O título reproduz o começo do recado que recebi neste sábado do grande Celso Arnaldo. Se eu fosse Marta Suplicy, desistiria imediatamente da vida de colunista. Não perca mais um texto antológico. (AN)
MARTA SUPLICY: PORQUE HOJE É SÁBADO, É DIA DA PIOR CRONISTA DO MUNDO
Celso Arnaldo Araújo
A simetria é quase perfeita: em sua coluna na página 2 da Folha, o pior escritor do mundo – José Sarney, presidente do Senado — foi substituído à altura por sua primeira vice, a senadora Marta Suplicy, sempre fiel à sua histórica luta pela igualdade de direitos entre os gêneros (no tempo dela, se dizia sexos): a cada semana, caprichosa, ela se esforça para ser a pior cronista do mundo, superlativo que já tinha obtido na psicologia e na prefeitura.
A simetria não chega a ser perfeita, porque Sarney era o titular da coluna de sextas-feiras. Marta é a nova dama dos sábados. Faz sentido: Deus criou a mulher e depois descansou no domingo. No caso da Folha, Ele ainda deixou sua dileta filha Marina de brinde, às sextas.
Todo sábado agora tem texto da Marta na Folha. Imagino que, nos dias que antecedem a entrega, a senadora sofra um bocado. Coloque-se no lugar dela: o maior jornal do País encomenda a você uma crônica semanal, religiosamente semanal. Pode escolher o assunto que queira – sempre sabendo que será lido potencialmente por mais de 500 mil pessoas, muitas delas com um espírito crítico exacerbado.
Mas há um problema: você não tem assunto e, o que é pior, não sabe escrever. Não sabe juntar duas ideias no papel – nem dar-lhes forma legível, a exemplo de Dilma no exame oral. Pertence à elite, estudou nos melhores colégios, fala línguas, já teve programa diário na TV, já foi prefeita de São Paulo e assinou um punhado de livros sobre a alma feminina – mas esse último item no currículo não quer dizer rigorosamente nada. Chalita escreveu mais de 50, antes dos 40 anos.
Como nasceu a crônica de hoje? Na terça-feira, dia em que os senadores voltam a Brasília para a árdua jornada até quinta, ela ainda não tinha o tema – e estava preocupada. Mas foi só subir no avião e se sentar. Grandes cronistas têm estalos de Vieira. Da simples observação do que está à sua volta, surge um grande momento das letras. Ela inicia:
“Neste voo semanal que faço a Brasília, sentei na cadeira do corredor. Logo chegou um senhor, que se sentou ao meu lado, e uma jovem senhora, à janela. Vim lendo os jornais, o vizinho do meio dedicava-se às palavras cruzadas e a jovem deu um jeito de se comunicar contando que tinha sido assaltada naquela semana: “Senadora!…”.
Esqueça o senhor e a jovem senhora que “chegou”. Não leve em conta a cadeira do avião – eu sei que você, quando viaja, senta-se em poltronas. Concentre-se na cena. Uma senadora da República lendo jornais, compenetrada, inexpugnável, no corredor da aeronave. A moça à janela, com o intervalo de uma poltrona e de um senhor que faz palavras cruzadas, comunica-lhe que foi assaltada e acusa:
– Senadora!
Não havia algum policial a bordo?
Marta apressa-se em esclarecer:
“Não era uma cobrança, mas a voz era de indignação e de certo desespero por não ver prevenção à repetição do gigantesco trauma vivido.”
Não é à toa que não temos segurança: “prevenção à repetição” é por si só um atentado. Mas vamos conhecer o gigantesco trauma que inspirou a senadora na coluna de hoje:
“O vizinho permanecia alheio à conversa e ela colocava que sua casa é num bairro nobre de São Paulo e o ocorrido fora às 6h40. O descuido, segundo a polícia, ocorreu em deixar o portão automático aberto um tempo antes de sair. Os assaltos desse tipo têm ocorrido principalmente quando a pessoa sai ou volta para casa e é rendida”.
