, começou a era do petróleo no Brasil. Em cinco décadas, a Petrobrás investiu, só em produção e exploração, 124 bilhões de dólares. E outros tantos bilhões na sua logística de terminais e transporte com navios próprios na pioneira Frota Nacional de Petroleiros. Investimentos responsáveis por 11 refinarias e a usina de xisto no Paraná.
PETROBRÁS
1. – Na Bahia, na década de 50, começou a era do petróleo no Brasil. Em cinco décadas, a Petrobrás investiu, só em produção e exploração, 124 bilhões de dólares. E outros tantos bilhões na sua logística de terminais e transporte com navios próprios na pioneira Frota Nacional de Petroleiros. Investimentos responsáveis por 11 refinarias e a usina de xisto no Paraná.
2. – Nas décadas de 60 e 70, além das refinarias de Mataripe na Bahia, Cubatão em São Paulo e Duque de Caxias no Rio, a Petrobrás construiu a Gabriel Passos em Minas, a Alberto Pasqualini no Rio Grande, a Presidente Vargas no Paraná e a fábrica de Asfalto no Ceará. Em 74, comprou as refinarias de Capuava e Paulínia em São Paulo e Manaus no Amazonas. A última por ela construída foi a Henrique Lage, em São Paulo, há 26 anos. Agora está construindo a Abreu Lima em Pernambuco.
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PETROQUIMICA
PETROQUIMICA
3. – O braço petroquímico da Petrobrás vem desde 1967, com a Petroquímica, responsável pelas três centrais existentes no Brasil e que, no final da década de 90, participava acionariamente de 36 empresas coligadas e controladas, com um faturamento de 7 bilhões de dólares.
4. – A Petrobrás Distribuidora tem a maior rede de fornecimento de combustíveis e lubrificantes do pais, com uma receita bruta superior a 55 bilhões de reais. Do preço final da gasolina, 32% são do ICMs, 13% da Cide/Cofins, 14% dos distribuidores e revendedores, 9% do álcool anidro, ficando a empresa com 32%. A gasolina é cara pela alta taxa de impostos que incidem no preço da bomba: só 32% do preço final são da Petrobrás.
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GÁS
GÁS
5. – Introduzindo o gás natural na matriz energética nacional, entre 1980 e 2004, a Petrobrás levou sua expansão a 1.790%. O investimento foi de 16 bilhões de dólares. O Plano Estratégico sempre teve por objetivo liderar o mercado de gás natural e derivados na América Latina. As reservas terão forte crescimento nos próximos anos, com o investimento em gasodutos desde 1978, e a descoberta da província de gás de Juruá, a 780 quilômetros de Manaus. Com a exploração em águas profundas, incorporou grandes reservas de gás, ante o crescente consumo de residencias e industrias.
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PRE-SAL
PRE-SAL
6. – Os negócios do petróleo no Brasil correspondem a 10% do PIB (Produto Interno Bruto). Em 2008, quando Mercadante publicou o artigo, o faturamento da Petrobrás foi de 234 bilhões de reais. E o seu valor de mercado era de 425 bilhões. A folha de pagamento dos funcionários foi de 8,2 bilhões. A Cosipa, a 42ª maior empresa brasileira, teve faturamento bruto de 8,1 bilhões. O lucro da Petrobrás foi de 22,8 bilhões e os investimentos, no ano, de 144 bilhões. Os impostos pagos ao governo atingiram 55,7 bilhões. Na exportação, gerou 28,5 bilhões, o dobro da Vale do Rio Doce, que teve 15,7 bilhões de reais.
7. – Há 14 anos a Petrobrás começou a pesquisar petróleo debaixo da camada de sal nas bacias de Campos, Espírito Santo e Santos, a 280 kms. da costa. Após grandes investimentos e desenvolvimento tecnológico de ponta comandado por seus técnicos, encontrou-se grande reserva a 7 mil metros. A partir de 2015, e seguramente em 2020, sua exploração atingirá a maturidade. Os investimentos para o pré-sal serão acima de 600 bilhões de dólares. O retorno, com o barril a 80 dólares, será de 4 trilhões de dólares. Se for a 100 dólares, serão 5 trilhões.
E o cabo, quer dizer, o ministro aloprado não sabia nada disso.
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