16/04/2012 - 19:08
Josias de Souza
O senador Pedro Simon (PMDB-RS) escalou a tribuna para se contrapor ao que chamou de “movimento para esvaziar a CPI” do Cachoeira. “Nessa Casa eu não confio”, disse ele. “Confio é na força da imprensa, nos jovens aceitando a importância do seu gesto e vindo aqui para a frente” do prédio do Congresso.
Discursando para um plenário esvaziado, Simon relatou: “Estamos aqui, nesta segunda-feira de paz e tranquilidade. Não há coisa pior do que o barulho do silêncio. O que está acontecendo? Dizem que há um movimento no sentido de esvaziar a CPI. O PT teria se arrependido. Teria entendido agora que foi um exagero.”
Estranhou a mudança da direção dos ventos. Recordou que, na semana passada, a CPI fora pedida pelo próprio líder da bancada do PT, Walter Pinheiro (BA). Lembrou que, “insuflada por Lula e apoiada pela bancada do PT”, a tese da investigação obtivera uma rara “unanimidade”.
“A CPI foi aceita pela liderança do PSDB, foi aceita, sem muita paixão, pelo PMDB. Havia uma unanimidade. Era de se imaginar que, hoje, haveria aqui um grande debate”. Em vez disso, chegou-se a uma “segunda-feira morta, ou morna. É esse o ambiente dessa Casa. É o ambiente do Congresso, se nos deixarem a sós. Fica tudo para depois, tudo como antes no quartel de Abranches.”
Criticou a ausência da vice-presidente do Senado, Marta Suplicy (PT-SP). O presidente José Sarney, enfatizou Simon, encontra-se no hospitalizado. “Longa vida ao rei. Sua saúde vai bem, obrigado. Rezamos por ele. Mas, estando ele no hospital, imaginei que estaria aqui, presidindo, a senadora Marta Suplicy.”
Simon disse ter procurado o requerimento de CPI, para assiná-lo. Contou que o líder do governo, Eduardo Braga (PMDB-AM), lhe informou que sua assinatura era a 26a. Pelo regimento, bastam 27 rubricas para viabilizar a CPI. “Se quiserem entregar o requerimento, entrega para quem? O presidente está no hospital e a vice não apareceu. Onde está a senadora Marta?”
“Olha, estamos numa encruzilhada”, prosseguiu Simon. “Não tem chance nenhnuma de dar empate, de ficar tudo igual. Ou saímos com dignidade ou saímos mal. E a forma de resolver é apurar, levar adiante.”
O senador mencionou o vídeo veiculado na semana passada, no qual o presidente do PT, Rui Falcão, dissera que “a bancada do PT na Câmara e no Senado defende uma CPI para apurar esse escândalo dos autores da farsa do mensalão.”
“O grande motivo é esvaziar o julgamento do mensalão”, Simon interpretou, “trazer para debate uma discussão que, ao fim, levaria ao esvaziamento do mensalão. A presidente [Dilma Rousseff] ficou muito irritada, segundo a imprensa. Com razão. Criar CPI para esvaziar o julgmento do mensalão não tem lógica.”
Simon realçou as coincidências entre o escândalo atual e as crises que sacudiram o primeiro mandato de Lula. Lembrou que a primeira grande crise envolveu Carlinhos Cachoeira, mostrado em vídeo sendo achadado por Waldomiro Diniz, mais tarde convertido em assessor de José Dirceu na Casa Civil.
Sobreveio o mensalão, disse Simon. E prevaleceu na época um conselho do então ministro Marcio Thomaz Bastos (Justiça), autor de “uma tese que o Lula levou adiante.” A tese de que “mensalão foi caixa dois”. Uma versão que, nas palavras de Simon, “foi esvaziada no STF quando o procurador-geral da República denunciou a quadrilha organizada e disse que o então chefe da Casa Civil [José Dirceu] era o chefe da quadrilha.”
Simon fustigou: “A diferença é que o senhor Marcio Thomaz Bastos, que era ministro da Justiça, hoje é advogado do senhor Cachoeira –R$ 15 milhoes.” O senador disse que sempre teve “admiraçao grande” por Bastos. “Foi um grande ministro da Justiça, que respeito pela integridade.”
Os sentimentos de Simon em relação ao ex-ministro mudaram. “Hoje, tenho mágoa”, disse. “Achei interessante que ele, depois de ser ministro, renunciou para retomar sua vida particular. E todo mundo fala que dois a três dos ministros do Supremo indicados pelo Lula passaram por ele.” Simon disse que compreende que todo réu merece defesa, “mas não faltarão advogados para o senhor Cachoeira, principalmente com o dinheiro que ele tem.”
Simon associou a atmosfera de esvaziamento da CPI à nova disposição do pivô do escândalo, preso na cadeia federal de Mossoró (RN) desde 29 de fevereiro. “O que se fala é que estado de ânimo do senhor Cachoeira é muito angustiante. Na prisão, rasparam o cabelo dele. […] Nesse seu desespero, ele teria uma metralhadora giratória, com gravações dos últimos anos, que deixam muita gente preocupada.”
“Por isso é que muitos não quiseram fazer parte da CPI”, provocou Simon. “Por isso é que muitos não quiseram ser relator [do processo contra Demóstenes Torres] no Conselho de Ética, por isso o [P]MDB não quer a presidência da CPI. Cachoeira estaria na situação de falar. E mais do que falar, quer dar a gavação que envolve Deus e todo mundo.” Só Deus, segundo Simon, “está tranquilo.”
Simon declarou que seu partido, o PMDB, vive uma situação que ele “nunca tinha visto”. No Conselho de Ética, “abriu mão da presidência”. Em entrevista, o líder Renan Calheiros “disse que o partido não é de CPI. Hoje, o presidente do [P]MDB [senador Valdir Raup] diz no jornal que, se criarem CPI, não devemos fazer questão da presidência. O que está acontecendo? Meu Deus, a que situação chegamos!”
Para Simon, havendo “pressão da imprensa” e “mobilização da juventude”, a CPI será um caminho sem volta. Testemunha de escândalos pretéritos, lembrou que também a CPI dos Correios, que desaguou no mensalão, e a comissão do Collorgate, que resultou no impeachment, começaram assim, “desacreditadas”.
“Na CPI do mensalão, colocaram todo mundo do governo. Foi chamada de CPI chapa branca. E deu no que deu. Governo tinha ampla maioria. Os fatos foram aparecendo. O presidente da CPI era do PT, o relator era do PMDB. Tiveram a dignidade de agir e [tudo] foi apurado.”
“A CPI do impeachment também foi assim, começou devagar. […] O Collor mandou o pessoal sair às ruas de verde e amarelo, para apoiá-lo. E a mocidade lotou o Brasil de preto. Sem ninguém pedir, por conta dela. Cercaram essa Casa. E deu no que deu”. Também a Ficha Limpa, segundo Simon, saiu graças à mobilização das ruas.
Simon declarou-se “otimista”. “Eu creio que a sociedade vai se movimentar. E nós vamos correr, com a sociedade atrás, nos empurrando. Sou um cara tão otimista que não me surpreenderá se, amanhã, o senhor Marcio Thomaz Bastos renunciar à condição de advogado do senhor Cachoeira.”
O senador encerrou: “Por tudo isso, nessa segunda feira, cheia de paz –eu nunca gostei da paz de cemitério— digo: não vamos parar. Os líderes não vão silenciar. Ainda que a imprensa dê a entender que até a oposiçao está meio que não querendo, que o negócio já pegou muita gente –um governador aqui [o petista Agnelo Queroz], outro em Goiânia [o tucano Marconi Perillo].”