Um grande cronista sempre tem uma variada gama de estilos narrativos: para manter a atenção do leitor, a senadora passa a escrever como se fosse um boletim de ocorrência – “haja visto” (uso de propósito a linguagem dos escrivães) o emprego torrencial do próprio verbo ocorrer, sobretudo em “e o ocorrido fora”. E esse “ela colocava que sua casa”, hein? Não dá prisão em flagrante? Os assaltos descritos por Marta não deixam a menor dúvida quanto sua natureza redundante e violenta: as pessoas são rendidas e então assaltadas.
Prossegue a substituta de Sarney na presidência do Senado e na Folha:
“Entraram sete indivíduos, bem vestidos e armados até os dentes. Fizeram roleta-russa com os donos para achar o cofre, que não existia, bateram no dono da casa a ponto de um dos quatro empregados rendidos pedir aos ladrões “por favor, levem ele para um caixa eletrônico e parem com isso!”.
Se eu fosse a polícia, mandava investigar esse empregado – pode ser até o mentor, capaz de ter fornecido a senha dos patrões. Mas os bandidos decidiram ficar mais um pouco:
“Foram 40 minutos de pesadelo. Ameaças, medo, a dona da casa oferecendo as joias, os objetos de valor que eles poderiam não identificar, como um vaso raro, e até explicando que naquela gaveta onde encontraram joias reluzentes eram todas falsas. Ouviu que Swarovski também tinha valor no mercado.”
Mais duas suspeitas: conivência familiar e presença de um marchand no bando.
“E a passageira continuou a desabafar, perdida na impotência”.
Aqui, parece falar a psicóloga pioneira em educação sexual na TV, não a senadora. Mas o relato da passageira da agonia é tão intenso, tão real, que de repente Marta passa a se colocar, ela própria, na cena do crime:
“Duas coisas também me chamaram a atenção: os bandidos gritavam “não vou matá-los, só quero os bens”; e o atendimento na delegacia patrimonial, na qual o ressaltado era a sorte de terem mantido a vida. Perder bens materiais, pelo jeito, já faz parte da situação que temos de nos acostumar“.
Além de um marchand, havia no bando um professor de português: “Não vou matá-los” nem a presidente Dilma diria a seus ministros. E esse atendimento na delegacia “no qual o ressaltado era a sorte”? E a “situação que temos de nos acostumar”. Não valem um BO por si só?
A historieta prossegue com “um tal de MobileMe” e envolve até o gênio de Steve Jobs. Convém ler a Folha de hoje para conhecer a parte digital do episódio que chocou Marta.
Nossa preocupação maior, a esta altura da crônica, deve ser com o passageiro do meio – o das palavras cruzadas. No meio desse palavrório entre a assaltada e a senadora das assaltadas, ele deve ter tentado acionar a porta da emergência. Não: no relato de Marta, ele era pura atenção e deu até um pitaco na conversa:
“Quanto mais detalhes ela contava mais eu ficava pasma e o jogador de palavras cruzadas se interessava. Animado, ele já participava dizendo que morava em Moema, “onde não dá para sair na rua”.
Presumo que, antes de se mostrar animado com a insegurança total na porta de sua casa em Moema, o homem da “cadeira” do meio tenha até conseguido preencher alguns espaços com as dicas sugeridas na conversa entre as duas novas melhores amigas. Por exemplo: “Serviço criado pela Apple que transfere novas mensagens, contatos e eventos do calendário remotamente para os seus dispositivos, oito letras”.
Mas a coluna de sábado precisa terminar – e, como ensinou Sarney, o segredo de uma crônica é o fecho de ouro, que faz o leitor voltar ao começo, para tentar entender o que leu. A senadora Marta Suplicy, primeira vice-presidente do Senado Federal, impressionada pelo fato de que os refinados ladrões não foram presos apesar do MobileMe que carregaram, lava as mãos com o sabonete Trousseau e exorta “as autoridades”:
“Com a palavra, a polícia e a Secretaria da Segurança.”
Ah, como é fácil ser senador! Como é fácil ter uma coluna na Folha!