Carlos Chagas
Duas semanas atrás o PMDB celebrou 46 anos de fundação, num jantar
com direito à presença do vice-presidente Michel Temer e outros líderes.
Nos idos de 1966, chamava-se apenas MDB, Movimento Democrático
Brasileiro. O parto foi difícil. O Ato Institucional número 2, editado
meses antes, extinguiu os antigos partidos e criou o bipartidarismo
forçado.
Copiávamos tanto os Estados Unidos que até a sua experiência política
chegou pelo correio, ainda que lá apenas a natureza das coisas levasse
aos partidos Republicano e Democrata, podendo existir muitos outros, se
quisessem. Aqui não. Seriam só dois, mesmo. As casuísticas regras do
jogo impunham que para funcionar, as agremiações necessitariam de
determinado número de deputados e de senadores.
Logo o Congresso acuado e humilhado forneceu montes de parlamentares
ávidos de formar no partido do governo, denominado de Arena, Aliança
Renovadora Nacional. Uns poucos corajosos buscaram fundar a legenda da
oposição. Amaral Peixoto, Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Negrão de
Lima, Mario Martins e outros conseguiram o número necessário de
deputados, mas, na hora de fazer as contas, faltavam dois senadores.
Para o governo Castello Branco seria um vexame o Brasil dispor de
apenas um partido, evidência a mais da ditadura que nos assolava. Sendo
assim, o próprio presidente da República convocou ao seu gabinete dois
leais correligionários, Rui Carneiro, da Paraíba, e José Guiomard, do
Acre.
Diz a lenda que os dois senadores imaginaram a hipótese de ser
convidados para ministros, espantando-se quando um constrangido marechal
apelava para ingressarem no MDB. Cumpriram a missão e foram, até o fim,
dois leais servidores da oposição. Por cautela, na hora de escolherem o
presidente do partido, os cardeais ditos oposicionistas foram buscar um
militar. Era o senador Oscar Passos, do Acre, herói da FEB e nem por
sombra ligado ao regime anterior, de João Goulart e Leonel Brizola.
Ulysses Guimarães ficou com a vice-presidência.
Fazendo das tripas coração, o MDB começou a atuar de forma tímida,
estabelecendo-se no país o mote de que o primeiro governo militar criara
dois partidos: o do “Sim” e o do “Sim senhor”!
Vieram as eleições parlamentares e muita gente pregava o voto em
branco. Para acomodar os diversos grupos antes conflitantes e agora
“revolucionários” desde criancinhas, inventaram a sublegenda, capaz de
abrigar no guarda-chuva da Arena desafetos tradicionais como os egressos
da UDN, do PSD, do PSP e outros partidos extintos. Eram na verdade três
num só, em quase todos os estados.
Mais eleições, quatro anos depois, elegendo-se pelo MDB um grupo
jovem, infenso à acomodação dos caciques, logo chamados de “autênticos”:
Marcos Freire, Fernando Lyra, Chico Pinto, Lysâneas Maciel, Paes de
Andrade, Alceu Collares e mais uns poucos, como deputados, esmeravam-se
em tentar fazer oposição de verdade, denunciando o arbítrio dos
detentores do poder. Eram tolerados, até para o governo fazer média
internacional. Como Oscar Passos não se reelegeu para o Senado, passou a
presidência a Ulysses Guimarães.
Sucederam-se Costa e Silva e Garrastazu Médici, com o país já sob o
tacão do AI-5, o pior dos instrumentos de horror político. Cassações às
centenas, o MDB chegou a pensar na auto-dissolução, mas seguiu em
frente. A farsa das eleições presidenciais indiretas deu a vez ao
general Ernesto Geisel, a ser “eleito” pelo Congresso, onde a Arena
dispunha de dois terços dos deputados e senadores.
Coube aos autênticos engendrar uma reação: por que não lançar um
anticandidato, já que a lei eleitoral permitia a propaganda pelo rádio e
a televisão? Aproveitariam a campanha para expor críticas e idéias.
Pensaram em Aliomar Baleeiro, então ministro do Supremo Tribunal
Federal, que recusou. Fixaram-se em Barbosa Lima Sobrinho, presidente da
ABI, que aceitou. Foi quando Ulysses Guimarães, sempre presidente,
reivindicou a missão, ficando o dr. Barbosa como vice.
No dia do lançamento da candidatura, mais frustração: o presidente da
República que saía, Garrastazu Médici, proibiu a transmissão. E a
surpresa das surpresas: o discurso do candidato oposicionista
constituiu-se numa das mais belas peças da crônica republicana. Exigiu
liberdade, falou em anistia para os cassados e perseguidos e empolgou
autênticos e não autênticos. “A caravela vai partir. As velas estão
pandas de sonho e aladas de esperança. Posto no alto da gávea pelo povo
brasileiro, espero um dia poder anunciar: “alvíssaras, meu capitão!
Terra à vista! À vista, a ansiada terra da liberdade!”
A campanha rendeu frutos, coincidindo com o desgaste dos governos
militares. Nas eleições de 1974, para o Congresso, havia uma só vaga de
senador por estado. Eram vinte, e o MDB elegeu dezesseis. Os caciques
refugaram apresentar-se. Por via das dúvidas Ulysses, Tancredo e outros
preferiram continuar candidatando-se à Câmara dos Deputados
. O partido que selecionasse correligionários dispostos ao
sacrifício, nos estados, já que o rolo compressor da Arena permanecia o
mesmo. Apresentaram-se Marcos Freire, por Pernambuco, Paulo Brossard,
pelo Rio Grande do Sul, Roberto Saturnino, pelo Rio, Orestes Quércia,
por São Paulo, Itamar Franco, por Minas, Leite Chaves, pelo Paraná,
entre outros.
Foi uma surra memorável, para o governo, prenunciando que quatro anos
depois, quando seriam duas as vagas de senador por estado, a oposição
dominaria a casa. Isso se não elegesse também maioria na Câmara,
credenciando-se a fazer o futuro presidente da República, pelas regras
do jogo impostas pela ditadura.
A volta à democracia ainda estava distante e, para não perder o poder
futuro, em 1977 o general Ernesto Geisel fechou o Congresso e editou o
“pacote” de abril, criando o senador indireto, biônico, estabelecendo a
vinculação total de votos e outros atos de arbítrio.
Mesmo assim, a sorte estava lançada. Geisel impôs o último
general-presidente, João Figueiredo, tendo o MDB lançado outra dupla de
anti-candidatos: o general Euler Bentes Monteiro e Paulo Brossard, que
obviamente foram derrotados.
A corrente, porém, era definitiva: Figueiredo extinguiu o
bipartidarismo forçado, concedeu a anistia e preparou-se para a escolha
de um civil para sucedê-lo, desde que fosse da Arena, agora transformada
em PDS. O MDB passou a PMDB, obrigado a acrescentar o prefixo de
“partido”.
A campanha das “diretas já”, conduzida pelo partido, eletrizou a
nação, ainda que sem conquistar o número necessário de votos, no
Congresso. Mesmo assim, era o fim da ditadura. Passou-se para a oposição
um grupo de dissidentes do partido governista, reagindo à possibilidade
de Paulo Maluf tornar-se o candidato oficial. Aureliano Chaves, José
Sarney, Antônio Carlos Magalhães, Jorge Bornhausen e outros ajudaram a
dar a vitória a Tancredo Neves. Fossem as eleições diretas e o candidato
seria Ulysses. Ainda indiretas, melhor o sagaz governador de Minas.
Sucedeu-se a tragédia, o novo presidente, fundador na Nova República,
adoece na véspera da posse. Coube a Ulysses Guimarães, sempre
presidente do partido, decidir que tomaria posse José Sarney, vice de
Tancredo por conta da necessidade de composição com a dissidência
governista.
Seguiram-se cinco anos de governo do cristão-novo no poder,
compartilhado por Ulysses e o PMDB, que nas eleições seguintes elegeu
todos os governadores, menos um, fazendo ampla maioria na Câmara e no
Senado.
Vale parar por aqui, já que com as eleições presidenciais de 1988 o
PMDB desapareceu. Deixou de ser o partido de luta que era, tornando-se
ainda no governo Sarney o partido do fisiologismo. Do aproveitamento das
benesses e das nomeações. Foi moralmente minguando nos governos de
Fernando Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique e Lula. Sequer esboçou
um gesto de reação quando o sociólogo impôs ao Congresso a reeleição no
exercício do cargo. Apoiando governos os mais dispares, lutando por
favores e vantagens, perdendo até a coragem de lançar candidatos à
presidência da República, o PMDB encontra-se a caminho do fim.